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“Música do Século XX” de Jocy: o segredo guardado da MPB

Conheça a história de um disco inovador da cultura brasileira

"Música do Século XX"
Foto: Piracema Comunicação

Artista multimídia e pioneira na música eletrônica brasileira, Jocy de Oliveira iniciou sua carreira como interprete, tornou-se compositora e passou a atuar em diversos âmbitos da arte. De instalações ao cinema – todos interligados à música – a plural artista buscou desde o início de sua carreira a liberdade nas formas e a experimentação, traços que estão presentes até hoje em seus trabalhos. Sua imensa criatividade torna impossível que neste texto haja um olhar atento sobre toda sua obra, acumulada durante mais de 60 anos de vida artística. Por isso, trato especialmente do seu primeiro trabalho “Música do Século XX”, considerado por ela como “o segredo mais bem guardado da música popular brasileira”.

“Música do Século XX” de Jocy

Em 1959, tudo o que se falava no meio da música popular brasileira era sobre a bossa nova enquanto um novo estilo inaugurado por João Gilberto. Com o lançamento de “Chega de Saudade”, João juntou a maciez e o inovador fraseado de sua voz com a condensação de elementos do samba nas batidas de apenas um violão, criando a base musical sobre a qual as crônicas da classe média brasileira se apresentaram para o mundo. Liricamente, as músicas abordavam o mar, as praias, o calor, a beleza da mulher carioca; enfim, romantizavam “o amor, o sorriso e a flor”. Porém, no mesmo ano e também no Rio de Janeiro, a virtuose pianista clássica Jocy de Oliveira, então com 23 anos, lança seu primeiro trabalho autoral: o atemporal e até hoje inovador, “Música do Século XX de Jocy”, um álbum de música popular, apesar da formação erudita da compositora.

Pela proximidade temporal e a semelhança de alguns elementos – como a foto da artista abraçada apaixonadamente a um violão na capa do disco; os ritmos sincopados tocados no mesmo instrumento e o uso de harmonias complexas e dissonâncias – o álbum da compositora é enquadrado ou relacionado a bossa nova, as vezes sendo descrito como uma sátira ao novo gênero musical surgido na época. No entanto, há mais diferenças do que semelhanças, e este enquadramento, além de empobrecer sua forma, conteúdo e sua potência enquanto obra de vanguarda, empobrece também o debate sobre os motivos pelos quais o disco passou despercebido.

Embora “Música do Século XX” tenha sido o único trabalho assumidamente popular da compositora, é possível observar nas obras posteriores elementos da música popular brasileira. Além disso, dado o seu caráter inovador e experimental, acho válido um olhar mais aprofundado sobre tal obra, propondo reflexões e relações que no máximo pecarão pela sua pretensão.

Em contraposição ao que comumente abordavam as músicas no início da bossa nova, o álbum de Jocy tem como primeira faixa a música “Sofia suicidou-se”. A abertura do álbum traz uma temática recorrente nas demais canções: a morte. Com som orquestral e sonoplastia, o suicídio de Sofia é praticamente encenado em andamento cada vez mais rápido até sua brusca interrupção, ao término de agoniantes 57 segundos. Por outro lado, a segunda música, “Pecou a Rosa”, começa com arranjo bossa-novista e assim se mantém por toda sua extensão, com algumas variações rítmicas não tão usuais, tratando também da morte da Rosa, proveniente da seca.

Tão logo acaba, inicia-se a terceira faixa com um sussurro apressado que diz: “Pega, pega, pega ladrão”, retomando a áurea agoniante da primeira faixa. “Um assalto no Morumbi”, mescla a ambientação teatral da música de abertura, com o ritmo gingado da segunda, representado pelo discreto arranjo de violão, bateria e baixo, contando apenas com algumas interferências feitas por instrumentos de sopro. A quarta faixa concretiza as possibilidades do cenário auditivo criado pelo ouvinte com uma sirene do carro de bombeiros que se atrasou para apagar o “Incêndio” que tirou a vida e as casas de moradores do morro.

A compositora ainda estabelece um diálogo filosófico e reflexivo em “Frida”, começando-a com o que parece a declamação de um poema acompanhado pelo violão, que diz: Frida não é um ser, Frida é solidão. Dentro dos seres existirá sempre uma Frida”. A sexta música, “Brasília século 1”, trata da importância dos candangos na construção da futura capital nacional, afirmando: “Brasília, o teu nome é candango”. A sétima faixa, “Um crime”, tem duração de 44 segundos, e é quase uma cena musicada, novamente. Daí em diante as próximas cinco faixas tratam de uma trama amorosa entre o mar, o violão e o luar.

Dentre todas as músicas, as últimas são as mais enquadradas nos padrões de forma e conteúdo, tanto no que se refere a bossa-nova, quanto a música popular da época de maneira geral. É como se pedissem licença entre as demais músicas pra estarem ali, talvez como uma jogada da compositora para validar a faceta popular de seu álbum. No entanto, para fechar de maneira a dar o seu aviso, Jocy escolhe “Samba Gregoriano“, como um resumo pessoal e musical, juntando aspectos de seu estudo clássico ao já consolidado samba. A letra também trata de elementos que seriam somente anos depois abordados pelos compositores da bossa nova, como as religiões de matriz africana; a macumba; o pai de santo; tudo isso sobre uma harmonia complexa, assim como as quebras rítmicas de um samba reconfigurado, em que a letra diz, no trecho que amarra a narrativa: “Tudo é Fé”.

Como um todo, o álbum é um prelúdio tanto do que viria a ser a continuação de seu trabalho, quanto do que viria a ser abordado nas letras da bossa-nova em sua fase politizada; seu desaguar na MPB, no tropicalismo, nas experimentações de Jorge Mautner, Tom Zé, Arrigo Barnabé, Jards Macalé, Itamar Assumpção e tantos outros. Temas como os das desigualdades sociais, da morte, da diversidade religiosa, da mulher; além das explorações sonoras, rítmicas, harmônicas, instrumentais e composicionais, anteciparam o que viria a ser a música popular brasileira nas décadas seguintes. A experimentação do álbum, bem como a “insubordinação” de uma mulher compositora de 23 anos – casada à época com grande maestro que não assina o nome nos arranjos do disco para preservar sua reputação – fizeram com que seu álbum fosse deixado de lado pela história da música popular brasileira durante muitos anos.

A construção do álbum reflete sua vida pessoal, seu lugar enquanto uma jovem compositora, e dá indícios de como a artista imaginava a música de seu século; é uma construção sonoro-teatral, o que também já indicava o modo como ela enxergava as diferentes formas de arte e como as utilizou posteriormente: unidas, complementando-se.

Teatro, literatura e cinema

A questão da mulher, que aparece timidamente em seu primeiro trabalho, passou a ser central em suas obras. A peça de teatro-música “Apague meu Spotlight” – primeiro espetáculo de música eletroacústica do Brasil, estreado em 1961 – tinha como foco uma narrativa não linear que tratava de maneira contundente a temática da posição da mulher na sociedade. Esse foi também um dos motivos pelo qual a peça causou grande impacto. Outro motivo, foi a grandiosidade sonora: o Brasil não tinha estúdios com tecnologia suficiente para a produção das músicas, tão pouco para a reprodução ao vivo do “drama-eletrônico”.

Por este motivo, Jocy aliou-se ao compositor italiano Luciano Berio, para que ele a ajudasse na composição e produção do espetáculo usando os recursos disponíveis na Europa. Além disso, a dimensão teatral – a peça é escrita para 13 atores e bailarinos, entre elas a atriz Fernanda Montenegro, tendo de ser encenada em palco de grandes dimensões e estrutura igual a de teatros de ópera – fez com que as duas sessões de estreia, nos teatros municipais do Rio de Janeiro e de São Paulo, tivessem superlotação, com cadeiras extras nos corredores, algo anormal no cenário da música contemporânea.

No seu livro “Diálogo com Cartas”, lançado em 2014, ela conta com maiores detalhes a relação pessoal e profissional com Berio, deixando nítida sua consciência de que diversas vezes era menosprezada por ser mulher, como em: “Soprando baforadas de charuto em qualquer interlocutor e com um ar de certo desdém, ele (Berio) ás vezes dava a impressão de que certos termos e definições estéticas musicais só podiam ser utilizados com propriedade por ele e seu pequeno grupo, outros mortais não tinham esse direito, muito menos nós, as mulheres…”  Ou então no trecho em que diz: “[…] certamente eu – como autora e produtora – era uma adolescente do Terceiro Mundo, e isso não se enquadrava na visão paternalista daquela época em relação ao perfil da mulher. Berio, especialmente, não conseguia reconhecer uma mulher como compositora. A mulher só poderia ser uma intérprete, uma musa“.

O livro ainda apresenta, de maneira fluída e ensaística, os diversos momentos da vasta carreira de autora, contendo fac-símiles das cartas trocadas por ela e seus grandes parceiros, pessoais e profissionais, como é o caso de John Cage e Igor Stravinsky – por quem Jocy foi regida.

O século XXI tem dado a Jocy o destaque que ela merece. Em 2018, o primeiro disco da artista foi relançado pela Litoral Records e no mesmo ano foi homenageada da FLIP.  Em 2020, então com 83 anos, Jocy de Oliveira lançou o filme-ópera Liquid Voices – A história de Mathilda Segalescau, mantendo o intercâmbio entre as artes e as discussões de temáticas sociais. Consciente do ainda machista ambiente musical, Jocy de Oliveira continua a compor, escrever, dirigir e tocar, trabalho que nunca deixou de fazer, mesmo esquecida pelo mundo artístico do país que só quase um século depois de ouvir seu nome, passou a admirá-lo e inclui-lo em sua história.

Escrito por

Cientista social, músico e compositor. Aprendo a musicar com a sociologia e tento entender o mundo com a música; sozinho e junto à banda Diadorim. Sempre em trânsito entre São Paulo e Goiás, me interessam as nuances e seus pontos de encontro. Você não acha Elomar muito mais pesado que Slipknot?

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