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Entrevista

Conheça a DJ Iasmin

Um papo sobre música, pandemia e confluência feminina

DJ Iasmin
Foto: Divulgação

Nascida em São Paulo, Iasmin Ribeiro é DJ, sonoplasta e colecionadora de vinil. Estilista por formação e amante da música, é idealizadora do coletivo “QG das Minas” em parceria com a DJ Vivian Marques, a partir do qual fortalece e incentiva o trabalho de mulheres na cena da discotecagem. Durante a pandemia, Iasmin se uniu a outras mulheres atuantes na cadeia produtiva da música e idealizaram o coletivo “Uh! Manas TV”, que reúne mais de 120 mulheres de diferentes estados e países em uma programação de apresentações musicais online diárias.

Em suas apresentações, Iasmin explora a diversidade existente na música brasileira permeando diferentes épocas, buscando sempre dar visibilidade a produções de artistas independentes. Com profundidade inerente a quem tem propósito, Iasmin contou um pouco sobre a sua trajetória e sobre os trabalhos que tem desenvolvido nesse momento pandêmico.

 

DJ Iasmin

Foto: Douglas Aguiar

SOM: Iasmin, como você começou na música?

Iasmin: Eu sempre tive uma ligação emocional com a música, mas esse contato de fazer e aprender veio bem mais velha. Na verdade, eu acho que o primeiro momento que eu tive muita vontade de tocar foi quando eu comecei a frequentar centros de Umbanda. A música era uma parada que me levava para esse lugar de conexão, realmente mexia comigo. Um dia, em 2011, eu estava numa feira na Vila,  passou um bloco de maracatu na minha frente e eu comecei a chorar na hora. Na semana seguinte, eu fui atrás do grupo e comecei de fato a aprender a tocar. O primeiro instrumento que escolhi foi a alfaia. Participei das oficinas do grupo e comecei a aprender mais sobre a cultura popular, a me conectar com o coco de roda, o jongo e me joguei. Comecei a estudar os instrumentos, comecei a tocar no grupo. Aprendi que a cultura popular é um grande encontro e uma grande brincadeira, com todo respeito que existe. Nesse caminho, comecei a ter algumas inquietações sobre como as coisas se estruturavam.

Participei de algumas oficinas com mestres de Recife, aprendi as diferenças de linguagens de toques, de nações, conheci algumas que mulheres não tocam.. e isso me fez entender essa dinâmica machista que também existe ali. Muitos maracatus têm homens à frente. Então, conheci a Mestra Joana, que é uma mulher à frente de um grupo, ela é mestra da nação Encanto do Pina e é muito bonito. Mas o maracatu foi um ambiente que, por eu ser mulher, fui exposta várias vezes. De eu chegar numa batucada em outro grupo e o mestre parar tudo e pedir só para eu tocar entre uns 50 batuqueiros. Isso me incentivou a buscar outros caminhos, a estar mais próxima de mulheres, e eu conheci mulheres incríveis. Conheci o “Baque Mulher”, a Mônica do Coco de Oyá, que me trouxe uma outra visão sobre essas coisas.

SOM: E como você começou a atuar na discotecagem?

Iasmin: Eu trabalhava como estilista numa marca de moda,  mas a coisas não eram como eu esperava. Ainda mais por eu trabalhar numa parte de mais consciência, eu fazia modelagem para plus size, mas vivenciei algumas coisas pesadas ali dentro da empresa. (…) Eu sempre fui muito rolezeira, gostava de ver os DJ’s  tocando, tentava entender o que acontecia ali, mas vislumbrava mais como uma forma de diversão. Dois dias depois que eu fui demitida, uma amiga me mandou uma oficina de discotecagem que ia acontecer no Pratododia, que era um lugar que eu sempre frequentei, conhecia varias pessoas, e era uma mulher, a professora. De primeira, eu falei pra ela “ah, não, isso não é pra mim”, eu tinha 28 anos na época, me achava velha para fazer. Ela me incentivou e eu fui, morrendo de vergonha. No primeiro dia do curso eu já falei “Meu Deus do céu, isso aqui é minha vida!” (risos). Entrei no curso e virou uma chave na minha vida. Comecei a estudar muito, era a Vivian Marques a professora, e o Prato estava promovendo essa oficina de formação para incentivar mulheres a entrarem na cultura do DJ.

Muito louco que quando cheguei e vi, a minha turma do curso era genial. Uma das alunas era a Dani do Feminine Hi-fi, a outra era a Milena, uma das produtoras do Prato que tem um projeto lindo chamado Discotecarias, a Paulinha que é uma produtora executiva foda e hoje a gente trabalha junto na Uh!Manas, a Lela Lima, uma DJ, figuraça. Tinha manas mães, manas que não tinha intenção de ser dj’s... Enfim… foi assim que eu comecei nesse processo de ser DJ. Foi também quando eu comecei a comprar vinil.

Curadoria musical e Pandemia

Iasmin: Nesse processo da discotecagem, eu comecei a encarar como um trabalho disseminador de informação. Eu encaro muito dessa forma e é a minha lógica de pesquisa. Por exemplo, eu gosto muito de samba-reggae, então vou buscar um contemporâneo que traz essa linguagem do samba reggae. Eu tenho essa preocupação de curadoria, de sempre trazer artistas independentes. Eu sou a DJ que fica mandando mensagem para minhas amigas que cantam, pedindo para elas me mandarem as tracks. Eu tenho muito mais esse posicionamento. Acho massa você ter esse lugar de entretenimento, de uma pista, de estar ali curtindo o seu som, mas não gosto dessa ideia de apenas por entretenimento, porque você fica muito presa ao seu público. Eu sempre tenho essa preocupação de fazer a curadoria. Nem sempre é uma curadoria que as pessoas vão dançar muito, mas é um momento de troca.

Trazendo para esse contexto da pandemia, a live foi um ambiente que eu gostei muito nesse sentido, porque você não fica muito preso nisso de fazer as pessoas dançarem. Você tem uma flexibilidade maior. Já fiz live em diversos horários, até sete horas da manhã. Isso me permite mostrar diversas curadorias.

SOM: De que forma a pandemia impactou no desenvolvimento do seu trabalho?

Iasmin: Na verdade, teve um impacto muito grande porque eu comecei esse processo da discotecagem em 2018, com essas inquietações de trampo autoral, também comecei a buscar cursos onde comecei a aprender a usar programas de produção. Nesse processo de estudar muito, também, eu comecei um parceria com a Vivian. Foi um processo muito lindo porque ela começou a me convidar para dar workshops de controladora. E era muito especial, porque era pra mulheres, no Prato. Eu nunca imaginei que viveria isso.  Mas com o tempo, comecei a falar conversar com a Vivian sobre a dificuldade de encontrar lugares para tocar, e no final de 2019 a gente criou o “QG das Minas” para acolher essas mulheres recém formadas e precisavam dessa experiência de tocar em alguns lugares.

Começamos a buscar lugares diferentes para tocar, começamos a oferecer serviços de discotecagem como coletivo para festas e estávamos programadas para dar continuidade as atividades em março de 2020 e aí veio a pandemia. Tivemos que cancelar tudo e eu fiquei desesperada. Em 2019, eu tive muita sorte, muitas coisas muito boas aconteceram nesse processo. Eu toquei na Virada Cultural de SP, no Lounge do Lollapalooza, numa festa lá no Paraná, umas coisas que não imaginava. No carnaval de 2020, por exemplo, eu trampei quase o carnaval inteiro. Estava participando de um show com o Jacintho, que se chama “Tropical desespero”.  E aí veio a pandemia e eu fiquei em choque. Mas aproveitei para criar mixtapes, a primeira que fiz se chama “Tempos Insanos”, que fala sobre a pandemia, e comecei a entrar nessas piras de produzir.

Entrei na SP Escola de Teatro para continuar a estudar e, no QG das Minas a gente decidiu a começar a fazer lives. Em maio de 2020 saímos do Instagram, porque eles derrubavam as apresentações por conta de direitos autorais e fomos para a Twitch TV. Criamos o evento “Sábado Sonoro”, que rola até hoje e foi uma saída muito boa para a gente não se desespera. Mas, ao mesmo tempo a gente conseguiu enxergar como acaba sendo elitizado esse rolê da live porque exige equipamentos para mandar som direto, sem ser ambiente, uma certa qualidade de internet…

Nisso, percebemos que o negócio era a internet. Eu comecei a ir atrás das Dj’s que eu admirava muito e as que tinham projetos interessantes para participar coma gente e eu pude me conectar com mulheres de diferentes lugares do país. Tivemos convidadas do México e diversas convidadas muito importantes, como a DJ Preta de Salvador, que tem um projeto massa para mulheres de lá, a DJ Donna, que discoteca há 20 anos, já foi ganhadora do WME. No entanto, na Twitch, os line-ups eram preenchidos por homens brancos, mesmo nesse contexto pandêmico, as mulheres não estavam sendo visibilizadas, como sempre foi.

Uh! Manas TV

Iasmin: Chegou um momento que uma mana, a Mary G, uma DJ que tem uma pesquisa bem foda, usou o espaço dela em um desses programas para trazer pautas de equidade de gênero nos line-ups online. A partir desse bate papo, a Tata Ogan abriu uma reunião no zoom e basicamente entraram oito mulheres que estavam assistindo: eu, Carlu, Lela Lima, Mary G, Milena Camilotti, Paula Chiaretti, Rafa Jazz e Tata Ogan para conversar sobre a impossibilidade de continuar sendo dessa forma. Aproveitei o ambiente acolhedor para levantar a pauta do set-up, porque os equipamentos de discotecagem é caro e muitas mulheres não tocam porque não tem estrutura, porque não tem os toca-discos, por não rolar esquema de emprestar equipamento, enfim… A diversidade precisa existir em todos os aspectos, de mina que cria beat à quem toca de controladora, como eu, de ter pessoas de diferentes regiões, e foi uma discussão muito importante.

Após essa reunião, fizemos um evento de 12 horas chamado de “Vitrolinha” e foi muito bonito. Uma ajudando a outra a lidar com o ambiente online, com a internet… Chegou um momento que a gente foi agregando outras mulheres. Chegamos a fazer 24 horas de evento direto. A partir disso, o coletivo foi tomando outras proporções e a gente foi se estruturando enquanto coletivo de profissionais. Buscando entender como cada uma atua na cadeia produtiva da música para se fortalecer, não só dentro do coletivo, mas na trajetória pessoal. E agora a gente está em diversos Estados, partes do mundo. Tem mulher de todos os Estados do Brasil e até do Japão. Com o tempo, veio a indicação do coletivo para WME na categoria Inovação na Web e a gente começou a entender que estava realmente sendo vista. Fomos convidadas para Virada Cultural, a Vans chegou para nos apoiar financeiramente durante três meses e a gente conseguiu contemplar maioria das mulheres que fazem parte do coletivo com esse recurso.

Tudo isso foi um retorno muito grande, sobre a transformação que o projeto propõe. Acho que esse foi meu maior projeto nessa pandemia, ser cofundadora de um coletivo nessa proporção. Tem sido um aprendizado muito importante estar nesse ambiente, por mais que seja intenso em alguns momentos, vale a pena.

SOM: Quais outros projetos você tem desenvolvido?

Iasmin: Para além da Uh! Manas, recebi um convite para produzir o remix uma faixa intitulada “Doce Mar”, que é da Emma Platais, uma artista americana que conheci através da DJ Flávia. Ela abriu um selo chamado Serena Sounds e foi a primeira mulher com quem fiz curso de remix e sempre me indicava para trabalho, me ajudava em várias coisas e me chamou para fazer esse remix. Foi lançado em agosto de 2020, foi um processo desafiador por diversos fatores, sobretudo externos, mas consegui fazer respeitando o meu tempo de aprendizagem.

E tem também a SP Escola de Teatro que tem sido uma experiência intensa e importante. Todas as pessoas são muito talentosas, muito agilizados. A escola me trouxe essa percepção libertadora do que é certo ou errado e isso tem me ajudado bastante nos processos, de me permitir fluir com os processos. E, a partir da escola, participei do Festival Satyrianas com o texto de Carol Pritzel, na sonoplastia em parceria com o Hugo Bispo.

Agora tenho pensado muito no futuro. Esse processo de instabilidade na pandemia faz a gente se colocar em dúvidas, mas o universo sempre traz respostas que nos mostram que estamos no nosso caminho. Tenho começado um processo de pesquisa com meu companheiro, a gente quer desenvolver um projeto audiovisual, de trazer essa linguagem mais eletrônica. (…) Minhas três frentes de trabalho nessa pandemia têm sido a pesquisa musical, a discotecagem e produção executiva, que é uma coisa que já tenho em mim…

Eu tenho pensado muito em legado, na forma que quero me posicionar, o que eu quero deixar para quem vem depois… o meu desejo é que as coisas existam para causar transformação, gerar identificação, a Uh! Manas, por exemplo, tem esse papel…

 

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Escrito por

Comunicadora instantânea, clarinetista entre quatro paredes, sonoplasta e devota da vida. Acredito no poder de transformação social da música e busco conhecê-la desde o seu contexto. Garimpo vinil vez em quando.

1 Comentário

1 Comentário

  1. Henrique

    28 de maio de 2021 at 15:19

    Parabéns pela entrevista, muito boa!

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