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Entrevista

CurraL 001: A carta de amor do techno à Belo Horizonte

Coletânea traz 19 artistas e uma pancada de referências a capital mineira

CurraL
Lucas Chagas/CurraL

É fato que o cenário clubber tem cada vez mais ganhado força no Brasil. Nos últimos anos produtores e coletivos de todo país reivindicaram a carga política presente na história da música eletrônica, onde festas – para além de laboratórios estéticos – são também um ato performativo de celebração e resgate a suas raízes: negras, latinas e LGBTQIA+. 

E apesar da fama de província, foi em Belo Horizonte – a capital mundial dos botecos – que em 2016 surgiu um desses cultos à música eletrônica: a festa CurraL. Formada pelos irmãos Arthur Cobat e OMOLOKO, a festa carrega em seu título uma homenagem ao antigo nome da cidade de Belo Horizonte, Curral Del Rei, e também a cidade natal de seus criadores, Currais Novos (RN). 

Ainda sem poder festejar novamente por conta da pandemia, a CurraL decidiu reunir artistas independentes da capital mineira e lançar a primeira coletânea de música eletrônica autoral da cidade. Com curadoria de OMOLOKO e produção executiva de Cobat, o VA ‘’CurraL 001’’ traz 19 artistas e uma pancada de referências a capital mineira, que se estendem da capa a tracklist. 

CurraL

Maria Clara Zica/CurraL

Conversamos com Arthur Cobat e OMOLOKO sobre a coletânea que já é um marco na história da música eletrônica feita nas terras do Clube da Esquina. Confira!


ENTREVISTA CURRAL REC

Como surgiu a ideia da coletânea?

OMOLOKO: Belo Horizonte ao longo desses últimos 6 anos construiu uma cena muito sólida com festas e uma propagação da cultura de DJ. Naturalmente esse processo de expansão da cena fez começar a surgir artistas com trabalhos autorais e mais pessoas se dedicando a produzir suas próprias músicas. Quando chegou a pandemia e fomos obrigados a repensar nossas atividades, imediatamente começamos a elaborar e a juntar esses artistas na intenção de também tirar do papel uma ideia que já era um desejo: transformar a curral em gravadora. Até então era uma festa, então finalmente conseguimos dar esse passo para impulsionar esse movimento autoral que vem crescendo cada vez mais em nossa cidade.

Cerca de quantas pessoas (djs, produtores, etc) fazem parte desse projeto?

OMOLOKO: Sao 22 pessoas envolvidas no projeto, 19 produtores musicais. O Marcelulose é de Porto Alegre e nos ajudou com as masterizações das músicas, porque elas precisam de 2 configurações diferentes, uma para ser divulgada digitalmente nas plataformas e outra muito específica que vai no vinil. A Maria Zica é uma super designer local fez a concepção visual. Eu fiquei responsável por articular a curadoria dos artistas e idealizar o projeto. E o Arthur Cobat é nosso produtor executivo, que vendeu a nossa ideia para a Beck’s Beer, que é apostou nessa iniciativa e foi extremamente importante na materialização do vinil. O Luis Cossenzo é um dos representantes da Ambev que acompanha a nossa cena há um tempo e nos deu uma grande força na aprovação desse projeto.

Qual a ideia por trás da capa do disco?

OMOLOKO: Deixamos muito livre para a Maria Zica pensar sobre a capa e, segundo ela, a ideia foi pegar elementos da noite, como o drink, as taças e juntar com o céu de Minas Gerais, que é sempre muito bonito. A vaquinha da capa vem pelo fato das pessoas brincarem que BH é uma grande roça. O nome “CurraL” é inspirado na minha cidade natal, Currais Novos (RN) e no primeiro nome de BH, que incialmente era Curral del Rei. Então ela meio que laçou todos esses elementos de uma forma mais lúdica.

CurraL

Reprodução/CurraL

A música eletrônica é uma experiência por si só: demanda toda uma atmosfera. Você acha que por esse motivo as lives não tenham sido tão proveitosas para a cena techno quanto para outros gêneros?

Arthur Cobat: Não acredito que seja especificamente por esse motivo. Assisti diversas lives de música eletrônica que foram muito à frente de qualquer coisa feita por outros nichos em termos de imersão com o público. Mas isso diz muito mais sobre o investimento que cada gênero tem, do que sobre os retornos que cada um pode dar. Aqui no Brasil as lives de música sertaneja tiveram muito mais investimentos financeiros, justamente pelo fato do retorno para quem patrocina ser mais garantido devido ao grande público que consome esse tipo de música aqui em nosso país. A música eletrônica sempre esteve muito ligada ao audiovisual, atrelando a música com essas experiências gráficas/sensoriais, principalmente com performances, que se destacaram muito nesse período. Vejo que é tudo sobre o quanto as marcas investem na experiência, independente da cena que a promove. Lembro que assisti uma live de um festival de Londres, com DJ’s de dance music, e eles utilizaram a plataforma do Second Life, criaram um modelo único de experiência que eu não vi outros gêneros arriscando. Talvez o Travis Scott, rapper, que fez a live dele pelo jogo Free Fire também entregou algo parecido. Nós participamos do Festival Sarará e em alguns momentos nossa sala tinha mais pessoas assistindo do que nos palcos com músicas mais populares. Mas é bem difícil fazer uma live que engaje sem ter um bom investimento de algum parceiro, independente do gênero.

E como as pessoas que vivem desses eventos tem se mantido durante a pandemia?

Arthur Cobat: Tem sido um dos piores momentos para a nossa cena. Em um cenário normal já é muito difícil conseguir manter nossas contas, porque trabalhamos com um budget sempre desafiador. Muitos artistas que moravam em Belo Horizonte precisaram voltar para a casa dos pais, porque tornou-se inviável se manter na capital sem uma renda. Eu e o OMOLOKO, que somos irmãos, somos um exemplo dessas pessoas que entregaram apartamento em BH e regressamos. E o nosso setor vai ser o último a realmente voltar a atuar, porque a gente trabalha com festa.

CurraL

Lucas Chagas/CurraL

 

Na sua opinião, o ressurgimento da cena techno no Brasil está ligado a uma necessidade política?

Arthur Cobat: Sem dúvida! A música eletrônica nasceu à partir de movimentações que sempre carregaram muita política social. A gente gosta de falar que nunca é só uma festa. As vezes as pessoas pegam referências lá de Berlim ou Detroit, que são cenas muito conhecidas na house music e Techno, mas não basta ir tão longe. É só a gente observar o que rola com os baile funks no Brasil, é um reflexo das demandas das pessoas que vivem ali. É uma expressão não só artística, mas carrega vivências de sobrevivência. Essa reivindicação pelo espaço público, que está cada dia mais privatizado e gentrificado, o carnaval, as festas que nascem de fato na rua, estão cada dia mais repreendidas. Porque não é um plano de governo ter minorias ocupando as áreas centrais de uma cidade. Então os nossos políticos higienistas vendem um papo de modernização, mas a gente sabe que tem muito preconceito envolvido nisso. Então não só as nossas festas de música eletrônica, mas também de hip-hop, funk, soul, samba dentre várias outras, elas tentam pulsar a sociedade em se atentar a todas essas problemáticas através de festas, encontros etc. E ainda tem o fato de estarmos vivendo um governo extremamente preconceituoso com várias minorias, o que acaba levando esses grupos a se conectarem como uma forma de proteção também.

Ítalo Almeida/Curral

”CurraL 001” já está disponível em todas plataformas de streaming e no bandcamp. Amantes da mídia física podem fazer a pré-venda da versão em vinil clicando aqui.

 

 

 

Escrito por

Gouthier é jornalista cultural, artista audiovisual e pesquisador em direção de arte fonográfica.

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