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A “CPI” DE MADBLUSH

Artista usa do gancho político para quebrar padrões

Madblush
Foto: Divulgação

Madblush não esconde o que sente sobre as coisas. E faz muito bem em não fazer isso! O cantor de “Be a Puta” é manchete da mídia com sua última música “CPI” lançada na última quinta feira (26/08).

O cantor gaúcho não tem precedentes; ele emergiu das profundezas do Tumblr para dominar as paradas pop, enquanto crescia como uma drag descaradamente talentosa em POA. Seu último álbum, é um exercício de fanfarronice; uma batida triunfante e impulsionada pela arte de protestar com a elegância de fazer levantar as sobrancelhas.

No entanto, ao considerar a carreira de Madblush, e a homofobia claustrofóbica e imponente no país e especialmente na velha mídia (Leia TV e Radio), ele se torna mais ousado em suas letras e visão criativa, Mad começa a transcender os limites do estereótipo “The Gay Singer”, conquistando espaço para si mesmo como um messias sem remorso para a geração jovem e queer de hoje.

“CPI” não é o estágio inicial de uma carreira em ascensão, e a jornada não vem sem sua cota de lutas, dúvidas e medos. E como alguém que cresceu na era da internet, ele geralmente bate de volta em seus detratores. Ainda assim, a sagacidade e o comportamento imperturbável de Madblush não significam que ele não seja totalmente afetado pelo ódio e homofobia que muitas vezes é direcionado a ele, especialmente de haters e seus pares.

A “nova” voz da cena gay gaúcha agora está muito mais fundamentada em si mesmo como uma espécie de lenda criada por ela mesma, um ícone preparado para tornar-se um pioneiro singular, especialmente no mundo do pop brasileiro. Em termos de estrelas pop que expressam sexualidade em confronto com o mundo conservador, é preciso voltar décadas, mesmo para David Bowie ou Madonna ou Ney Matogrosso, para encontrar outras pessoas que foram tão longe na construção de um caminho que tornará as coisas menos difíceis para outros artistas e menos chocante para o público.

 

Na sessão de perguntas e respostas abaixo, falamos sobre referencias LGBTQIA+, homofobia e CPI…

S.O.M: O que expressar seu mundo em sua música fez por você?

Madblush: É libertador. Desde que comecei a cantar e escrever as minhas letras, essa foi a maneira mais consistente de expor minha liberdade de pensamentos, ideias, opiniões. Poder contestar, lutar, mostrar sentimentos e vivências reais e me divertir também, claro!! Sendo tudo que eu quiser e experimentando todas as possibilidades que passam pela minha cabeça. Musicais e visuais. E são muitas! E isso na verdade sempre foi o que me guiou! Com a pandemia aconteceu uma virada de chave total em relação a coisas que ainda algumas vezes me distraiam do real caminho. Alguns medos que eu tinha também sumiram.
S.O.M: O que significa para você ser chamado de a voz da cena gay gaúcha?
Madblush: Olha, é sempre bom ser reconhecido como uma referência! Apesar de preferir “Um dos ícones da contracultura gay do RS” como saiu em outra matéria (risos).

Contesto muitas coisas e não me contento com outras. Não acho lindo e maravilhoso o que todo mudo acha. Não faço drama com coisas que muita gente faz só pra causar. Por isso me identifico mais com uma “contracultura”.

Exponho na minha nova música CPI o desejo de rasgar rótulos. Bem artisticamente falando e não como militante, sinto muitas vezes que quando encaixotam a sua música para ser consumida somente pelo meio a qual tu faz parte, isso é bem conveniente para aqueles que não querem que você apareça ou se destaque em um cenário mais amplo. Como por exemplo: Lembram que você canta, escreve, produz só na data do orgulho. E depois te “guardam” e voltam a escutar e consumir os outros…

Tem muitos artistas que se contentam e ficam felizes… E tudo bem! Maravilha! Eu não consigo. Além de ser lembrado como voz da cena gay gaúcha quero ser lembrado como a voz da música. Da música Pop ou melhor, da nova música Pop gaúcha que tá no mundo!
S.O.M: Quais foram seus modelos, suas referências artísticas na infância?
Madblush: Mil coisas (risos). Sempre gostei de artistas intensos, com energia, criativos, com personalidade e com voz. Mas ao mesmo tempo, quando comecei a cantar procurei sempre ter a minha própria voz. As minhas características. Minha identidade. Por isso as referências sempre foram muito instintivas. Acho que é porque aqui dentro tenho muitas coisas a dizer do meu jeito.

Na minha infância a música vinha de um radinho de pilha velho que sintonizava poucas rádios como a FM Cultura. Acho que era essa. Não lembro. Eu escutava ópera e ficara imitando as vozes e a extensão vocal das cantoras. Achava incrível!! Como foi uma infância pobre, fora o radinho, tudo de música era muito ligado a tv. Quando a MTV Brasil entrou no ar nos anos 1990, consegui sintonizar o canal por um milagre (risos).

E aí foi mágico! Madonna, Michael Jackson, Ney Matogrosso, Annie Lennox, Prince, Björk, Deee Lite, Fernanda Abreu, Marisa Monte, Mariah Carey, Moloko, C+C Music Factory, Metallica, L7, Boy George, No Doubt, Guns And Roses, TLC, Aretha Franklin, Salt”N Pepa e muitos outros artistas em uma salada de estilos que poderia ficar horas dizendo aqui…Me formaram. E na época a famosa “Dance Music dos anos 90” me sacudiu já chamando para a música eletrônica.
Depois fui descobrindo mil coisas, mais estilos, artistas e uma variedade de gêneros que eu viria a curtir e incorporar na minha relação com a música. Sempre fui muito inquieto e isso formou a minha personalidade musical atual.

S.O.M: A homofobia já afetou você como artista?

Madblush: Sim e não.

Sim! Já perdi trabalhos quando DJ porque o contratante disse que eu era muito gay! Sendo que minha música, meu set não foram avaliados né?! Aí você trabalha em uma casa LGBTQIAP+ e seu trabalho só serve para aquele lugar. Sendo que seu som, sua técnica, seu set é muito melhor que a maioria dos outros que tocam no outro lugar que nem profissionais são. Af.

Sim! Porque citando um pouco o que falei anteriormente as pessoas usam convenientemente muitas vezes a sua sigla LGBTQIAP+, ou seja lá qual for, pra te limitar. Pra te deixar dentro da sua caixa.  Vejo isso algumas vezes como um tipo de preconceito e homofobia velados. De maneira sonsa… Sabe? Já senti algumas vezes não ser chamado para algum festival, por exemplo, porque eles me colocam somente como “artista LGBTQIAP+” e não como um artista que pode e deve se apresentar em qualquer palco porque independentemente de qualquer coisa faz MÚSICA.

Não me afeta mais tanto hoje em dia pois aprendi a lidar com isso de uma maneira fria fazendo disso um combustível pra ser melhor! Pra fazer mais e deixar eles tontos! (risos)

 

S.O.M: Melhor app e melhor festa LGBTQIA+?

Madblush: Não uso app e confesso que nunca usei (risos).
Melhores festas? As minhas!! Óbvio!!! (risos)

S.O.M: Você já se sentiu inseguro como artista LGBTQIA+, em público?

Madblush: Em geral todo mundo diz que nunca pareço inseguro. Mas é claro que algumas vezes dá um nervoso. É claro que dá um frio na barriga sempre e isso é maravilhoso pois estou vivo! Mas isso nunca me atrapalhou. Eu amo a troca de energia olho a olho com o público e gosto de seduzir públicos mais difíceis (risos).

Em lugares mais héteros, ou eventos mais misturados, raríssimas vezes aconteceu alguma coisa que me deixasse inseguro. Até pelo contrário. Tem alguma coisa de energia e força no meu “ao vivo”, principalmente, que causa um respeito. Acho que também porque eu não me sinto frágil por ser LGBTQIAP+ . Procuro mostrar a força do artista que eu sou e da minha música.

S.O.M: Quanto tempo você acredita que algum dia Brasil e America latina possam ter um presidente LGBTQIA+?

Madblush: Para presidente não sei se o Brasil chega a isso tão cedo. Em 2022 acredito que não. Acho que na América Latina talvez antes do que no Brasil.

S.O.M: Lil Nas X, Drag Race Brasil e a primeira trans no Miss Brasil Mundo por Madblush

Madblush: Acho importante ter um artista queer, em um estilo hip-hop como Lil Nas X. As produções são incríveis. Drag Race Brasil? Um ponto de interrogação… Gosto da RuPaul mas confesso que assisti pouquíssimas vezes (risos). A minha inquietação artística me faz cansar quando tudo é só muito visual, “najisse” e treta. E acho que rolou uma fórmula que ficou meio gourmetizada. Mas acho super importante toda a visibilidade para a arte drag claro!!!

Talvez se no Brasil derem um toque mais original e não ficarem só reproduzindo a mesma fórmula, funcione muito! A primeira trans no Miss Brasil Mundo é necessária! Apesar de estarmos falando de um concurso de beleza feminina bem “padrão”, é muito importante para as mulheres trans essa inclusão.

S.O.M: Nos conhecemos há 6 anos atrás, qual sua leitura da cena gaúcha nesse período?

Madblush: Nossa é tão difícil falar do Sul. Falo por mim especificamente. É muito difícil. Mas essa dificuldade que poderia ter me parado a anos atrás só me movimentou. E eu até agradeço em alguns momentos porque sou e estou acontecendo também em função desta dificuldade que me fez entrar no modo superação! Reação!

Eu não sou pessimista. Sou bem realista: A cena gaúcha independente do gênero foi ficando muito ‘morna” pra ser querido (risos).A personalidade que tínhamos em anos passados foi cada vez mais sendo substituída por muitas “cópias de tudo” em vários setores. Muito medo de criar. Muito medo de investir em coisas diferentes. Não digo que precisa ser a “diferentona do rolê” em tudo, falo em mudar as fórmulas mesmo.

Tem uma energia paradoxal de arrogância x subestimação. É muito louco! Não existe união e troca em nada porque não existe conexão, força e nem movimento. Não existe uma valorização artística adequada porque tem uma energia de alguns grupos que não aceitam e não valorizam os artistas – especificamente falando -. Mas isso é um fenômeno que vem rolando há anos. A pandemia foi assim realmente um “PARA TUDO!”. Você se dá conta de muitas coisas…

Muitos artistas e pessoas incríveis foram embora e continuam indo embora da cidade (Porto Alegre) e do Sul porque simplesmente se tem a impressão de estar em um limbo.

O Brasil não olha mais pra cá porque se criou um ranço com o gaúcho em um aspecto político. Claro, o estado tem muita culpa.

Mas nem todos são iguais! Existe muito pouca expressividade. E quem tem essa expressividade tem que lutar como louco. E o paradoxo continua: Uma parte dos gaúchos só vive das glórias de um passado. Não olha pro novo! Outra parte não respeita, conhece ou se interessa pelo passado ou quem veio antes fazendo coisas incríveis. É muito louco tudo isso pra explicar!!! Mas temos sementes interessantes sendo plantadas, novos pensamentos saindo de cabeças que assim como eu também querem mudanças reais e espero que depois da pandemia, ou quando a gente puder reorganizar as coisas, o Sul possa melhorar em tudo!

Com relação a mim, cada vez mais sei que meu trabalho é pro mundo!!! Mesmo eu sendo gaúcho e no que diz respeito às minhas conquistas fico extremamente feliz com o público daqui que vem conhecendo o meu trabalho, me valoriza, acompanha e dá força para minha música. O resto é o resto!, A mesmice em alguma hora vai sumir.

S.O.M: Agora e depois o clipe de “CPI” por Madblush?

Madblush: Estou em um dos melhores momentos da minha música! Como cantor, compositor e produtor! Assinei contrato pela primeira vez com um selo! O LAB 344, que é um selo incrível e representa vários artistas maravilhosos. Acabamos de lançar o single “CPI” que faz parte do EP “Livre” que chega em setembro.

O videoclipe de CPI chega para agitar, fazer pensar, ironizar e divertir! Quebrar as caixinhas e relatar a minha percepção de uma falsa desconstrução dos padrões. Aceitável pra muita gente mas não pra mim. Produzido do mesmo jeito que meus últimos clipes “Isolados” e “Então Pare” lançados nos momentos mais complicados da pandemia, “CPI” foi gravado com um smartphone.

Produção, direção, edição, atuação, figurino e maquiagem pelo artista aqui! E digo mais: tá muito melhor que muito clipe da Anitta!
Imagina eu com a grana dela! (risos). E preparem-se porque o EP vem na sequência para surpreender!!!!

 

Escrito por

Nasci em terras tupiniquins, mas sou cidadão do mundo... um poeta amador escrevendo beats numa jornada artística com pitadas de jornalismo. Essa fase da minha vida começou nos corredores da UEL entre 2005 e 2008. De 2012 a 2014 fui apresentador na Web Radio ALMA Londrina e Fiz um filme com a Maria Alice Vergueiro, ela mesma, diva que você conhece do curta: Tapa na Pantera. Esse filme eu fiz com os amigos da Clareira Filmes (2013) e Em 2011 trabalhei na produção de um curta com o ator inglês George Antoni para a Union Films - UK. Antes, de 2008-2010 colaborei com a revista Dynamite como correspondente em Londres. Antes de me aventurar escrevendo para a som.vc, eu andava testando novas linhas e contornos para o esquecido gonzo jornalismo... na revista digital: escuta que é bom.

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