Conecte-se

Entrevista

Indica: Grisa

Cantora inova no fazer e distribuir arte

Grisa
Foto: Arthur Xavier

Giovana Ribeiro dos Santos, ou simplesmente Grisa, começa a pavimentar sua carreira artística com o lançamento do EP “Caos // Mar Aberto” previsto para 22 de Junho. O registro tem produção da própria cantora e masterização assinada por Everton Surerus no Estúdio Canil em Juiz de Fora, Minas Gerais. A faixa “Incerteza II”, foi masterizada por Victor Brauer – compositor, produtor, criador do movimento mineiro Geração Perdida, integrante das bandas Desgraça, Lupe de Lupe, Ginge e Xóõ.

Formada em Engenheira Mecânica na Unicamp, Grisa é mestre em Engenharia Acústica pela Le Mans Université da França, e atuou como pesquisadora em Acústica Musical na Philharmonie de Paris e na Universidade de Edimburgo, capital escocesa. Giovana traz formas alternativas como explica: “captar o áudio com placas de metal presas a guitarra para criar vibrações inesperadas”, e cria instrumentos à custo zero no que ela chama de “Luteria Selvagem”.

A busca por experimentar novos elementos em suas músicas torna sua obra original, ao passo que a artista explora também formatos de distribuições fonográficas não convencionais. No fazer e entregar arte Grisa é única.

Non-Fungible Tokens (NFT)

Optando por lançar como criptoarte, ela desbrava um mundo pouco conhecido ainda para a cultura brasileira, o formato Non-Fungible Tokens (Tokens Não-Fungível). Seu recente single “Incerteza II” lançado pela plataforma brasileira hic et nunc, tem transações processadas em Tezos, uma criptomoeda mais sustentável se comparada ao Bitcoin e o Ethereum.

Passamos uma tarde com Grisa via Zoom, confere o papo

S.O.M: Como começou sua relação com a música?

Grisa: Desde que eu era pequena estudava música. Aqui na minha cidade tem uma banda mantida pela prefeitura, a Lyra. Fiz aula de flauta doce com três anos de idade. Depois com sete, comecei a tocar clarinete e violão, entrei para uma big band formada por professores e alunos da escola, e isso expandiu meu mundo. A gente tocava chorinho, jazz, bossa nova. Depois comecei a tocar sax barítono, fiz aula de guitarra e de piano. Mas assim, não posso considerar que toco as coisas porque eu não pratico todo dia, posso dizer que sei como funcionam os instrumentos. (risos)

S.O.M: Estou vendo uns teclados aí.

Grisa: Esse aqui é um órgão que achei em um brechó, achado da minha vida, um órgão que era vendido como brinquedo nos anos 1970. Em algumas músicas que estou gravando uso ele, o outro é uma controladora.

S.O.M: Então, você sempre soube que era música?

Grisa: Foi passando o tempo, com dezessete anos decidi que queria fazer Engenharia Mecânica, gosto muito de matemática, física, essas paradas. Pensei “vou deixar a música um pouco de lado”, a ideia era essa. Mas não consegui né?! Aí me mudei, pra fazer Engenharia Mecânica na Unicamp. Falei “vou focar aqui no curso”, e nunca deu certo (risos), porque sempre tinha uma banda, toda festa a gente arrumava um grupo de gente que tocava. Tive cover de Led Zeppelin, Black Sabbath, tinha um que tocava Blues, foi com esse grupo que a gente tocou no Echos, um bar de Campinas. A música estava sempre voltando, não tinha como fugir. A melhor coisa que aconteceu foi ter conseguido o intercâmbio na França, que era em Engenharia Acústica, Vibrações e Sensores… Tá dentro da Mecânica, mas a acústica eu consegui aplicar na música.

S.O.M: E como foi a estadia na França?

Grisa: Foi bom, era o que eu queria fazer, e a maioria das pessoas na faculdade mexia com música, foi aí que comecei a mexer com produção, eu nunca fiz um curso, era sempre com as pessoas, vários amigos DJs, eles gravavam as próprias coisas. Tinha gente que conseguia caixa de som, que fazia a caixa também.

A gente tocava nos rolês da faculdade, organizava quase toda semana uma festa. Aquilo virou uma boiler room, é tipo colocar os equipamentos do DJ no meio da sala, as caixas de som, mixava lá dentro, produzia na sala mesmo. Tinha uma cafeteria onde as bandas se apresentavam, toquei com algumas. Os alunos mantinham um estúdio dentro da faculdade. A gente ia todo dia, acabava a aula você tinha uma escala das bandas que iam tocar no estúdio.

Na faculdade também tinha um grupo de blues e jazz, que fiz parte, a gente pegou uns arranjos de música brasileira.

S.O.M: Dava para aprender produção de um disco?

Grisa: Não era uma Engenharia de Som, e sim de Acústica, na de Som você aprende produção, mas o que eu fazia o foco era na acústica, a física do som, materiais acústicos, como tratar ambientes para não ter vibrações que você não quer. Por exemplo: motor de carro tem uma vibração indesejada que você quer anular. Não era tanto para a música, essa parte fui pegando com amigos.

S.O.M: Você está gravando no seu quarto, tem aplicado essas técnicas?

Grisa: Eu faço umas gambiarras (risos). Faço isso mas de um jeito improvisado sabe – e no meu EP vai ter isso –, eu tenho uma guitarra, coloco uma lata em cima do captador dela, e eu sei mais ou menos como aquilo vai vibrar, captando o som como se fosse um microfone… Então eu cantei por cima dessa estrutura na guitarra. Tem uma passagem do EP inteira que fica um eco absurdo, como se fosse um reverb, mas é a latinha vibrando. É um migué (risos)

S.O.M: E qual o momento que você falou: agora é a hora de fazer?

Grisa: Agosto do ano passado, mas aconteceu muita coisa quando cheguei no Brasil, várias oscilações de sentimentos, estava bem perdida, mas teve umas coisas no começo da pandemia. Tipo em Junho teve uma oficina do Benke Ferraz – do Boogarins -, foram três dias, um evento do Coquetel Molotov. Isso abriu minha mente, foi um marco. Além de abrir a cabeça para um processo de produção mais livre, conheci muita gente daora, que manteve contato, foi dando um gás para fazer essas coisas. Tinha música gravada no intercâmbio, a “Escarlate” eu gravei na França, decidi lançar ela para fazer um teste, ver como era lançar música. Depois lancei “Selva de Pedra”, que foi outro rolê.

S.O.M: Ela foi na sua casa?

Grisa: É, praticamente, começou como um vídeo no YouTube, áudio do celular, eu e meus amigos falamos “vamos gravar”, fomos em um lugar bem bonito da cidade, minha amiga segurando o celular na minha cara. Aí como ficou legal, gravei num estúdio da cidade, fiz uma parte em casa. O EP foi genuinamente aqui.

As letras, foram surgindo na hora. No ano passado eu fiz três projetos de EP, na verdade, em momentos diferentes do ano. Na França fiz algumas, cheguei aqui fiz mais duas, mas acabei deixando de lado, tenho elas mas não gravei. Junho, junto com a oficina do Benke eu já estava experimentando umas coisas de produção, plugins, Ableton. Fiz um EP, tá pronto, onde o tema dele é uma atmosfera de uma cidade, mas não lancei, tinha que tratar o som. “Selva de Pedra” também nasceu em Junho, porque muitas vezes estou no quarto e começo a tocar.

Olha eu nunca achei que fosse escrever, eu nunca senti… Do nada eu comecei a escrever muito, as coisas vem vindo na minha mente, veio como uma necessidade. Toda hora eu estava no metrô e vinha na minha cabeça as frases. Meu primeiro single “Escarlate” foi dentro do metrô, um domingo cedo, eu estava de ressaca, anestesiada, só vivendo (risos). Sentei na estação porque ia pegar outro metrô, peguei o caderninho e é meio que frases das coisas que estou observando misturadas com as coisas que estou pensando, e que estou sentindo, fui escrevendo. A letra do jeito que escrevi é o que é hoje.

Eu estava sentindo muitas coisas naquele dia, eu sentei na cama, peguei o violão, é como se eu procurasse um som, eu não penso no acorde, eu não penso na teoria, eu encontro um som, e as vezes ele vem direto na minha cabeça. É como se aquele som fosse o sentimento que sinto na hora. Na “Escarlate” aconteceu isso, peguei a letra e coloquei do lado com o celular gravando, e comecei meio que encaixar, cantar aquilo que eu tinha escrito por cima do que estava tocando. E aquela gravação é do jeito que é até hoje. Aí depois eu tenho que aprender a tocar. (risos)

Grisa

Foto: Arthur Xavier

S.O.M: Depois de “Selva de Pedra”, o curso de produção com o Benke te deu base pra fazer o EP “Caos // Mar Aberto”. Foi feito em Agosto de 2020?

Grisa: Isso. Em Agosto estava acontecendo muita coisa, eu estava instável, sensível, e essas músicas todas do EP que vou lançar em Junho foi tudo em Agosto.

S.O.M: E foram todas esse processo de “Escarlate”?

Grisa: Sim, bem parecida. Os outros EPs não sei se vou lançar, tá lá, no plano das ideias (risos)

S.O.M: “Caos // Mar Aberto” você gravou tudo em um mês?

Grisa: Sim. Tem quatro músicas, a primeira que fiz se chama “Caos”, eu tinha a letra, peguei o violão, geralmente elas são muito simples no violão, só que aí quando fui passar ela pro software testei muitas coisas, camadas de guitarra. “Escarlate” e “Selva de Pedra” parou ali, bem cru. Nesse EP o processo de composição foi no software, compus ao mesmo tempo que ia gravando, buscando sons, sonoridades que eu queria. Eu gravava de um jeito completamente errado, pegava a guitarra fazia uns sons, e ficavam horríveis, mas eu ia descontruindo eles.

S.O.M: Vai ter batida? Você as fez pelo software?

Grisa: Eu tenho um amigo, que conheci por causa da oficina do Benke, ele é de São Paulo, que gravou as baterias pro meu EP, o Jow, da banda Espacialrias, que lançou também um EP recentemente. O Jow gostou muito do meu som, fiquei feliz demais dele gravar. Ele mandava as baterias e a gente editava e juntava nas faixas.

S.O.M: E como você chegou ao NFT?

Grisa: Eu tenho um amigo, sempre começa assim né (risos). Ele é francês, tá mexendo com criptomoedas e me falou muito sobre isso. Uns dias depois um outro amigo meu, brasileiro, falou “estou começando a mexer com uma parada de criptoarte, tem muitos artistas entrando nisso, vai rolar uma exposição dia 24 de Março”, e eu pensei, “bem isso vai chegar na música”.

S.O.M: O que você tem ouvido por aí?

Grisa: Eu gosto muito da Geração Perdida de Minas Gerais, Fabio de Carvalho, Fernando Motta, Tarda, fora dessa cena eu ouço muito Marrakesh, Ana Frango Elétrico. Ulrika Spacek é minha banda preferida, eu não sei nem explicar o som deles (risos), são umas guitarras sujas que vão construindo um negócio meio cíclico e oscilante, é bom demais.

S.O.M: Um feat que você gostaria de fazer?

Grisa: Difícil (risos). Eu gosto muito do ABC Love, tô aqui pensando… também gostaria muito de fazer um feat com o Fernando Motta, ou com o Giovani Cidreira, o som dele é magnífico.

 

OUÇA + GRISA:

 

Escrito por

Jornalista, escreveu para Hits Perdidos e Música Pavê, atualmente Editor em Sistema Operacional da Música, S.O.M.

Clique para comentar

Deixe uma resposta.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

LEIA MAIS

S.O.M. — Sistema Operacional da Música — Desenvolvido por Mídia NINJA, Fora do Eixo e Hacker Space.

Siga!