Siga!

Entrevista

CRUA: CARNAVAIS DE RUA E ATIVISMO

Coletivo realiza primeira edição do Fórum Nacional de Carnavais de Rua entre os dias 12 e 15 de agosto

Carnavais de Rua
Foto: Mídia NINJA

Há um pouco mais de ano, fomos surpreendidas pela pandemia que se instaurou com a disseminação do novo corona vírus. Além dos lutos cotidianos, diversos setores profissionais foram impactados pelos decretos estabelecidos para prevenção da contaminação generalizada. Segundo o Ministério da Economia do Governo Federal, os setores cultural e artístico foram os mais atingidos pelo acontecimento, consequentemente os carnavais de rua também.

Diante desse cenário, o coletivo Carnavais de Rua em Ação (C.R.U.A) foi criado para fortalecer as relações entre produtores e artistas carnavalescos e protestar contra o negacionismo e a má gestão do atual presidente do Brasil. Como uma forma de expor o posicionamento do coletivo diante da crescente tragédia brasileira, foi criado um vídeo-protesto onde se propõe uma primeira ação político-carnavalesca coletiva com grupos de todos os cantos do país.

Fórum Nacional de Carnavais de Rua

Entre os dias 12 e 15 desse mês de agosto acontecerá a primeira edição do Fórum Nacional de Carnavais de Rua. O objetivo do evento é aproximar pessoas do carnaval de rua e suas diversas expressões culturais com debates que contemplam as dimensões cidadã, econômica e simbólica do festejo popular. O Fórum será totalmente online, gratuito, através da plataforma Sympla, com financiamento coletivo voluntário.

Conversamos através do zoom com Bárbara Valente, Israel Dias e Alessa, organizadores do fórum, sobre o processo de criação do coletivo à realização do evento, que leva o título “Não há tristeza que possa suportar tanta alegria: do luto à transformação” fazendo referência à marchinha de carnaval criada em 1919 pós gripe espanhola.

Entrevista

SOM: Vocês podem se apresentar? 

Bárbara: Eu sou Bárbara Valente, sou de Vitória do Espírito Santo e sou produtora e articuladora cultural atualmente. Eu tenho uma história na engenharia e no desenvolvimento de startups, mas eu percebi que eu queria estar mais no meio da música, no meio da dança, no meio das artes e consegui linkar essas duas coisas sendo produtora cultural. Participo de muitos blocos de carnaval aqui em Vitória e foi a partir de uma experiência que eu tive em São Paulo, morei em São Paulo um tempo né, que eu conheci o Arrastão dos Blocos e conheci a Lira, desse grupo que é uma espécie de coletivo. A partir desse contato com ela né, a partir do bloco que eu participei em São Paulo, eu recebi um convite para juntar blocos de carnavais e fazer um Manifesto Fora Bolsonaro, para nos manifestarmos em relação ao que estava acontecendo no início da pandemia. E aí consegui fazer essa ponte para os blocos de Vitória. Então, a partir daí, Vitória entra nesse grupo que não tinha nome, não tinha nada para começar a construir junto com os outros lugares do país, com outros blocos, começamos a construir esse coletivão que hoje é a CRUA. Assim, o pessoal de Vitória construiu de diversas formas. Construímos a música, construímos as imagens que compuseram o vídeo manifesto, participamos de equipe de redação, de comunicação. Foi como Vitória participou.

Israel: Eu sou Israel, sou de João Pessoa, Paraíba. Também sou híbrido assim, sou uma pessoa da saúde, sou enfermeiro sanitarista. E aí em Porto Alegre, há quatro anos atrás comecei a aprender a tocar trompete e de repente eu tava tocando em cinco blocos.  Entrei nessa pegada de tanto tocar quanto produzir também, ajudei a fundar um bloco chamado Nau da Liberdade, que é um bloco ligado à questão da luta antimanicomial lá em Porto Alegre. E aí, passei quatro anos nisso até que chegou a pandemia e eu vim embora para casa. Aqui em João Pessoa tô tentando me aproximar dos movimentos que existem por aqui e mantive essa militância nacional no Carnaval de Rua em Ação que comecei desde o ano passado.

Alessa: Eu sou Alessa, sou aqui de São Paulo e faço parte do bloco Ritalina que é um bloco de homenagem a Rita Lee. Aqui no carnaval de São Paulo eu construo dois coletivos: um Fórum de blocos de São Paulo e outros que é a Comissão Feminina do Carnaval de Rua daqui. Entrei para Carnavais de Rua em Ação, CRUA entre o final do ano passado e começo desse ano para construir Fórum Nacional de Carnavais de Rua e também construo a TV que é uma rede de transmissão dos blocos de carnaval e dos atos Fora Bolsonaro.

SOM: O que motivou vocês a criarem o coletivo?

Bárbara: Era um movimento #forabolsonaro na época, um movimento “Fora Bolsonaro” meio geral. Já tinha pandemia, era no início dela, mas já tava bem estabilizada. E aí, as coisas que o Bolsonaro falava, tinha o negacionismo, gerou o todo mundo antifascista, anti-bolsonaro e aí juntamos os carnavais de rua antifacista. A gente resolveu se reunir numa reunião de zoom também para conversar sobre isso, né, entender o que dava para fazer. Eu acho que eu comecei a participar da segunda reunião. Rolou uma primeira, eu lembro de quem puxou isso, por isso que eu falei da Lira, porque quem puxou isso foi a Lira e sua galera lá de São Paulo que já tem essa pegada com arrastão dos blocos. E ela era uma peça importante nesse início, foi uma pessoa muito importante nesse início dos Carnavais de Rua em Ação. A gente se juntou para dizer que alguns blocos eram contra Bolsonaro nesse movimento Fora Bolsonaro logo no início da pandemia com tudo que ele tava  falando de m**** que ele sempre fala.

Israel: Pegou muito isso assim, os blocos feministas se conversaram entre si, os blocos fanfarristas se conversaram entre si e foi todo mundo se reunindo, fazendo esse vídeo manifesto que acabou sendo uma construção muito rica, muito horizontal. Todo mundo botou a mão, acho que mais de 50 pessoas. Tudo, tudo, tudo: o texto, roteiro, a gravação das imagens, a captação e edição, a publicação. E aí ao longo do ano a gente fez algumas coisas mais, a gente se reuniu bastante para fazer uma carta de princípios e quando chegou o momento que a gente queria se entender enquanto grupo, no segundo semestre, a gente fez algumas mesas de debates. Na hora a gente conversava sobre os temas saúde, pandemia, sobre pandemia e carnaval; E aí, quando passou o carnaval, quando passou o não carnaval, a gente começou a se mexer para tirar da gaveta das ideias essa ideia que era muito antiga de fazer um evento. Aí desde março, abril a gente começou a fazer algumas reuniões com o grupão e umas chamadinhas “gente, alguém quer participar do grupo de eventos?”. E aí foi que eu era mais espectador entrei no grupo de trabalho e agora em agosto, estamos com o evento bem bonito para acontecer.

Alessa: Eu entrei depois do Manifesto, né. Eu fiquei sabendo do Manifesto, chegou em mim e eu pensei: “Meu Deus, está acontecendo! Preciso saber o que é!”. E aí lembro de ir numa reunião, começou a se falar sobre a vontade de fazer uma espécie de fórum com discussões nacionais e aí eu entrei e a gente começou a construir o Fórum Nacional.

Bárbara:  Gostaria de complementar que depois de um tempo a gente começa a fazer reuniões, eu acho que quinzenais. Começou algo como semanal, porque a gente queria postar logo esse vídeo manifesto, uma coisa assim “vamos fazer reunião semanal, todo sábado às 16:20”, se eu não me engano. Aí não sei se virou quinzenal depois disso, né, porque tava muito pesado. Muitas discussões. Tava na etapa de construção de um mega coletivo, então estavam todas as questões que a gente não dava conta de abraçar. Assim, houve um movimento, depois o vídeo manifesto e ao mesmo tempo sempre chegou muita gente nova. Talvez a Ale tenha chegado, por aí.

O que esperar da primeira edição do Fórum Nacional de Carnavais de Rua?

Alessa: Assim, a primeira coisa é, a priori, como é que a gente pensa o carnaval de rua em âmbito nacional? Ele é sempre muito pensado dentro do município, dentro da cidade, os problemas da cidade. São Paulo tem problemas, BH, Salvador, os interiores também. Então, ele sempre acaba ficando muito dentro da municipalidade e a gente às vezes até esquece que o carnaval é uma data nacional, que faz parte do calendário nacional. E eu acho que o fato da pandemia ter acontecido e isso também ser um problema nacional, fez com que o carnaval tivesse que voltar a olhar para essa esfera novamente. Então, foi um jeito de você pegar essa essa inovação, essa leva que veio do carnaval de rua e transformar as cidades como São Paulo, Belo Horizonte, o que vem fazendo um caldo cultural, agora isso se volta de novo para o país. De como é que a gente consegue dentro da diversidade de carnavais que a gente tem, que são muitas, e como a gente consegue se fortalecer dentro disso e se perguntar: “Será que existe mesmo nessa riqueza toda cultural, alguma coisa em comum nesses carnavais de rua?”. Por isso que é sempre no plural, carnavais de rua.

Não existe um carnaval de rua só, existem vários e feitos por diversos atores e atrizes.

Então, o que é incomum, o que não é, como a gente se fortalece dentro dessa diversidade e também nesse momento de pandemia que é essa pausa desse ano de não-carnaval desse respiro para conseguir pensar: Qual é o carnaval que a gente quer ter? Será que dá para, depois de tudo isso que a gente passou, de todo luto que a gente ainda tá passando, fazer o mesmo carnaval? Qual o carnaval que vai estar esperando a gente?

Então, são essas provocações que formam o que a gente quer levantar. E aí, a gente começou a construir com atores de diversos locais e também de gerações diferentes. Então, tem o pessoal mais novinho que veio nessa leva um pouco pós anos 2010, mas tem também a gente dos anos 1980, tem também a blocos centenários. Então é uma espécie de primeiro. O carnaval é gigantesco. Então, como é que a gente consegue levantar a bola e propor um espaço que a gente quer que seja recorrente mas que também precisa marcar uma discussão que é específica desse ano? Foram esses os desafios.

Israel: E o que se espera? Olha, é um evento bastante potente que está reunindo pessoas. Tanto pessoas de peso de reconhecimento, quanto pessoas de peso em seu território. Então a gente teve o desafio de também reunir uma gama infinita de possibilidades de debates que podiam acontecer. e de muitas camadas, de relacionar questões de diversos territórios do país. De conciliar questões muito importantes para a gente também que envolve relações de raça, gênero, classe, LGBTQIA+ e por aí vai, entre as pessoas que vão falar. E aí a gente pensou num modo inicial de trazer uma lida com a cultura que veio da Cultura Viva, de quando o Gilberto Gil era Ministro da Cultura que entendia a cultura em três dimensões: cidadã, econômica e simbólica. A questão do carnaval como um espaço LGBT, de protagonismo feminino e o carnaval também se consagrando como um território negro. Então, o rascunho rápido do evento passa por essas três dimensões e temos mesas bastante interessantes. Vai ter uma mesa de abertura que vai trazer essas questões que a Alessa trouxe. Vai estar Russo Passapusso, vai ter Mãe Beth de Oxum e a Goli Guerreiro. São três pessoas muito importantes para esse momento de abertura. Vai ter uma discussão sobre cenário e perspectivas da saúde na pandemia, com Roberto Medronho, Paulo Aguiar e Carlos Fidelis, que são sanitaristas e carnavalescos. No dia 13, na sexta-feira, vai ter o debate de economia que a Alessa tem na ponta da língua.

Alessa: No segundo dia que é o eixo econômico a gente tem duas mesas: uma que passa por essa coisa da economia, o que veio a ser a  economia criativa e todas as suas problematizações, sustentabilidade dos blocos do entorno e das comunidades. O fórum também tá servindo para fazer isso né, trazer pessoas pesos-pesados da política cultural, por exemplo como a Cláudia Leitão que é uma pesquisadora, pensadora da política cultural que já foi secretária de Economia Criativa. E também gente gente que já foi gestor de administração pública como o Guilherme Varela, trazer pessoas que estão dentro de blocos como João Jorge do Olodum e colocar todos esses conhecimentos para um pouco se debruçar sobre o tema do carnaval de rua. Essa primeira mesa é da economia e depois a gente tem umas de Direitos Culturais também, que é o carnaval com o direito sobre o carnaval. É onde estaria o carnaval nessa perspectiva das políticas culturais e como é que o carnaval incide no direito a cidade, na liberdade de expressão e nos demais direitos. E se existe uma agenda de transformação do carnaval de rua em Patrimônio Imaterial e como que a gente pode seguir nessas defesas.

Israel: No sábado vai ser o dia da dimensão simbólica. Vai ser a tarde, um espaço sobre centenários. A gente teve a ideia de só chamar blocos com mais de 100 anos para falar sobre a sua história, sua trajetória de longo tempo, como é que foram tão resilientes a resistir por tanto tempo. Vai juntar o Cariri Olindense, o Cordão da Bola Preta do Rio de Janeiro e o Zé Pereira dos Lacaios de Minas Gerais. Mesclado um pouco com a discussão do tempo também, né?! Não é de agora. Carnaval não tá forte de 2015 para cá porque São Paulo resolveu colocar 2 milhões de pessoas da rua. Carnaval se faz com multidões desde… Tem Maracatu com mais de 150 anos. E aí a gente queria trazer um pouquinho esse dia uma discussão sobre a dimensão afroreligiosa dos carnavais. E aí, a gente vai chamar o Vovô do Ilê Aiyê, vai chamar o Fabiano do Afoxé Alafin Oyó de Olinda e vai chamar Alberto Pitta do Cortejo Afro de Salvador. E vai ser um dia bem legal também que vai acabar de noite, tendo uma festa no ShotGun que vai ter a possibilidade de afastar os cantos da mesa, pintar o rosto, tomar uns drinques e rebolar a raba na sala no final deste sábado.

 

Carnavais de Rua

Foto: Mídia NINJA Vovô do Ilê – Bloco Ilê Aiye

Alessa: O domingo é o dia do Eixo das Lutas. Então a gente começa com uma mesa dos blocos LGBTQIA+, a gente tem o Maracadonna de Olinda com Jô Oliveira, Truck do Desejo que é o bloco de Belo Horizonte, o Minhoqueens daqui de São Paulo. E aí, para falar um pouco dessa perspectiva de como é que a população LGBTQIA+ fez essa transição e tá fazendo entre espaços privados como a boate, o club, o lugar noturno para esse lugar público, no sol, na rua. Como tem sido a construção e como isso se reflete na construção de memória, de direitos. Como isso se dá como conquista também para essa população. No segundo espaço, a gente tem uma mesa que é dedicada às mulheres e o protagonismo feminino. Então, batuqueiras regentes e pessoas produtoras culturais que colocam os blocos na rua né. A gente vai trazer a Chaya Vazquez de Belo Horizonte, que é percussionista, responsável pela criação de várias batucadas e blocos lá de Belo Horizonte. A gente também traz a Karen Aguiar que é regente do Maracatu Leão Coroado, primeira mulher também na sua posição e a Aquatalux Rodrigues que tem uma pesquisa dentro do empreendedorismo feminino dentro do Olodum e também faz um pouco as interface com a gestão das coisas. Ela é gestora cultural e produtora cultural. E aí no terceiro espaço é um espaço de Carnaval como Resistência Afro-brasileira. Os blocos convidados são o Afro Kizomba de Vitória com o Winny Rocha, a Baby Amorim do Ilú Obá de Min que é um bloco afro aqui de São Paulo e o Maracatu Arrasta Ilha de Florianópolis com a Xanda Alencar e o Charles Raimundo.

Bárbara: Na mesa, a gente traz um pouco mais da história do Afro Kizomba e também um pouco do contexto histórico do carnaval de Vitória antes do nascimento deles. Porque a gente fala de como eram os carnavais nos territórios daqui, capixabas. Eles eram distribuídos por bairros. Então tinha uns blocos de bairros que eram compostos também por muitos ritmistas de escolas de samba. Aqui em Vitória tem escola de samba também, não sei se vocês sabem. E aí, esses blocos de bairros são abafados pela ausência de política para carnaval, é um período que não temos nenhum incentivo. Esses blocos acabaram restando só os do Centro de Vitória, como sobrevivência mesmo. A partir do Centro de Vitória que os carnavais também mantém essa resistência, mas são com perfis de pessoas brancas. E aí, há essa necessidade, essa percepção né, enfim, esse pulso também de sobrevivência e de manifestação a partir da resistência afro. Aí, a gente pretende apresentar também os próximos passos do bloco, que a gente também fala de território, onde a gente quer expandir mais, sair dessa bolha que é o centro de Vitória. Ampliar esse movimento que é o Afro Kizomba, um bloco mas é um movimento, para outros espaços. A gente fala da Grande Vitória, a gente consegue conversar muito com os outros municípios, como Vila Velha, Serra e Cariacica. Até então, a gente pensa em como alcançar esses outros territórios próximos, alcançar mais pessoas.

Escrito por

Acredito no poder de transformação social da música e busco conhecê-la desde o seu contexto, nas narrativas periféricas de produção em cultura e na história que não é única. Comunicadora e criativa, garimpo vinil vez em quando.

Comente!

Comente

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

LEIA MAIS

REFLETINDO O LUGAR DA MASCULINIDADE NAS RELAÇÕES AFETIVAS COM AMIRI

Lançamento

40 ANOS DE SAUDADE DE ELIS REGINA

Coluna

Tofallini apresenta “Passa e Fica” com produção do Deep Leaks

Lançamento

VERÃO DE CULTURA E RESISTÊNCIA

Coluna

S.O.M. — Sistema Operacional da Música — Desenvolvido por Mídia NINJA, Fora do Eixo e Hacker Space.

Connect