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Coluna

Por uma discussão compartilhada sobre o carnaval de rua em todo o país

Quais interrogações os blocos e foliões do carnaval precisam fazer para pensar a festa em 2022?

Foto: Paula Molina e Henrique Sander

Em junho de 2020, no começo da pandemia de Covid-19 blocos, cordões e troças de carnaval de rua de todo o país se reuniram para discutir a situação do carnaval naquele momento.

Desta reunião de saberes e territórios nasceu o Carnavais de Rua em Ação, rede nacional de blocos, apelidada de C.R.U.A. Desde então a C.R.U.A publicou seu vídeo-manifesto e produziu o primeiro Fórum Nacional de Carnavais de Rua do país, contando com autoridades no assunto carnaval, políticas culturais e direito à cidade. Foram quatro dias de intensa e frutífera discussão, que durante muito tempo foi adiada, e que mostrou a importância de um espaço permanente de debate sobre o assunto. Tarefa a qual o Fórum Nacional de Carnavais de Rua pretende seguir nos próximos anos. 

Carnavais de Rua em Ação

Em meio a tantas mortes, lutos e lutas, as manifestações #forabolsonaro em todo o país se configuram como um importante espaço de contraposição ao governo anti-democrático e anti-carnaval de Jair Bolsonaro. Rostos cobertos de outra máscara que não a do carnaval ganharam as ruas e vimos ao longo das edições dos atos a incidência de expressões carnavalescas sendo utilizadas como elemento estético dando cor e pulso aos protestos.

Foi neste contexto que o CarnaTV, também da C.R.U.A., foi criado para articular uma rede de transmissão online das manifestações em todo o Brasil pelas redes sociais dos cordões carnavalescos, num aprendizado semelhante à importante cobertura que faz a Mídia Ninja nos atos públicos. A C.R.U.A. é uma rede aberta e para saber mais estamos na plataforma SOM.

Carnaval e pandemia

O carnaval 2022 que antes despontava no horizonte como miragem, tem cada vez mais sido debatido entre os blocos e poder público. Seja por razões econômicas, por razões de saúde mental, ou pelo realinhamento dos códigos sociais desgastados pelo período de isolamento físico-social, os motivos para a produção da festa são muitos. No entanto, carnaval é em essência uma celebração da vida e a questão sanitária pendente da pandemia que ainda perdura e que nos tirou a vida de mais de 600 mil pessoas é uma realidade trágica. A ciência deverá ser o traje carnavalesco, estandarte o qual todo bloco deverá carregar. 

A pandemia nos mostrou de forma clara que ou saímos todos dela ou não sairemos nunca. Isso fica mais desenhado com a falta de diretriz nacional ao enfrentamento da covid-19 em nosso país. O mesmo acontece com a data do calendário nacional mais querida, o carnaval. Temos observado cidades declararem o carnaval, como se este debate fosse localizado na municipalidade. Oras, se o carnaval 2022 está atrelado ao controle da pandemia, portanto o debate precisa tomar contornos nacionais. O diálogo entre carnavais se faz ainda mais importante e a C.R.U.A está à disposição para esta conversa.

Até o momento desta coluna, apenas na cidade do Rio de Janeiro se propuseram indicadores sanitários claros e objetivos que deverão ser monitorados para responder a pergunta de todos: vai ter carnaval em 2022? Isso veio de intensa movimentação dos blocos cariocas, de acúmulo histórico de organização política, mas também da criação da comissão especial de vereadores presidida por um carnavalesco, o vereador Tarcísio Motta, à quem saudamos pela iniciativa. 

No entanto, as cidades não são iguais e o que serve para o carnaval do Rio, talvez não sirva para outros carnavais do país. É nesta questão que a C.R.U.A. se manifesta: Quais são os indicadores sanitários nacionais que poderão ser monitorados para responder a pergunta: como fazer do carnaval de rua uma festa nacional? Para além da pandemia, a necessidade do diálogo nacional permanente sobre as experiências carnavalescas de rua que se libertem dos bairrismos, dos números e dos protagonismos individuais, é de profunda relevância. 

Uma vez que, caso se concretize, o carnaval de 2022 re-inaugura a vida social das cidades pós pandemia, qual é o carnaval que queremos no Brasil? O que queremos que seja diferente dos carnavais que já passaram? E que país iremos encontrar no próximo carnaval?

Por fim, caso os alertas da pandemia ainda nos indiquem que não é o momento para aglomeração de rua, como lidar com a explosão de encontro que já vem acontecendo entre os finais de semana e feriados? Posto que variantes novas são o principal agravante do controle da pandemia, o que ainda é preciso ser feito hoje para sairmos todos dessa situação o mais rápido possível?

Confiamos na defesa da ampla e massiva testagem e vacinação de toda a população, no fomento financeiro e político para a salvaguarda dos tantos grupos e fazedores de folia que temos espalhados pelo país através de seus afoxés, maracatus e blocos, e acreditamos que é na cultura e na rua que estão os caminhos mais importantes para nosso reencontro enquanto povo.

 

Texto de: Alessa, Israel de Castro e Bruno Perdigão

O coletivo Carnavais de Rua em Ação, apelidado de C.R.U.A. é composto por mais de 200 blocos espalhados pelo Brasil. Criado em 2020, no começo da pandemia de Covid-19 que assola o país e atinge em cheio o setor do carnaval, o grupo lançou seu video-manifesto e tem promovido lives para refletir sobre os tempos atuais. Outra iniciativa do grupo é o CarnaTV, uma rede de transmissão dos atos #forabolsonaro por todo o Brasil, pelos perfis de mídias sociais dos blocos de carnaval.

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