Siga!

Entrevista

ANDERSON DO SAMBA FALA SOBRE “SOLISTA QUÉ BASE”

Trabalho autoral chega às plataformas após 18 anos de gravação

Solista Qué Base
Foto: Ravena Maia

Anderson do Samba, filho do mestre baiano Neguinho do Samba, lançou no último mês de maio o álbum de afrojazz intitulado “Solista Qué Base”. O trabalho é homônimo ao grupo formado por Anderson na percussão, Leandro Almeida no trompete e Marcio B.A no saxofone.

O disco foi gravado em setembro de 2003 e disponibilizado nas plataformas digitais após 18 anos através do selo paulista Música Mundi. O repertório é composto por músicas autorais e traz como narrativa a mistura do jazz com diferentes ritmos africanos.

Foto: Daniel Dandê

Solista Qué Base

O músico conta que o nome do grupo surgiu no ano de 2000 a partir de uma conversa  com o maestro Ubiratan Marques:

Quando eu dei esse nome estava eu e Bira. Tocamos juntos em São Paulo, fizemos uma pequena turnê. Na verdade, Bira já estava morando em São Paulo e eu fui pra lá com um ex-integrante do Olodum que montou uma banda me chamou para fazer umas gig e eu fiquei morando em São Bernardo apesar de tocar em São Paulo. Quando a gente viajava Bira sempre sentava com uns livros, todo intelectual. Aí no meio de uma conversa eu falei “poxa Bira, quando eu montar um grupo ele vai se chamar Solista Qué Base”. Ele abriu o olho e disse que o nome era bonito. Até então eu não sabia como seria a formação.”, conta Anderson.

SOM: Esse nome surgiu assim do nada?

Anderson: Foi eu e Bira… O nome veio em 2000 em São Paulo e o grupo só aconteceu no ano de 2003. Por coincidência foi com dois músicos de São Paulo, um de Ribeirão Preto e outro de Tatuí que estavam aqui em Salvador. Leandro Almeida e Márcio BA. Eles se conheceram aqui e estudaram no mesmo conservatório. Era muito bom mas depois o B.A entrou numa religião, deu o sax e sumiu. Foi uma coisa muito doida, ele era um bom músico.

SOM: E você não tem vontade de procurar ele?

Anderson: Assim, B.A  deu o sax, parou de tocar e está só pregando. Engraçado que procurei ele em São Paulo, procurei ele quando fui pra Itália para levar ele também mas ele tinha sumido. Agora quando eu decidi colocar o álbum nas plataformas digitais foi uma coisa meio doida. Eu não tinha o nome dele completo. O Leandro está morando em São Francisco nos Estados Unidos, falei com ele e até então eu não tinha o contato de B.A. Uma amiga flautista que mora em São Paulo me indicou um outro flautista lá de Piracicaba que tá estudando aqui na UFBA e quando eu vi o currículo dele eu perguntei se ele conhecia B.A. Ele contou que estudou no conservatório quando B.A tava saindo e tinha o contato dele. Dez anos que eu não falava com B.A…

SOM: Qual foi a sensação de conseguir falar com ele novamente?

Anderson: Eu fiquei emocionado de ver que ele tá bem porque independente de música eu gosto dele. Eu disse pra ele: enquanto há vida há esperança. Se ele está bem, amém. Se ele precisar tem um amigo também. Mas pense num músico foda? Muito humilde, ninguém dá nada, baixinho… mas é um gênio mesmo. Fiquei feliz de saber que ele tá vivo, que tá bem.

SOM:  Como foi que o grupo começou?

Anderson: É tudo natural mas é tudo uma labuta, né? Quando eu montei o grupo não esperava esse retorno. Salvador não tinha muito espaço para esse som mais instrumental e alternativo como é hoje. Eu não via muito. Lembro que quando a gente gravou o disco lá em 2003, na raça, sem muita grana. Eu tocava na banda Pinel, viajava sexta-feira e voltava na segunda. Um dia saí da banda porque já tava cansado e decidi montar o Solista. A gente participou do mercado cultural mas aqui em Salvador tem umas coisas que hoje mais maduro dou risada.

SOM: Tipo o que, Anderson?

Anderson: Teve um festival de música instrumental, a gente mandou o álbum todo feliz e eu tocava na orquestra do Fred Dantas na época. Ele virou para mim e disse que a gente não ia tocar no festival mas ia tocar no Maracangalha com ele, e não rolou mesmo mas tocamos no festival do maestro Fred. Eu fiquei meio pirado mas recebi um convite do Maestro Aldo Brizzi para ir pra Índia , fui tocar no Fórum Social Mundial lá da Índia em janeiro de 2004. Quem ia era Luizinho mas surgiram outras coisas pra ele e ele não pôde ir. Bira Reis que me convidou e eu aceitei. Foi meio louco porque até então eu tava tapando um buraco. Foi um trabalho lindo. Era uma cantora indiana, um trio de flautistas franceses e um trio de percussionistas baianos que era eu, Bira Reis e Michelle Abu.

SOM: Como foi para você realizar o lançamento desse álbum nesse momento, após 18 anos?

Anderson: Internamente, em relação a outros músicos e pessoas mais próximas, muito positivo. Você vê o Toninho, pai da harmonia brasileira mineiro, dizer que o trabalho está legal. Isso só faz fortalecer o nosso trabalho porque não é só um grupo de música instrumental tem uma história, uma pesquisa. E agora estamos pensando em realizar o Festival Solista Qué Base Convida e convidar Fred Dantas, Toninho Horta, Ubiratan Marques. A gente é muito aberto e acredito que a gente tem essa missão de agregar outros músicos. Quando o nosso grupo toca, estamos contando uma história e reverenciando mestres como Nelson Maleiro que é um percussionista e saxofonista carnavalesco, a gente está reverenciando Vivaldo Conceição, o primeiro negro a tocar na Orquestra Sinfônica da Bahia.

 

Escute Solista Qué Base:

 

Gravado em Setembro de 2003

Técnico de Gravação e Mixagem: Fernando Gundlach
Masterização: Filipe Cavalieri
Foto de capa: Daniel Dandê

Músicos:
Anderson do Samba – Percussão
Leandro Almeida – Trompete
Marcio B.A – Saxofone

Convidados:
Portela Açúcar – Voz
Nicolas Severin – N'goni e Flauta Africana


Escrito por

Acredito no poder de transformação social da música e busco conhecê-la desde o seu contexto, nas narrativas periféricas de produção em cultura e na história que não é única. Comunicadora e criativa, garimpo vinil vez em quando.

Comente!

Comente

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

LEIA MAIS

S.O.M. — Sistema Operacional da Música — Desenvolvido por Mídia NINJA, Fora do Eixo e Hacker Space.

Connect