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Entrevista

SOM entrevista Pablo Bispo

Conheça a trajetória do produtor por trás de grandes hits

SOM entrevista Pablo
Foto: Reprodução Instagram

É bastante provável que você viva em Marte caso não conheça Pablo Bispo ou suas criações. Responsável por sucessos de Pabllo Vittar, Iza, Anitta, Luisa Sonza, Gloria Groove entre outros, o produtor nascido e criado em Bangu, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, é um dos grandes nomes da música brasileira na atualidade. 

Integrante dos times de produção Brabo Music Team (em conjunto com Maffalda, Gorky, Arthur Marques e Zebu) e Dogz (com Ruxell e Sérgio Santos), Pablo Bispo é parte de uma remessa de novos talentos que vêm (re)moldando a música brasileira ao propor um encontro de ritmos regionais com novas tendências do pop e da eletrônica, dando vida a um hibridismo que é, sobretudo, político. 

O braço musical da Mídia Ninja, o S.O.M, conversou com Bispo sobre sua carreira, parcerias, a indústria da música e mais! O resultado você confere agora.

  

S.O.M: Pablo, como começou tudo? De onde vem a música na sua vida?

Pablo: Acho que a música sempre esteve na minha vida mas em forma de música mesmo, em forma de sentir… Eu sempre gostei de ouvir música, eu sempre me imaginei ali no processo, não necessariamente cantando as músicas que escutava.

Eu sempre tive essa facilidade de criação, de me colocar em algum lugar. Eu acho que é isso o que eu mais exercito hoje. Eu venho de um lugar onde tudo é feito pra você desacreditar nos seus sonhos. Eu sou da comunidade, mesmo que eu não more dentro da favela, é uma bolha ali, é tudo um entorno, sou de Bangu, do Rio. 

Meus pais também, pela cultura e por tudo que eles viveram quando pequenos, não acreditavam tanto que o filho ou alguém da família pudesse ser artista. Existe todo um paradigma, uma barreira que eu tive que quebrar, mas eu acho que eu quebrei isso só depois de ‘’velho’’ mesmo, né?! 

Comecei a viver de música só depois dos meus 27 anos, então eu tive toda uma trajetória em instituição financeira, virei gerente, fui pro Doutores da Alegria, virei palhaço… Eu precisava aprender e entender com o outro, entender a empatia: onde isso ia me tocar, onde eu poderia aprender algo pro outro ficar feliz. Foi ali nos Doutores da Alegria, querendo fazer arte, querendo fazer música, querendo fazer algo que o outro iria sentir, e aí tudo fez sentido. Culturalmente as pessoas não acreditam que você pode viver e trabalhar fazendo o que você ama, então eu tive que quebrar essa barreira para conseguir ser feliz fazendo o que eu amo e hoje eu quero servir de exemplo pra outras pessoas.

S.O.M: E como tem sido criar com todo desastre político desse país e, claro, a pandemia? 

Pablo: Nossa, ano passado foi o ano que eu mais lancei discos na minha carreira, a gente lançou sete discos, todos discos grandes, sabe? E a gente fez os discos dentro da pandemia e aí foi um trabalho bem diferente, porque tava todo mundo aprendendo a conviver e estar na pandemia, todo mundo vivendo todos os impactos políticos, sociais e pandêmicos e mesmo assim a gente não podia parar por vários motivos. 

O desastre político impacta muito na gente, mas ao mesmo tempo eu acho que nossa missão, até pelo tipo de música que a gente faz, é exatamente deixar, ou tentar deixar viva essa chama de esperança, de não deitar, de enfrentamento, de respeito, de igualdade, de colocar novas vozes e amplificar vozes, eu acho que a gente tá aqui pra isso, pela representatividade. 

E a responsabilidade de entregar discos, que vai impactar a vida das pessoas porque no nosso caso a gente tem total noção do quanto nossas obras impactam socialmente né. O quanto isso impacta na vida de uma pessoa, uma pessoa saindo de uma depressão ou de situações difíceis e ouvindo nosso som e se sentindo motivadas com aquilo. Então a gente sabe a importância disso, é uma coisa que a gente não poderia parar de fazer.

S.O.M: Qual a maior potência da música enquanto instrumento sociopolítico?

Pablo: Acho que a música ela consegue derrubar governos, ela consegue amplificar vozes, quebrar estruturas que estavam há muito tempo enraizadas na cultura, como o machismo e a homofobia, transfobia, etc. Através da música a gente consegue quebrar todas essas barreiras que foram construídas durante anos e anos, amplificar vozes e fazer sentir. A música tem que fazer sentir. A música tem essa facilidade de entrar nas casas, nos ouvidos, no cérebro e mudar formas de pensar.

Um exemplo muito incrível que a gente tem aqui no Brasil, que foi exemplo pro mundo inteiro, foi a cena das drags com a Pabllo, a Glória e a Aretuza há 4 anos atrás. Eram muito ”nichado” e depois dessa cena das drags, através de Pabllo e a Glória principalmente, a cena ficou tão grande! A música ficou tão grande! A galera quebrou essa limitação de rótulo que existia ali, tirou o ‘’música LGBT’’ e virou música. No caso tudo é música. Acho que a maior potência da música é quebrar essas paradigmas pra sociedade, esse é nosso maior hit.  Eu fico muito feliz em ver que as pessoas normalizaram a Glória, a Pabllo, etc. Você pode não gostar do som, mas você já normalizou isso. Essa quebra de preconceitos é o que move a gente.

S.O.M: Você já fez várias coisas: é formado em administração, já foi gerente de banco, deu aula no ensino social profissionalizante. Que momento você decidiu que tinha de ser a música?

Pablo: Sim, eu já fiz bastante coisa, mas eu acho que tudo faz sentido hoje. Tudo pelo que eu passei na minha vida fez sentido quando comecei a entender que é isso o que eu amava. E se alguém me perguntar ‘’Qual a coisa que você mais ama no mundo? Algo que você poderia viver fazendo?’’ Eu não tenho outra opção, a minha primeira opção é o que eu faço hoje! Não tem outra opção que eu ame mais que isso, de saber o impacto que a gente faz na vida das pessoas.

Mas um momento muito importante pra mim foi no Doutores da Alegria, quando eu vi o que eu fazia na arte e conseguia impactar a vida das pessoas – mesmo que num quarto de hospital. Eu falei que queria isso pro resto da vida: entender pessoas, as dores, as alegrias, os medos, as ânsias, etc. E como a gente conseguiria remediar com música, foi nesse momento.

S.O.M: Quais as dificuldades que você encontrou para viver de música no Brasil? Como as superou?

Pablo: Eu digo que eu sou um ponto fora da curva, minha primeira música acabou se tornando um hit… Por algum motivo o universo, os deuses e as deusas quiseram isso. Mas viver de música no Brasil é muito complicado. É um país que não investe em arte, em cultura… você vê pelo governo que a gente tem hoje, então cada vez fica mais difícil de você ter possibilidades, o que não inviabiliza, mas a gente precisa entender possibilidades.

Tem uma coisa que é muito importante: às vezes as pessoas só veem uma porta e você não vê que tem mil e uma outras possibilidades para viver de música, não necessariamente do jeito que você imaginou, mas de qualquer forma você está ali, seja sendo um influencer que fala sobre música, seja trabalhando no estado, seja como um produtor, uma compositora, etc. Tem outras mil possibilidades para que a música possa estar na sua vida de alguma forma, mas num país que é total negacionista – que é total pro outro lado – as oportunidades elas realmente afunilam e acaba sendo muito difícil. 

Meu trabalho hoje como produtor, compositor e empresário, é olhar pro outro lado, aquele que as pessoas não veem, e tentar trazer o máximo de pessoas que tem esse sonho, esse talento, essa vontade e esse respeito principalmente… É essencial você respeitar diferentes cores, gêneros, classes, etnias e verdades, enfim, respeitar o outro. Acho que aí que a gente começa uma nova cena de pessoas que se ajudam e prosperam, porque a sua prosperidade não significa a não prosperidade do outro. Acho que tem espaço, porém a gente precisaria de muito mais incentivo pra isso, sabe?! E é o que falta aqui no país.

S.O.M: Se você tivesse de nomear uma de suas produções como a ‘’divisora de águas” em sua carreira, qual seria?

Pablo: Essa é uma pergunta que eu não consigo responder, porque tem muitas que foram divisoras de água e divisoras de ideias e de caminhos. Cada uma com seu momento, com seu olhar… onde a gente poderia abrir possibilidades e viver… ‘’Essa Mina é Louca’’ foi minha primeira música, a primeira música que eu fiz, e que estourou, então essa foi necessária na minha vida pra me entender como artista e que eu gostaria de viver disso, eu gostaria de fazer esse impacto nas pessoas. Quando eu passava nos lugares e via as pessoas cantando e dançando, eu precisava disso pra mim… A vida inteira eu procurava um propósito e eu me entendi ali. 

‘’K.O.’’ me levou pra um outro lado, um lado que eu poderia entender o outro principalmente porque eu não tinha nada da realidade da Pabllo, da cena drag… com ‘’K.O.’’ veio ‘’Joga a Bunda’’ e ‘’Bumbum de Ouro’’, que foram músicas que consolidaram o pop das drags no Brasil, então elas foram muito importantes para essa disruptura que eu falei anteriormente. Então ela (‘’K.O.’’) também dividiu águas.

‘’Pesadão’’ foi uma música que me marcou por ter muito da minha vivência, da força de vontade, e poder passar isso pro outro… ‘’Sua Cara’’ também, enfim, eu posso falar tantas coisas… Eu acho que o mais importante disso tudo foi quando eu conectei com pessoas que não só faziam de verdade, como também entendiam sua mensagem pro outro, sabe?! O quanto elas poderiam impactar a vida do outro. 

S.O.M: O que você julga como uma ‘’boa produção’’?

Pablo: Eu acho que uma boa música, uma boa produção é algo sempre muito relativo. Eu acho que boa produção é aquela que é boa pra você… Se você está confortável, se você está feliz, se as pessoas estão ouvindo e gostando, isso é bom, sabe?! Não tem como julgar e falar o que é certo ou errado. Se a música é boa pra alguém, essa música é boa.

 A música é um reflexo da cultura, é um reflexo do que alguém está vivendo e se alguma pessoa tiver fazendo isso e for bom pra ela, então essa música é boa, essa produção é boa. É engraçado quando, por exemplo, a gente vai produzir um funk e a gente tem todo esse cuidado, porque a gente não tem o lugar de fala da galera que tá fazendo funk nas comunidades, e não fica igual… Não fica igual porque o funk precisa dessa verdade, dessa raiz, dessa ‘’rua’’.

Música boa é aquela que é boa pra alguém, produção boa, letra boa, composição boa é aquela que impacta alguém. Se alguém sentiu, mesmo que você esteja tocando uma panela, é uma música boa.

S.O.M: Você recentemente fundou o selo Inbraza junto com Ruxell e Sérgio Santos. Você pode nos contar mais sobre como surgiu o selo?

Pablo: O Inbraza é um selo em parceria com a Liga Entretenimento e a SOMLivre. A Liga empresaria muitos artistas, inclusive a Preta Gil, que está com a gente também no cerne do Inbraza.

Os Dogz: Ruxell, Pablo Bispo e Sérgio Santos.

S.O.M: E sempre foi um sonho descobrir e gerenciar novos artistas?

Pablo: A gente sempre teve esse sonho de encontrar em lugares que as pessoas não veem, artistas que a gente poderia alavancar e se tornarem as novas referências do Brasil.

Por mais que a gente tenha feito isso com nossos amigos artistas desde o começo – com a Pabllo, a Iza, a Glória, Pedro Sampaio – a gente queria fazer isso bem no cerne mesmo, podendo gerir 360º da carreira.

Isso era um sonho da gente até o momento em que a gente pôde viver isso, a gente pôde estruturar isso com parceiros que tem expertise em outras áreas. Meu sonho foi realmente entrar nos lugares, nas comunidades, não só do RJ, mas de todo sudeste, do Pará, de Salvador, etc., ir para outros lugares e encontrar artistas que a gente entendesse que teriam representatividade, vozes, formas diferentes de mostrar seu trabalho, e principalmente, formas de tocar outras pessoas. Isso é o essencial do Inbraza.

Artistas do selo Inbraza e o produtor Ruxell, durante a festa de lançamento no Rio de Janeiro.

Ver hoje o Lukinhas, que tem um ano e meio de carreira, ter mais de 100 milhões de streamings… Um menino que mora na comunidade, que é um exemplo hoje pra sua comunidade, pelo quanto ele impactou socialmente não só na comunidade dele mas também em várias outras.

E esse sempre foi meu sonho: mudar vidas através da música. Não só de quem tá cantando ou criando com a gente, mas principalmente de quem tá ouvindo, de quem tá sentindo.

S.O.M: Você também é parte da Brabo, um time que produziu inúmeros hits nos últimos anos, como aconteceu essa união? 

Pablo: Sim, eu sou parte dos Dogz e sou parte do Brabo. São duas formas diferentes de trabalho assim… No Dogz a gente tá mais no dia a dia, a gente tem dois estúdios, a gente fica nesse esquema de produção. A gente normalmente produz muito disco, disco da Iza, disco da Glória, do Fran, do Ruxell, da Lexa, etc. Claro que a gente faz muitos singles, fizemos muitos singles que deram super certo, mas a gente gosta muito desse trabalho de discos, de EP, de ‘’fazer o sentido’’, de estudar quem é você.

E o Brabo é um outro lado, é um lado ‘’Vingadores’’ que eu digo. Cada um tem seu trabalho. Sou eu, Maffalda, Gorky, Arthur Marques e Zebu. Cada um tem seu trampo, cada um faz seu trabalho, mas a gente se junta pra fazer trabalhos específicos. 

Um deles que é sempre feito por nós, desde o começo, é a Pabllo, mas também já produzi muita coisa do Mateus Carrilho, da Urias, artistas LGBTQIA + eram o foco do Brabo desde o começo.

A gente já fez bastante coisa legal, ‘’Desce pro Play’’, ‘’Sua Cara’’, enfim, o Brabo é tipo Vingadores: quando o sinal toca aqui todo mundo se junta pra criar alguma coisa.

A gente se respeita, se ama, estamos sempre juntos. Somos 5 pessoas, 100% diferentes,  que estão ali sempre quando se unem em prol da música.

S.O.M: Com quais artistas você gostaria de colaborar?

Pablo: Nossa, assim, eu tenho muita gratidão porque todo mundo que eu amei, eu pude trabalhar! Já fiz música com Gil, Caetano, Djavan, Milton, Lulu, Ana Carolina, Pablo, Glória, Anitta e outros artistas que a gente foi passando por eles pela vida, como o Emicida, a Maria Gadú.

Quando eu era adolescente eu não imaginaria que eu ia viver de música e é incrível o quanto você consegue se encontrar com as pessoas que você sempre admirou e sempre amou e o quanto você consegue dar uma outra ótica para essas pessoas.

Hoje eu tenho trocado muita ideia com Rodrigo Amarante, que foi uma das pessoas mais importantes da minha vida nos momentos mais difíceis, na luta contra o câncer na minha família. Estar com ele hoje tendo a possibilidade de fazer algo, é incrível! É só agradecer e poder dar o meu melhor.

Mas tenho muita vontade de trabalhar com a Elza Soares, alguns lá de fora também… Se quiserem trabalhar comigo, fiquem à vontade! Deixo esse convite aí. Sempre digo que a música é consequência. Nunca sento pra fazer música, a gente senta pra conversar, pra tomar alguma coisa e o resto é consequência. Quem quiser, de coração, colar com a gente fica à vontade!

S.O.M: O que podemos esperar de novidades para 2021?

Pablo: 2021 tem muita coisa boa! No Inbraza principalmente! A gente tem muitas músicas com o Lukinhas, que é um artista que tá super em alta por a gente ter feito ‘’Pipa Voada’’, junto com o Rashid e o Emicida, e isso ter dado uma projeção muito grande pra ele, mesmo com 6 meses de carreira e apesar da pandemia… Se não tivesse a pandemia, a gente estaria em outro patamar, mas acho que tudo tem seu momento certo. É uma coisa muito complicada no mundo inteiro. Só da gente poder fazer o que ama e estar bem, mesmo que às vezes seja difícil mentalmente, espiritualmente, financeiramente.

Tem muita coisa do Inbraza incrível! A Kynnie, que é uma artista incrível, vocês precisam conhecer! A Ana K, a mesma coisa.. são artistas que a gente acredita muito! E também tem uma novidade que eu não posso contar, mas é um disco que eu nunca me doei tanto pra fazer… é uma coisa que podemos conversar mais pra frente quando estiver mais maduro.

Esse ano a gente tirou pra estudar um pouco mais, eu venho de 6 anos sem parar, são seis anos seguidos numa pressão mainstream muito grande, apesar da gente fazer o que ama e não ficar pensando muito em hit ou não. 2020 foi um ano muito difícil pra todo mundo e mesmo assim a gente não parou, então esse ano a gente quis dar uma respiradinha, focar em menos artistas pra poder estar com a saúde mental em dia. Isso é muito importante para todo mundo.

É isso, eu espero muito amor, espero muita vacina – pra todo mundo principalmente -, alegria, paz e energia boa. Vem muita coisa boa em 2021! Espero que vocês gostem e contem comigo!

Escrito por

Gouthier é jornalista cultural, artista audiovisual e pesquisador em direção de arte fonográfica.

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