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Raves ilegais em Portugal: Cerveja barata, ecstasy e polícia

Entre galpões e praias secretas as raves ilegais ressurgem em meio a pandemia

Raves ilegais em Portugal
Aos arredores de Brighton, 2000 Foto: Seana Gavin

Das praias de Cascais a uma casa de campo na menor cidade do país, raves ilegais em Portugal, realizadas fora de Lisboa e Porto, fizeram e fazem parte de um cenário de festas que vêm ocorrendo por toda a União Europeia nestes tempos de restrições pandêmicas.

Os clubes estão fechados em todo o país, mas isso não impede que os foliões se descontrolem. Três décadas depois dos dias de glória do Acid House – em pleno lockdown –, saí para investigar a cena de raves ilegais que está crescendo, novamente, nos tempos de bloqueio da Covid-19.

Passa uma hora da madrugada e um grupo de “clubbers” está a reunir-se numa praia deserta perto de Sintra. Caminhando entre pilhas de pneus de carro e caminhão, passamos por uma fresta entre pedras à beira-mar, onde um grupo envolto em chapéus e lenços garantia distribuição de máscaras e álcool em gel, para aqueles que não os tinham consigo.

Lá dentro apenas escuridão, low beats e pequenos grupos de 4 a 5 pessoas conversando e fumando, enquanto um sistema de som gigante e um bar improvisado são montados. Ao lado, em um armazém abandonado maior – que antes era um Office Outlet –, um sistema de som ainda maior também está sendo construído.

Clubes

As festas – também conhecidas como raves ilegais – têm acontecido em galpões abandonados, na área de Lisboa e pelo interior. Uma rave, geralmente, começa por volta da meia-noite e pode durar dias, com qualquer punhado de “ravers” de todas as idades.

Na Inglaterra, essas festas têm acontecido em siderúrgicas abandonadas na área de Bedford e arredores de Londres – como em um evento não licenciado onde a PSP (polícia portuguesa) invadiu e prendeu cerca de 300 pessoas, numa praia de Cascais, em abril desse ano; ou como em uma rave num clube de sinuca desativado, que terminou em um cerco policial de 4 horas no mesmo mês, na fronteira com a Espanha. Bolas de bilhar foram lançadas e bombas de efeito moral foram utilizadas para a dispersão da malta toda.

Obviamente, há um apetite destruidor por festas – o que me faz lembrar dos anos 1990, quando eu e meu amigo entrávamos furtivamente no quarto de seu irmão mais velho, para encontrar as cortinas fechadas a esconder sua visão o subúrbio cinzento e violento da capital paulista, com a única luz vinda de uma lâmpada de neon roxa, com o quarto cheirando a maconha e sexo. Removíamos cuidadosamente os discos de Drum & Bass e Jungle de suas caixas e admirávamos as dezenas de panfletos de rave decorando as paredes.

Itu, Piracicaba, Rio de Janeiro, Espírito Santo e outros lugares distantes para onde ele e seus companheiros dirigiam, em uma variante marrom, com buracos nos assentos. Aquelas noites se transformavam em manhãs de verão aveludadas. Estávamos na adolescência e era o mais perto que podíamos chegar de experimentar as delícias recreativas de nossos influenciadores “analógicos”.

Vinte anos depois, em meio a uma pandemia e engolfados no tédio do status quo digital, é a nossa vez. Na esteira dos atos de justiças raciais e sociais – essas festas ilegais e todas as reuniões não licenciadas, especialmente, envolvem sistemas de som tocando Techno às 4h da manhã, no meio do nada – surge uma cena de festa livre totalmente diferente e mais complexa.

Raves ilegais em Portugal

Hungria, 1999 Foto: Seana Gavin

Raves ilegais em Portugal durante a Pandemia

Começamos em Lisboa, em cantos abandonados com tetos vazando e 10 sistemas de som tocando do Techno ao bom e velho Drum & Bass, e em trechos de praias abandonadas entre Belém e Estoril, onde a cada fim de semana rola uma festa diferente. Um reino paralelo com os jovens mastigando o interior das bochechas entre argumentações sensatas sobre os novos rumos do planeta, e sobre como o sistema dará um jeito de manter o status quo e aumentar o controle da massa. Mas, a cena de Lisboa começa a mudar rapidamente. As rodas de mentes contestadoras em busca de aventura têm se transformado em uma monstruosidade – repleta de personagens questionáveis.

A verdade é que essas raves ilegais em Portugal funcionam como um pilar fundamental da cena musical e política, para essa geração que vive em meio às dificuldades do sistema, da vida e de festivais totalmente corporativos. Convenhamos, cultura não é algo que você pode colocar em um festival de fim de semana. Contudo, o movimento de raves, contestador e politizado, está prosperando em um nível bem underground.

As pessoas querem ir à porta de raves, querem ir a festas ilegais, mas temem a COVID-19. Com todos que conversei, há uma unanimidade: as medidas de segurança. Todos usando máscaras 100% do tempo, só retirando para goles e cheiros. Chegando em casa, uma muda de roupa reservada e escondida em algum canto exterior, para substituir as roupas da festa, que vão direto para as máquinas de lavar.

A verdade que fica é que a cena musical de contestação nunca vai acabar. Como tudo o que foi inventado, ele retorna de forma cíclica, com uma geração nova, ainda a ser manchada pelas luzes de busca da polícia. Mas, infelizmente, muitas dessas raves ainda são fechadas antes mesmo de começarem, e prisões com apreensão de equipamentos são parte dos riscos recreativos.

Não é como se a polícia não soubesse os nomes das plataformas, as pessoas estão usando aplicativos alternativos para atrair a multidão. E muitos organizadores que começam a perceber que a mídia social não é um bom caminho a percorrer, agora andam a fazer isso utilizando as – ainda populares em solo lusitano – mensagens de texto. Muito old school, interessante quando você pensa sobre a linhagem das raves do final dos anos 1990 – e a coisa moderna em que se tornou. Os dias de Acid Techno ainda inspiram os organizadores da nova geração e as tradições são praticamente as mesmas, embora com o GPS não nos percamos tanto hoje em dia.

Ainda há aquela empolgação de passar por outro carro cheio de “ravers” e acabar em uma praia em que todos decidem que você sabe para onde está indo, então o seguem conversando sobre “a vida, o universo e tudo mais”.

Sorrindo melancolicamente, um desses novos organizadores afirma que quando alguém finalmente chega à posição em que está esperando no escuro, você superou os bloqueios da polícia. “Escalando sebes, cercas elétricas, para chegar a uma rave e, então, acontece: é uma verdadeira emoção”, reitera. Seu namorado completa: “Nunca me senti parte da vida aqui fora e nunca senti uma conexão com qualquer lugar, antes de entrar na cena underground dessas festas. Foi muito espetacular. As festas acontecem todos os fins de semana e há malta de todos os tipos e lugares”.

A cena de raves ilegais em Portugal é inexplicavelmente diferente. Não há código de vestimenta, para começar. Depois, há a excitação vertiginosa da atividade ilícita e o espírito “venha um, venham todos”. E tudo tem funcionado sem apoio político, sem patrocínio, sem marketing e sem cobranças na entrada. Mas, eventualmente, os poderes da polícia – especialmente quanto às leis sanitárias – dificultam as coisas.

 

Escrito por

Nascido em terras tupiniquins, mas cidadão do mundo, é formado em Letras e Artes Visuais na UEL. CEO da Naudi Digital, já foi apresentador da Web Radio ALMA Londrina. Fez filme com a Maria Alice Vergueiro e George Antoni. Produtor musical, já tocou em festivais de SP, Paraná e em algumas casas de Lisboa, Londres, Curitiba e Santa Catarina.

2 Comentários

2 Comentários

  1. Thais Mel

    25 de fevereiro de 2021 at 13:13

    Que arrazo essa.materia! 💕💕💕

  2. MendesCaris

    25 de fevereiro de 2021 at 13:27

    Acredito que nesse contexto de pandemia e restrições, o prazer de estar numa rave “ilegal” é muito maior e libertador, pois não se trata apenas de curtir uma festa, mas de quebrar uma norma que tem grande chance de se tornar permanente. O sistema aproveitou a situação de pandemia para aumentar o peso de sua mão sobre nossas liberdades. É preocupante se após a pandemia isso virar norma. Em países como o Brasil e México que já são estados militarizados demais, é de se preocupar com o como será o comportamento do nosso sistema de segurança que já faz uso de uma política repressiva e selvagem em tempos digamos normais.

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