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“Não Foi Cabral”: aula de história na voz de MC Carol

A faixa aborda temas estruturais brasileiros e mostra a história que tentaram apagar

"Não Foi Cabral"
Foto: Fernando Schlaepfer

Apesar das muitas críticas ao funk, a maioria das pessoas não conhecem o mínimo do repertório do gênero. E que funk é cultura a gente já nem discute mais! Inclusive, já tem lei confirmando isso no país, como a Lei Ordinária do Rio de Janeiro que define o gênero como movimento cultural e musical de caráter popular.

Ao retratar isso de forma mais pontual trazemos na coluna a obra musical “Não Foi Cabral”  de MC Carol. Muita gente sequer ouviu falar dessa canção, mas a música é uma das mais importantes do funk, pela voz diferenciada da cantora de Niterói, e por ser uma aula de história do Brasil em pouco menos de quatro minutos.  

A obra é tão especial que já foi analisada por diversos professores em universidades. Além disso, foi notícia em diversos jornais do país, principalmente na época de seu lançamento:

“A música de MC Carol reflete críticas à situação do país” – Correio Braziliense

“Professores analisam funk de MC Carol que contesta a história do Brasil” – Globo.com

“Funk de MC Carol ganha visibilidade ao questionar a história do Brasil” – Catraca Livre

A tese “Entre beats, remixes e vozes: identidade e interdiscursividade na música da periferia”  de Camila Cristina de Oliveira Alves também aborda a obra. A autora foi orientada por Marina Celia Mendonça, na Universidade Estadual Paulista (UNESP), citou e utilizou a obra “Não Foi Cabral” de MC Carol em suas referências. 

A música ainda foi destaque na dissertação apresentada por Nicole Barbosa de Araújo “Juventude e Resistência: o funk como forma de expressão dos (das) jovens da periferia”, em 2018, na PUC-SP. 

E por que ainda falar de “Não Foi Cabral”?

O funk é reconhecido mundialmente. Além disso, gira milhões em nossa economia, em outras palavras, fortalece a nação expondo a cultura nacional e gerando renda e tributo para as cidadãs e cidadãos brasileiros. Apesar disso, a maior parte das pessoas desconhece esse funk específico. Esse funk é uma obra perfeita, de uma mulher preta! 

A Fundação Getúlio Vargas levou MC Carol para a sala de aula, os alunos cantaram com a compositora ao final de um debate sobre ensino de história no Brasil organizada pela Professora Angêla Moreira (conforme descrição do vídeo). 

 

O som do hino nacional jamais foi acompanhado de tanta precisão histórica na letra. A obra “Não Foi Cabral” revela o genocídio da população originária do Brasil. Atualmente chamados de indígenas, são de fato os donos de tudo que temos no país e a música de MC Carol faz emergir essa discussão.

Além disso a obra também expõe a trágica história da escravização das pessoas pretas no território Pindorama. Isso mesmo, Pindorama. Esse era o nome do Brasil à época. A obra ainda traz a tona Zumbi e Dandara importantes heróis nacionais.

Ouvi falar da Dandara a primeira vez na música de MC Carol, ou pelo menos foi a primeira vez que a informação ficou registrada. Quantas mulheres e meninas pretas ainda precisam descobrir essa heroína! A cada passo que conhecemos na nossa história abrimos um portal de possibilidades. 

A Guerreira Preta de Palmares

“Não Foi Cabral” dá protagonismo a Dandara dos Palmares na luta pela liberdade no país. A heroína foi apagada da história de gerações de pessoas pretas, ou seja, a Guerreira Preta de Palmares foi mais uma das mulheres apagadas pela história, mas exaltada pela artista.

O fato de Dandara e seus feitos não serem destaques na história do Brasil é tema de estudos de grande relevância acadêmica. Por exemplo, a Doutora Helena Castro e a Mestranda Janaína Caetano publicaram o artigo: “Dandara dos Palamares: uma proposta para introduzir uma heroína negra no ambiente escolar”.

Esse estudo aponta que várias mulheres pretas de destaque na história foram excluídas, pelo machismo aliado ao racismo. E por isso meninas pretas deixam de conhecer sua história. O prejuízo do desconhecimento é incalculável, mas certamente danoso. Palmares foi o quilombo mais famoso do período escravocrata brasileiro. Por outro lado, Dandara além de ser uma das principais personagens na luta contra a morte da população preta do Brasil, também foi mãe de três filhos.

Incomoda o fato que Dandara foi uma das lideranças dos exércitos pretos no Brasil. Lutou e foi mãe. E não há sequer uma imagem que a reflita. Mas sorte a obra da MC carioca trazer a tona o nome da heroína preta do país, que além da maternidade, lutava capoeira, e empunhava armas contra a escravidão no século XVII. 

 

 

Escrito por

Mãe, advogada, funkeira e mineira uai!!!!

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