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40 anos de Baile Charme

O movimento revolucionou a música brasileira e o comportamento de uma juventude que sobrevivia à ditadura militar

Baile Charme, em Madureira, na Zona Norte do Rio. (Fonte: I Hate Flash)

O ano de 2020 marca as comemorações dos 40 anos de existência e resistência do Baile Charme, considerado um dos eventos mais tradicionais da cultura negra do Rio de Janeiro. O termo “Charme” foi uma forma de se referir ao R&B na década de 1980.

Atualmente, chamamos de Charme as músicas negras dos anos 1980 e 1990 que incorporaram o estilo Soul e Funk Americano. Esses gêneros se tornaram uma grande tendência no Brasil na década de 1970 graças ao Movimento Black Rio. Apoiado por grandes nomes como Banda Black Rio, Tim Maia, Tony Tornado, Gerson King Combo e Carlos Dafé, ficou conhecido com um dos fenômenos mais criativos da cultura popular negra.

 

Primórdios do Charme

Influenciados por esse movimento setentista, os bailes de música black foram disseminados pelos lendários DJ Big Boy e Ademir Lemos. Ambos criaram uma estrutura sonora com caixas de som, microfones e aparelhos toca discos que embalavam os bailes da cidade. A black music estava perdendo espaço para a disco e o pop rock estrangeiros, que permearam nossa cultura de forma estrondosa no início da década de 1980.

É nesse contexto que DJ Corello, considerado o “Pai do Charme” e o “mago das pick-ups”, começou a experimentar músicas novas. Resgatando o soul, acompanhado de um swing funk menos acelerado, o DJ criou um estilo único de tocar. As equipes de som realizavam os bailes em locais como o Sport Club Mackenzie, no Méier.

 

Performance de DJ Corello em um baile no Mackenzie (1980) (Fonte: Página “35 anos de charme” no Facebook)

 

Ao ver que as pessoas gostaram do ritmo e dançavam em um movimento diferente e charmoso, Corello assumia o microfone e anunciava:

“Chegou a hora do Charminho, transe seu corpo bem devagarinho…”

Desde então, o Charme se tornou uma das maiores expressões artísticas do subúrbio carioca e alcançou popularidade em toda a cidade.

No início, as danças e as pick-ups eram dominadas pelos homens, na hora da coreografia eles assumiam a primeira fila, que pouco a pouco foi ganhando a forte presença feminina. As roupas traziam um aspecto luxuoso: homens de terno e sapato lustrado, mulheres de vestido longo e salto alto. Jeans e tênis, nem pensar. Hoje, o traje é livre, e as pick-ups também! Nomes como os das DJ’s Cacau e Evelyn figuram entre os eventos de Charme da cidade.

 

 

Baile Charme no Viaduto de Madureira

Vem aí o baile mais elegante da cidade e com muito amor” é o que dizia o já extinto jornal Charm na Rua em 1993. Os irmãos Celso e Cesar Athayde decidiram levar o baile Charme na Rua para a “capital do subúrbio carioca”, o bairro de Madureira, e desde então a tradição se mantém viva.

O ritmo se tornou tão presente e importante para a sociedade que, por meio de uma Lei Municipal em 2000, foi criado o Espaço Cultural Rio Hip Hop Charme, situado embaixo do viaduto Negrão de Lima, mais conhecido como o Viaduto de Madureira. O espaço abriga o Baile Charme, que ocorria todos os sábados antes da pandemia do corona vírus, reunindo amantes do ritmo em prol da disseminação dos valores da cultura negra, respeito ao próximo e, principalmente, diversão.

Escrito por

Aficionada por música, reconheci minha vocação cultural ao longo da graduação em Química na UFV e decidi me dedicar às novas profissões após concluir a faculdade. Atualmente, atuo como redatora, curadora musical, produtora de conteúdo e assistente de produção executiva. Sou idealizadora do perfil TODO DIA UM CD DIFERENTE no Instagram, onde escrevo sobre discos nacionais e internacionais, elaboro playlists e abordo temas relacionados à cultura e à sociedade.

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