Conecte-se

Entrevista

Dudoo Caribe: Sistema de Som, DUB e a Trilogia

Em conversa via Zoom, músico conta sua trajetória e relação com a cultura sound system

Dudoo Caribe
Dudoo Caribe por Marcio MFR

Após seis anos, o DJ e pesquisador da cultura do sistema de som Dudoo Caribe trabalha para o lançamento do seu segundo EP que compõe o projeto Trilogia, tendo como parceiro de trabalho o músico e produtor musical soteropolitano Danilo Jahpa. O trabalho levará o título “Mental”, antecedendo o EP “Espiritual” e sucedendo o “Físico”. Trilogia traz o DUB como produtor de sentido, além de contar com a participação de outros artistas importantes do cenário do reggae baiano.

Dudoo é um dos fundadores do primeiro Sistema de Som da Bahia, o Ministereo Público. Em conversa realizada através do Zoom, o artista contou sobre o início da sua trajetória na música e de que maneira foi aprofundando a sua relação com a cultura do sound system:

Trajetória de Dudoo Caribe

Nascido em Salvador, Dudoo Caribe iniciou a sua trajetória na música nos anos 1990, tocando numa banda percussiva do bairro da Boca do Rio chamada Obatalá.

“Eu ouvia muito o som do Bob Marley. A partir dele eu fui pesquisar os sons que vinham da Jamaica e caí no samba-reggae, foi quando eu entrei na Obatalá tocando percussão. Envolvido com o samba-reggae, eu fui até o samba. Durante esse tempo envolvido com o samba, eu tive que estudar muito. Então, o samba me levou a ouvir muito a música brasileira. Aí, eu escutei Martinho da Vila, Nelson Sargento, Cartola, Batatinha, Riachão, toda essa galera. Eu tinha que escutar por conta da percussão e só podia fazer isso indo ao vinil. O vinil tinha se tornado lixo na época, hoje é luxo. A gente achava muito disco no lixo.”.

Dudoo Caribe se formou em Publicidade e, a partir do ingresso na faculdade, conta que passou a transitar pelo circuito de música independente da época, a princípio, promovendo shows de bandas na cidade. Como percussionista, também atuou no cenário underground soteropolitano acompanhando o sambista Alexandre Menestrel, a banda de rock Zambotronic e a de rap Afrogueto.

Depois que toquei com o Le Menestrel, com esse negócio de faculdade, comecei a me aproximar muito da galera da banda Zambotronic… tinha um amigo meu da faculdade, o Ricardo Castelo, que fazia parte da banda, e aí eu fui chamado para tocar com eles, e fiquei até o fim. A Zambotronic era uma banda muito legal, velho… já mexia com essa coisa do suingue, tinha muito do funk com distorção, do soul. Uma época que a pesquisa da música brasileira estava muito forte em mim, e acho que na galera também… A gente tava descobrindo e escutando os clássicos, como Miguel de Deus, Toni Tornado… Os caras tinham uma pegada rock e estava se voltando para o groove. Zambotronic, para mim, foi uma das experiências mais fortes na música. Era um banda de rock e eu era percussionista, eu tinha de colocar percussão no rock da galera.”

Com o fim da Zambotronic, o músico conta que percebeu que a falta de transporte e estrutura na cidade dificultava o acesso de pessoas dos bairros mais afastados aos shows da banda, que se apresentava maioria das vezes no Rio Vermelho, bairro que fomenta o circuito da música independente de Salvador. Assim, Dudoo Caribe começou a pensar em formas de chegar até às pessoas que seriam público em potencial:

Na época estava muito em alta o fotolog, cada artista tinha o seu fotolog e se comunicava com a linguagem de vários lugares, inclusive do Brasil. Nisso, eu começo a descobrir que na Jamaica existia uma parada chama “Sistema de Som”. E isso era o que? Os caras iam até às pessoas para fazer acontecer as festas. Existia os interesses econômicos, porque geralmente era feito por donos de gravadoras ou por pessoas que vendiam discos. Então, isso começa a me instigar. Pô, a banda tava acabando porque a gente não tinha público para manter a gente. Nossos amigos e público fiel tava começando a pagar fralda, porque todo mundo já estava tendo filho. A gente precisava ir atrás de novas galeras. Assim, me veio a ideia de ter um sistema de som. Olha aí o reggae de volta… eu comecei a conhecer o reggae de verdade. Não que o reggae que eu conhecia antes não fosse reggae de verdade, mas eu comecei a conhecer o reggae de dentro da Ilha, não só aquele que saiu da ilha, que é de importância tremenda. Eu digo que se eu não tivesse ouvido Bob Marley eu não seria o cara que sou hoje, de verdade. Para mim é o maior revolucionário que já existiu.

Cultura Sound System – Início do Ministereo Público

“Teve um dia, Ozório Oz, que tocava na Afrogueto, era véspera da lavagem do Bonfim, ligou pra mim e disse que o tio de um colega dele da faculdade queria vender um som porque estava doente e precisava de uma grana. Só que ele disse que a gente tinha que ir lá no dia seguinte, no dia da Lavagem do Bonfim, e eu disse que não ia rolar não porque eu tinha esse compromisso com minha fé. Eu já vinha conversando com o EdBrass, que já era parceiro desde a Zambotronic, e com o Pablo Dinada, a gente compactuava dessa ideia de construir o sistema de som, eu já tinha o nome Ministereo Público. A gente só não tinha som.

Nesse dia da lavagem do Bonfim, Ozório me aparece chamando pra ver esse som, e aí a gente foi ver.. mas estava faltando uma pessoa que entendesse realmente de som, e a pessoa que é especialista em som é o Regivan Santa Bárbara. A gente chamou Regivan e fomos lá ver o som do rapaz… Chegando lá, esse rapaz, era um senhor que tava muito doente.. ele tinha um projeto de cinema itinerante, onde ele levava o cinema dele para os lugares. Então, ele queria passar o som para alguém que fosse continuar a história dele, continuar alguma coisa. Regivan disse que o som funcionaria para o nosso próposio, mas precisava de manutenção e mais alguns equipamentos. E aí o Ministereo Público se torna um Sistema de Som. Os integrantes nesse momento eram eu, EdBrass, Ozório, Pablo, e Regivan que também entra no bolo. Depois chega os outros meninos, Pureza, Raiz, Russo… Ainda tinha Papão, que fazia Mc com a gente.

Por volta de 2006, os meninos do 071Crew, que são MFR, Dimak e Fael Primeiro, viajam para o Rio de Janeiro para participarem do evento chamado Meet of Favela, o encontro das favelas, onde reuniam grafiteiros e artistas no geral, para fazer uma ação. Quando eles voltam com essa vivencia, trazem a ideia de que a gente precisava fazer coisas aqui, e aí surge o Mutirão Mete Mão, que é o que? Com um ponto de luz e um carreto, a gente levava para qualquer comunidade o sistema de som, tocando reggae roots, dub e dancehall, sempre com convidados locais. Se não me engano, fizemos em 15 bairros e três cidades: Salvador, Feira de Santana e Cachoeira. Com isso, a gente começou a chegar na galera e a ter nome na cidade.

Com tudo isso, fomos buscando lugares fixos na cidade para se apresentar, não só como sistema de som mas como DJs, e começamos a tocar nas casas noturnas de Salvador. Começamos a realizar as Quintas Dancehall, e a coisa ganhou uma visibilidade incrível. Nesse momento, fomos mostrar à cidade a nossa proposta sonora, enquanto equipe de som. Éramos três DJs, dois Mc’s e um técnico de som. Os DJs: eu, Raiz e Deference, e Fael e Russo faziam Mc e Regivan era o técnico de som. Diversos MCs da cidade participaram conosco, sempre teve essa abertura. Em 2009, produzimos o primeiro disco “Sistema de Som Perambulante“, lançado pela RedBull Musc Academy, onde gravamos a galera daqui. E em 2010 eu me desligo do Ministereo.”

Escute o EP Sistema de Som Perambulante:

 

Quando eu saí do Ministereo, comecei a fazer um trabalho e customização de carro de café. Juntamente com meus parceiros Germano Estácio e MC Daganja, criamos o Ambulante Original: um carrinho de café com subwoofer e com o toca disco em cima. Era uma plataforma que a gente ia fazendo intervenções nos lugares, não precisava de ponto de energia, a gente usava bateria.. Aí fomos pagar a promessa na Lavagem do Bonfim, fizemos no Rio Vermelho, Festival de Verão… durou um bom tempo esse trabalho… desativamos ele em 2016. Depois disso eu fui trabalhar mais com mídias ambulantes, que tem similaridade com o sound system também.

Sistema Kalakuta

Paralelo ao Ambulante Original, fui convidado pelo DJ Riffs para fazer parte do Sistema Kalakuta. O Kalakuta começou em 2011 e está até hoje… Depois de um tempo, ficou somente eu e Dj Sankofa. Nesse período, já nos apresentamos em São Paulo, Campinas, Rio de Janeiro, Aracaju, Belo Horizonte, fomos até Gana, realizamos um festival lá em 2014. A gente conseguiu, juntamente com o coletivo mineiro Beat Selecta, ir até Gana realizar o festival Back to the Roots. Nos apresentamos em 4 cidades lá, tocamos com alguns DJs de Gana e fizemos uma apresentação no estilo sound system. Passamos 15 dias tocando. Alugamos um som e colocamos na rua. Conseguimos fazer a parada lá no outro lado do oceano… foi um momento muito especial porque eu pude ver de perto tudo aquilo que eu vinha pesquisando…

É intenso porque o Kalakuta é um sistema de som que só toca músicas africanas, é outra parada… Realizamos muita coisas aqui em Salvador, Cachoeira, São Felix, Valença”, relembra Dudoo Caribe.

Danilo Jahpa e a Trilogia

“Na construção do Ambulante Original eu comecei a mexer com musica digital. Eu era muito preso ao vinil, tudo era vinil, mas eu tinha que fazer outras coisas… né? E aí, apareceu na minha vida um rapaz chamado Dj Peu. Ele mexia com controlador, fazia som com o controlador. Ele comprou um e me emprestou. Aí a gente começou a trocar ideia, ele começou a frequentar minha casa e um dia ele me disse assim: “Rapaz, você precisa ir lá em Águas Claras.. tem um cara lá chamado Danilo Jahpa. Você precisa conhecer ele.”


Eu fui lá. Na primeira vez, o tal do Danilo Jahpa estava resolvendo algumas paradas, eu fiquei meio assim, mas disse a ele: “Massa, depois eu venho aqui com Alessandro (DJ Peu), e a gente troca umas ideias. Quero ver suas produções e tal”. Ele disse que eu poderia marcar de ir no estúdio dele.

Passou um tempo, Dj Peu passou lá em casa e me levou no estúdio do Danilo. Quando eu cheguei lá e eu ouvi as coisas dele, eu achei muito massa. Ele me mostrou as bandas que ele havia produzido, as composições autorais dele e eu achei muito bom e pensava assim: “que parada é essa rapaz?! Uma viagem!”. Mas aí fomos conversando, ele me mandou o EP da Banda Libertai, o disco que ele produziu aqui em Salvador, depois me convidou para fazer um DUB em cima das faixas desse EP. Nesse meio tempo, nosso amigo Alessandro sofreu um acidente e faleceu… foi ficar com Jah. 

Continuei o contato com Jahpa e a gente ficou se organizando para fazer um uso melhor dos sons aDUBados que fizemos. Eu mostrei o material para MFR, um artista plastico com quem sempre trabalho, o meu irmão, e ele disse que precisávamos fazer alguma coisa com isso, não deixar só no HD. E aí veio a ideia de fazer a trilogia, uma coisa mais filosofal, tratando dos três aspectos: Físico, Mental e Espiritual. Eu vinha trabalhando com o Jahpa desde 2014, e aí a gente lançou o primeiro EP, o Físico, que trata dos aspectos mais raciais, que são versões de três faixas do EP Libertai. “

Escute o EP1 Físico de Dudoo Caribe:

 

Após lançar o primeiro EP, convidei Danilo Jahpa pra produzir a Trilogia completa. Então, começa a epopeia do segundo disco. No final de 2017, a gente entrou no estúdio e gravamos baixo e bateria para o disco Mental. A gente gravou alguns Riddins/Instrumentais autorais do baixista Bobo Tafari e do baterista Vagner Encarnação, e a partir dessas audições, separamos três faixas para compor o segundo disco. Assim, eu fui atrás dos artistas que eu queria que gravasse para mim e gravei. Gravamos Jarbas Jacomé, guitarrista; depois, no estúdio Casa das Máquinas com Tadeu Mascarenhas, gravamos duas faixas; depois a gente gravou o teclado com Coringa Rabugento; na percussão, Germano Estácio e os cantores Rans, Mc da banda OQuadro; Mário Luma, que era vocalista da Semente da Paz, um grande incentivador; e Okwei Odili e Teekay Tha New Born, dois nigerianos. Estávamos com planos de lançar, mas a pandemia impossibilitou, pelo impacto financeiro.”

 

Echo Cultura

No meio do ano passado, Jahpa me convidou para montar os equipamentos na casa dele para fazer uma série de seções de DUB, já tínhamos tudo lá na casa dele… Jahpa é visionário, né?  

Então começamos o Echo Cultura, um espaço onde nós, como dois produtores, produzimos com a técnica de DUB. A gente parte da ideia da música instrumental mesmo, mas sabe que ela pode ganhar roupagens diferentes. Produzimos bastante coisa nesse tempo… Já temos uma produção onde contamos com a participação da Tatiana Trad (Sistah Sativa), Denison Doria e Fall Clássico.

Nesse meio tempo, fomos convidados para participar do documentário de Lazzo Matumbi, sobre os seus 40 anos de carreira. Recebemos um convite, muito feliz, de Fabrício, o baixista da banda Ifá. 

Adubamos três músicas de Lazzo que sairão no documentário. Particularmente, é uma das minhas maiores referências do reggae na Bahia… Sem palavras.

Danilo Jahpa e Dudoo Caribe

Danilo Jahpa e Dudoo Caribe por Germano Estácio

 

Veja Dudoo Caribe falando mais sobre seu trabalho com o Dub Free Lab

Escrito por

Comunicadora instantânea, clarinetista entre quatro paredes, sonoplasta e devota da vida. Acredito no poder de transformação social da música e busco conhecê-la desde o seu contexto. Garimpo vinil vez em quando.

Clique para comentar

Deixe uma resposta.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

LEIA MAIS

Xauim lança Flutuântico Xauim lança Flutuântico

Em disco de estreia, Xauim navega por atlântico da diáspora africana

Entrevista

De Rio a Mar De Rio a Mar

Sara Abreu traz força feminina em EP “De Rio A-Mar”

Lançamento

Ian Cardoso lança Ian Cardoso lança

Ian Cardoso lança clipe do mantra “Molhei Meu Pé”

Lançamento

Celo Dut avalia cena baiana: “É inocente pensar que um hit vai bater e mudar tudo”

Entrevista

S.O.M. — Sistema Operacional da Música — Desenvolvido por Mídia NINJA, Fora do Eixo e Hacker Space.

Siga!