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Entrevista

Tolentino: Um artista do tipo que a gente não pode duvidar

Revelação do pop no último ano, artista prepara um registro para o segundo semestre

Tolentino
(Divulgação/Foto: Gustavo Delgado)

Dono de uma voz única e letras inundadas de intensidade, Tolentino é uma das revelações nacionais a se observar. Seu primeiro EP, lançado em 2020 e intitulado “Caos”, evoca emoções comuns à juventude, porém, na perspectiva singular do cantautor. O projeto trouxe produções de Rodrigo Kills – integrante do duo Cyberkills – e Érika Linq.

Já esse ano, Tolentino deu vida a faixa ”Aqui”, parceria com a norte-americana VÉRITÉ, e a ”Parede”, uma agridoce balada pop guiada por cordas e que serve como segunda amostra de seu novo projeto, ainda não lançado e previsto para o próximo semestre de 2021. Se ano passado o artista foi uma aposta do pop brasileiro, hoje já é algo concreto, uma realidade, um nome para acompanhar.

O S.O.M conversou com o artista sobre suas inspirações, planos, criatividade, pandemia e muito mais. O resultado você confere logo abaixo.

S.O.M: Quais são as inspirações para suas letras e seu som?

Tolentino: Deus e os gays, como diria a Gaga (risos). Por muito tempo, minhas inspirações foram diretamente o que eu estava vivendo. E isso foi importante demais, porque tirou o medo de “ser um artista” ou ser julgado por um ponto de vista, que aconteceu muito na minha cabeça no início.

”Quero muito usar a linguagem dos meus heróis pra contar minhas histórias de garoto estranho”

Tolentino: Não sei se por um reflexo de ter a oportunidade de estar trancado em casa há mais de um ano, mas tenho escrito algumas coisas menos focadas na liberação emocional agora. Quero muito usar a linguagem dos meus heróis pra contar minhas histórias de garoto estranho. Isso faz com que meu som e tudo mais que vem por aí seja mais acessível. Isso é bem importante pra mim. Ser real e acessível. Igual aos artistas que me fazem sentir algo, como Kate Bush, Bowie, Björk, Djavan

S.O.M: E quanto aos visuais?

Tolentino: A imagética do passado tende a me agradar mais que o futuro. E a atitude da cena ao redor do punk em NYC dos anos 70 tem sido uma boa fonte visual e pro meu som de agora. Warhol e Mapplethorpe especialmente.

S.O.M: Em seu single “Aqui” você colaborou com a cantora VÉRITÉ. Com quais outros artistas você gostaria de colaborar?

Tolentino: Com a própria VÉRITÉ já foi um sonho. Conheci ela quando estava no ensino médio, tinha acabado de instalar o Spotify e naquela época conheci os artistas que mais me impactam até hoje. Incluindo minha compositora preferida, a Allie X. Sinto que ela tem um respeito pela arte de fazer música que é muito bonito, ainda fazendo algo pop e real. Além dela, Céu e Jaloo foram muito importantes pra mim em me perceber como artista brasileiro nos anos 10 do século XXI.

S.O.M: O single “Aqui” e seu mais recente lançamento, “Parede”, fazem parte de um álbum/EP que está por vir?

Tolentino: Yes! Essas duas faixas são irmãs na minha cabeça. Elas concentram bem a proposta de som que tenho pra esse projeto. Desde o pequeno e super vulnerável do vocal de ”Aqui’‘ ao final super dramático e grande de ”Parede”. O próximo projeto sai no segundo semestre deste ano, com mais duas ou três colaborações que ainda nem acredito!

S.O.M: E como tem sido criar com todo desastre político desse país e, claro, a pandemia?

Tolentino: A pandemia não mudou muito meu processo de criação, porque sempre fiz as coisas no meu quarto, trocando arquivos com amigos colaboradores. Mas muita coisa mudou na minha vida dentro desse último ano de pandemia. Me mudei pro interior de São Paulo junto com minha mãe, o que tem me proporcionado uma vida menos desesperada. E só esse tempo a mais tem já me feito um músico muito melhor. Estou cada dia mais animado, porque fico pensando no músico que vou ser daqui a 5 anos, sabe?

”Estou cada dia mais animado, porque fico pensando no músico que vou ser daqui a 5 anos, sabe?”

Tenho podido estar em casa e alimentando bem, isso é um grande privilégio no Brasil sob Bolsonaro. Tem dias que são difíceis de querer fazer qualquer coisa. É muito triste e como um artista ainda pequeno, é esquisito pensar em formas de fazer isso ser melhor. Mas o silêncio com certeza não é uma delas.

S.O.M: Seu mais recente single, “Parede”, traz a produção totalmente assinada por você. Podemos esperar mais do espírito DIY no álbum?

Tolentino: Não exatamente. Tudo meu sempre é muito autoral, mas me vejo mais como compositor (mais do que cantor). Minhas produções vêm mais quando sinto algo muito específico que quero traduzir em som. Às vezes outra pessoa pode me ajudar mais nisso do que eu sozinho, sabe? Mas curto muito discos feitos com equipes pequenas. Tipo Jack Antonoff e Lana, Billie e o Finneas, citando exemplos recentes. Então vou continuar na solidão do meu quarto, mas com colaborações! Mas a resposta poderia ser sim.

”Sou da geração que só pode estar fazendo

música porque a internet permitiu”

Acho que só tenho problema com “DIY” ou “bedroom pop”, porque sinto que nesse trabalho o universo é bem maximalista. Meu sonho é sempre fazer música que não vença, e também tenho tido um fetiche em fazer um disco que soe como feito no Electric Lady com uma banda completa, mas sozinho no meu quarto.

S.O.M: E o que você tem escutado nesses últimos tempos?

Tolentino: Tô doido no disco da Olivia Rodrigo, como todos gays de Twitter (risos). Jeremy Zucker e Phoebe Bridgers estão muito nos meus fones também. E tenho feito exercício todo dia de manhã ouvindo umas do “Confessions On a Dancefloor”, da Madonna e, também, estou doido no single mais recente da Vérité, chamado “By Now”.

S.O.M: Quais são seus maiores desafios enquanto artista independente?

Tolentino: Ser levado a sério. Sou da geração que só pode estar fazendo música porque a internet permitiu. Dentro disso, muita gente cria música por diversão e outros tem grandes ambições. Estou no segundo grupo e não ter um respaldo de gravadora ou investidor faz ser mais difícil das pessoas perceberem isso. Isso de se nomear artista independente é uma coisa que tenho questionado muito também, porque não quero que as pessoas me ouçam só porque sou independente e é difícil de manter uma carreira. Quero que as pessoas nem se importem com isso. Que elas me ouçam porque sentem precisar daquele som e porque acreditam em mim como sendo um dos escolhidos pra registrar na cultura este momento.

Você confere mais faixas de Tolentino nas plataformas digitais.

 

 

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Indica: Grisa

Escrito por

Gouthier é jornalista cultural, artista audiovisual e pesquisador em direção de arte fonográfica.

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