Conecte-se

Entrevista

Ivan Sacerdote: escuta didática e o clarinete popular

Músico é referência no instrumento propondo novos olhares

Ivan Sacerdote
Foto: Projeto Fotográfico Coletiva.a.mente

“Música é percepção, é pura sensibilidade e a gente precisa confiar nisso.”

Nascido no Rio de Janeiro, residente em Salvador desde os 14 anos, Ivan Sacerdote iniciou os estudos em música ainda menino, e hoje, é mestre em clarinete pela Universidade Federal da Bahia. Além da sua breve carreira como solista clássico, se dedica à prática da improvisação e, na sua trajetória, já compartilhou palco com diversos outros artistas consagrados da música popular brasileira.

Após participar de workshops online ministrados pelo Ivan, conversamos um pouco sobre a sua trajetória na música, sobre o seu segundo álbum que está no fogo, e sobre a sua forma de pensar o ensino da música.

Ivan, conta para mim, como você começou na música?

“Comecei na flauta doce… fiz a iniciação na flauta doce e aprendi sobre teoria e tal.. passei um ano tocando percussão na banda da escola, e depois decidi que era o sopro mesmo e escolhi o clarinete. Já são 21 anos de clarinete. Aprendi a tocar na filarmônica da cidade de Santarém, interior do Pará,  depois vim para Salvador, com meses de iniciado no clarinete,  e fui parar na Oficina de Frevos e Dobrados, do Mestre Fred Dantas. Iniciei nessa filarmônica e na Banda Sinfônica da UFBA, com o finado professor Schwebel.  Aos 15 anos, comecei a tocar um pouco de choro… Lá no Vila Velha (Teatro) toda quarta-feira tinha uma roda de chora com uma galera daqui de Salvador. Na época, eu estudava no Manoel Novaes, a única escola pública que tinha aula de música, e o professor de clarinete era o professor da Escola de Música de UFBA. Tive aula com ele até os 17 anos, que foi quando entrei na UFBA, no ano de 2005, e fiquei na carreira da música clássica.”

Na UFBA não tem o curso de clarinete popular?

Não, em nenhum lugar do Brasil, na verdade… Aí, eu comecei a tocar muito isso, em orquestra. Toquei na Orquestra Sinfônica da UFBA, tocava como convidado na Orquestra Sinfônica da Bahia, fazia cursos em outros lugares fora da Bahia. Aí, começou a surgir o projeto Neojiba em Salvador, eu tinha uns 20 anos. O Ricardo Castro falou sobre a Orquestra Jovem, eu fui fazer os testes e fui selecionado para ser um dos monitores de clarinete. Olha só, fui o primeiro monitor de clarinete da Neojiba, é… Nesse processo, fui para Venezuela fazer um estágio pedagógico, passei uns dias em Caracas com um sistema de orquestras que é o modelo da Neojiba. Aí.. fiquei tocando na Neojiba, fui solista… antes eu havia sido solista num concerto da Orquestra Sinfonica da UFBA.. Fui solista convidado na OSBA também… Mas aí,  o que aconteceu.. eu já tocava choro, muito antes de tocar música erudita e eu sempre tive essa coisa da música brasileira e não estava muito satisfeito de ficar tocando esse repertório.

Clássico?

Não só clássico, porque também tinha umas coisas mais modernas mas era um repertório muito fechado, muita gente tocando a mesma coisa, não achava que eu ia ser tão bom nisso, ficava percebendo que a galera já vinha de uma estrutura de instrumentos e de conservatório, por ter estudado em certos lugares… e as vagas de concursos sempre ficavam para essas pessoas. Quando percebi isso, fui fazer um curso chamado CIVEBRA, em Brasília. Em 2008, eu tinha 21 anos. Esse curso foi um divisor de águas na minha vida, porque era um curso de música erudita, música clássica, e de música popular brasileira. Participei de aulas clássicas e de música popular também, improvisando um pouco, e eu nem sabia improvisar ainda. E eu tive essa onda, senti que eu tinha que me dedicar a isso, à música brasileira e à improvisação. Achei que eu poderia ser melhor nisso, e senti que eu tinha que explorar esse caminho. Mas isso foi muito mal visto, meu professor de clarinete, de música clássica, achou um absurdo.

Achou absurdo a improvisação ou a música popular?

Ele achava que isso não ia me dar uma vida digna enquanto instrumentista, que eu tinha que tocar em orquestra. E olha hoje, como as coisas estão.. Então, eu quis parar a universidade, dá um tempo e me dedicar a isso uns anos da minha vida. Foi aí que eu fui parar na Europa, com uns 22 anos. Fiquei lá por dois anos, voltei em 2012.

E como a música brasileira chegava lá na Europa?

Muito. De tudo. A  Rosa Passos, Chico Buarque, João Gilberto, Caetano, Gil, Djavan. As pessoas respeitam muito a música feita no Brasil. O que a gente é mais respeitado fora do Brasil é pela música. Esse negócio de futebol já era. A nossa música é uma coisa tão grande, tão completa e complexa que as pessoas do resto do mundo ficam analisando e admirando. Você vê, o próprio João Gilberto foi pro Japão cantar para as pessoas que não entendiam nada de português, o que eles queriam? Experienciar toda essa excelência que é a música brasileira.  Muitas vezes o europeu tem mais consideração pela música brasileira que os próprios brasileiros, tem mais noção da grandiosidade. E, morar fora, foi uma das coisas que me fizeram querer me voltar cada vez mais para a música brasileira. Eu vi que, o que para a gente é normal, é muito maior do que a gente imagina. Não só musicalmente, mas o próprio Cinema Novo, as artes plásticas brasileira, toda essa maneira que o Brasil tem de pensar a arte.

 

O mundo profissional da música popular

“Depois que retornei da viagem foi quando a Rosa Passos me viu tocando aqui na Varanda do Sesi, no Rio Vermelho. Eu tinha estudado jazz pra caramba lá fora. Foi a Rosa Passos que me colocou no mundo profissional da música popular. Ela foi a primeira a me dar um trabalho, um trabalho onde a música popular brasileira está no alto padrão de concerto, de festivais de jazz, sabe? De total importância. Foi a Rosa que sacramentou essa visão que eu comecei a alimentar quando estive na Europa. E aí, começamos a viajar. Fomos para Buenos Aires, Quito, outros países, para o sul do Brasil… e isso tudo eu morando em Salvador. Eu era bem novo, tinha 25 anos quando comecei a tocar com ela, foram muitos shows. Fora o fato dela ter me colocado ao lado dos maiores instrumentistas do país.. Lula Galvão, Jorge Helder, Fábio Torres… artistas incríveis. Participei da gravação de dois discos dela, e ela me deu toda essa bagagem para chegar no Caetano, que é o que as pessoas estão ouvindo mais hoje e é um resultado de tudo isso que eu te falei.”

O álbum Caetano Veloso e Ivan Sacedorte foi lançado no início do ano de 2020. O trabalho foi gravado em Salvador e em Nova York, e conta com um repertório de nove faixas, que passam por regravações de trabalhos anteriores.

Ivan, da sua parte, o trabalho foi todo na improvisação?

“Improvisado, mas com toda uma estrutura. Estruturado a partir das canções dele, no conceito de escolha de repertório. A ideia partiu da empresária e esposa dele, a Paula Lavigne. Foi uma coisa totalmente despretensiosa, e a princípio seria um EP com algumas faixas. Fomos pro estúdio gravar algumas coisas, dentro desse repertório de Caetano, consegui escolher cinco canções e fomos pro estúdio do Brown. Gravamos quatro canções, uma não funcionou, mas para mim já estava ótimo. Eu tava maravilhado de lançar essas quatro faixas com Caetano, porque seria uma coisa que já iria engrandecer demais o meu trabalho. Só que aconteceu que essas faixas do trabalho, sem finalização, foi parar na diretoria da Universal Music. Os diretores da Universal perguntaram para Paula o que o Caetano estava produzindo, a Paula mostrou o que estávamos produzindo aqui e a Universal entrou em contato comigo também formalizando o convite para irmos a Nova York, e nós fomos lá e encaramos a onda. Na concepção, o trabalho está muito mais voltado para o jazz, por questão de feeling, improviso, é o sentimento. E em Nova York, foi uma coisa bem legal. Gravamos primeiro em Salvador, e depois de uns meses fomos para Nova York. Nesse hiato, eu fui para o Rio de Janeiro para melhorar o timbre do clarinete para essa seção de Salvador.

Você foi mexer no clarinete para consertar algo? 

Isso, porque as gravações daqui de Salvador, foram focadas mais no Caetano, então precisávamos focar mais no clarinete. Aí eu passei 15 dias com essas quatro faixas, e gravei o clarinete. O Caetano é muito criterioso com essas coisas de gravação. É um artista muito comprometido. Atingir o padrão de Caetano é muito difícil, tem que estar muito focado, não tem tempo pra deslumbramento. Então, fui pra Nova York, e lá foi coisa milagrosa mesmo. Aí a coisa funcionou, porque eu estava com esse estudo do estúdio de Salvador. Ficamos um ano tocando juntos, e em Nova York conseguimos fazer um Live, ao vivo, e gravamos a outra metade do disco. Olha, esse disco de Salvador gravamos ao vivo também, juntos.

Quando vocês gravaram lá em Nova York, as faixas gravadas aqui foram inseridas ou vocês gravaram tudo de novo?

Então, o que aconteceu, é que até aqui não ia ter álbum ainda. Fomos para Nova York gravar os vídeos, esses vídeos que estão no YouTube. Só que, ficou tão bom que a Paula sugeriu de juntar tudo e fazer um disco. E é esse disco aí com título Caetano Veloso e Ivan Sacerdote. Caetano foi super generoso em fazer um disco com esse nome. Acredito que foi lá em Nova York que a gente conseguiu realmente executar a nossa proposta de som, que é o clarinete participar da obra como um personagem na narrativa, que acrescenta sem romper o núcleo da canção. Sem comprometer o cerne da discussão que é a poesia e as melodias do Caetano. Eu fui feliz na execução porque consegui servir a música e me expressar, permitindo as pessoas conhecerem muito de mim nesse trabalho, que tem muito sobre a maneira que eu penso, juntamente com a obra de Caetano. Isso fez com que o meu trabalho como clarinetista, que já tinha um respaldo anterior da comunidade musical, da própria Rosa Passos e de outros artistas aqui de Salvador, onde eu já ganhei o festival da Educadora FM como melhor música instrumental. Caetano vem para uma fase a qual fez com que muitas pessoas conhecessem o meu trabalho. E agora, o meu segundo disco que já está sendo produzido, vem com toda essa carga de responsabilidade que o trabalho anterior trouxe. Eu preciso manter a qualidade, pensar com amor e carinho nas pessoas que gostam do meu trabalho e irão receber. É todo um caminho, toda uma história. O primeiro disco da gente é uma coisa muito emblemática… Nesse momento, estou mantendo meu foco na minha próxima produção exatamente para honrar toda essa trajetória desse trabalho com o Caetano. As pessoas romantizam muito nosso trabalho como artista, mas a gente segue uma lógica, precisa de foco, compromisso.

Tem muita responsabilidade…

Tem… E a gente precisa seguir um padrão técnico, de estrutura. Hoje eu tenho uma pessoa que me ajuda nessa estrutura, que investe nisso. Mas têm pessoas que participam de editais, precisam captar. Então, tudo que é alternativo, que é independente, no fundo no fundo, é dependente de algumas outras coisas… Além de músico, eu sou educador, mas tive a sorte de ter esse investimento para dar o ponta pé no meu segundo disco, que tem um desafio técnico de ter o mesmo padrão do disco anterior, o Caetano Veloso e Ivan Sacerdote (2020).

Como é pra você, enquanto clarinetista, se inserir dessa maneira na música popular?

Se a gente parar para pensar, o clarinete no Brasil tem uma grande história, temos grandes nomes na música popular. O que eu digo, é assim: tem o Ivan que é clarinetista e que ensina a técnica do clarinete, mas eu me enxergo de uma maneira muito mais instrumentista, como um músico que serve à música instrumental brasileira. Porque o clarinete mesmo, é um instrumento relativamente limitado mercadologicamente, por conta do saxofone, que tem muito mais projeção sonora por ser de metal, e tecnicamente ser mais fácil. Tinha uma coisa de que para você conseguir ser clarinetista popular, você precisava tocar saxofone, e eu venho dessa coisa de não tocar saxofone, porque eu decidi ser clarinetista, toco clarinete para que as pessoas conheçam cada vez mais esse instrumento.

Prática do ensino da música

Ivan, falando do ponto de vista, aqui, de quem busca pessoas e escolas para estudar música, a sua didática é muito diferente do que já vi. Você pode falar sobre isso?

Você falando, é muito compreensível, e eu fico feliz por você ter essa visão, por, pelo menos, ter um outro modelo de educação musical que você está podendo confrontar. A gente não tem que ficar pensando que a gente tem que lançar uma coisa revolucionária e falar mal do que já existe, não. É uma opção. A gente não tem que destruir a lógica de ensino que existe, que é um modelo duro com a pessoa que tá aprendendo, mas tocar o instrumento é uma coisa dura… Não vou dizer pra você que para mim foi fácil. Foram momentos de privação, ainda mais pra nós que queremos ser solistas. Eu falo que o ensino, o aprendizado, a pedagogia podem ser construídos a partir de diversos caminhos. Sabe? O nosso problema é que a gente peca por enxergar um, e esse é destinado ao mercado “x”. Então, aí já começa a primeira problemática, agora direcionado para a escola do clarinete especificamente, esse mercado para o qual se é voltado, está totalmente acabado. E aqui eu falo de ensino superior, de diploma. Tem-se formado clarinetistas para não ter trabalho, e isso é uma coisa real. Então, a gente precisa formar pessoas que sejam aptas a sobreviver de música e que consigam se expressar. O fato de você conseguir se expressar através dessa linguagem, não significa que você precisa sobreviver dela… Assim, são uma série de fatores.. Eu poderia não estar sobrevivendo disso, poderia não ter dado certo várias coisas, mas deram, é uma confluência. Uma série de coisas que deram certos e te direcionam para aqui, a partir das decisões que vão sendo tomadas.

O que estou falando é para justamente a gente ter um caminho de mais liberdade na nossa expressão, para que a gente consiga se expressar através do instrumento e que a gente consiga perder essa lógica de que o clarinete é um instrumento difícil. A primeira coisa que a gente precisa inserir nisso, é a questão da oralidade mesmo. Música é percepção, é pura sensibilidade e a gente precisa confiar nisso, e depois inserir partitura e as outras coisas. Eu dou muita aula para iniciante e para mim isso é muito bom. Eu gosto de ver a pessoa evoluir, ver a pessoa aprender a tocar, isso me faz feliz. Muitas vezes o aluno ou aluna, vem com essa falta de teoria musical, o que não é um problema. Vamos aprender juntos.

O que a pessoa quer quando ela procura? Muitas vezes é conseguir tocar, se expressar. A minha construção pedagógica parte de dar a pessoa o que ela necessita. E aí, eu tenho meus métodos. Podem ser convencionais ou não… A partir do momento que a pessoa consegue produzir música, se florescem outras habilidades que estão nessa busca. Quem ensina música, é uma pessoa que está ali num fator motivador da vida. A gente motiva a pessoa. E aí entramos numa outra dimensão do aprendizado dela… Online ou presencial, basta a pessoa querer e as coisas se encaminham, as coisas acontecem. É isso… eu monto um esquema a partir do que a pessoa quer, é um trabalho muito pessoal, direcionado a partir da demanda que a pessoa traz.

 

Ouça Ivan Sacerdote:

 

Escrito por

Comunicadora instantânea, clarinetista entre quatro paredes, sonoplasta e devota da vida. Acredito no poder de transformação social da música e busco conhecê-la desde o seu contexto. Garimpo vinil vez em quando.

Clique para comentar

Deixe uma resposta.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

LEIA MAIS

DJ Iasmin DJ Iasmin

Conheça a DJ Iasmin

Entrevista

Amanda Rosa lança “Dança do Viver”

Lançamento

Ludmilla Ludmilla

Ludmilla: “Respeita nosso funk, nossa cor, o nosso cabelo”

Artigo

Agô Performances Negras Agô Performances Negras

Agô Performances Negras lança documentário para o espetáculo “BANZO”

Novidade

S.O.M. — Sistema Operacional da Música — Desenvolvido por Mídia NINJA, Fora do Eixo e Hacker Space.

Siga!