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Entrevista

FAVELA SOUNDS REÚNE NOMES DA CULTURA E ATIVISMO

Com shows e atividades de formação evento começa nesta quarta feira

Favela Sounds
Foto: Rômulo Juracy

Entre os dias 18 e 22 de agosto acontece a quinta edição do Favela Sounds – Festival Internacional de Cultura de Periferia, do DF tendo para além de muita música um teor educacional importantíssimo para as periferias.

Para esta edição online o festival conta com um line up de peso Amaro, Markão Aborígene, Ellen Oléria, Enme, GOG, Jup do Bairro com Mulambo, MC Mari, Murica, Tássia Reis, TrapFunk&Alívio, Tuyo, Schevchenko e Elloco, Vandal e Vinícius de Oliveira. Tudo pode ser visto pela própria plataforma do evento no site.

O evento traz também atividades gratuitas como oficinas, debates, entrevistas, conversas, e sessões de mentoria sobre a égide “A vez do amor”, junto da campanha “Corrente do bem” para arrecadação de recursos destinados às favelas brasileiras. O objetivo é combater a pandemia e a fome que atualmente assola 60% dos lares do país.

A plataforma do Favela Sounds ainda conta com um mapa do Brasil homenageando as comunidades espalhadas pelo país, sendo 10 favelas de 5 regiões diferentes.

O S.O.M conversou com Guilherme Tavares, um dos organizadores do festival ao lado de Amanda Bittar, passando pela história Favela Sounds, política, religião, enfim, confere aqui embaixo.

Favela Sounds: A trajetória

S.O.M: Você lembra quando nasceu o festival?

Guilherme Tavares: Lembro sim, foi com Mr Catra, olha a doideira, senta que lá vem história (risos). O festival surgiu como projeto dentro de uma disciplina de universidade, da Faculdade de Comunicação aqui na UnB. Mas antes a vontade vem de baile mesmo, eu moro no Guará que é uma região que fica aqui uns 15, 20 km mais ou menos da região central, do plano piloto, e com pessoas daqui mais especificamente com Amanda Bittar minha sócia, e Denis Novaes que pulou pro lado da antropologia e enfim, um grande aliado que pesquisa academicamente os assuntos que a gente tem trabalhado na prática. E a gente começou a frequentar bailes funk, essa era a pesquisa dele, bailes de Brasília… A cultura do rap aqui na cidade também que é cabulosíssima, que vem desde os anos 1980.

Começamos a viajar na medida do possível pra conhecer bailes e estilos originários de periferias.

Acho que a epifania vem em Belém, nos bailes de tecnobrega, as festas de aparelhagem, mas muito fortemente pelo funk.

A gente até conheceu a galera da Agência de Notícias das Favelas. Acho que foi no Jacarezinho, em uma feijoada, surgiu essa ideia: Por que que a gente não junta esses estilos de música? A gente vê assim, que são muito regionais, por que a gente não leva isso pra capital do país? Pra mostrar isso a nível de conexão, de ponte mesmo. E assim surgiu o projeto e ele se fortaleceu, e foi assim ‘com certeza vamos fazer’ quando acompanhamos uma tour do Catra, tinha noite que ele fazia 8 shows, essa noite em Brasília foram 4, a gente começava no centro da cidade e ia pras quebradas.

Era umas viagens assim pelas classes sociais da cidade mesmo, e aí a gente ia gostando mais do show, o show ia ficando mais legal e mais aventura também, enfim Catra foi esse entrevistado que botou muita fé, porque ninguém faz isso né?! De juntar a gente com a galera do Rap e ele era disso, MC do rap originalmente. Então vinha muito das suas vontades, mais para o fim da vida ele gravou samba. Foi meio que ele, André Fernandes e uma turma, como a Jaqueline Fernandes por exemplo, do Latinidades, a Marta Carvalho que na época fazia o Satélite 061, essa é uma turma que estimulou muito eu e Amanda a construir o Favela Sounds, e a solidificar ele. Essas ideias vieram de 2012 mais ou menos, mas foi em 2016 que a gente conseguiu fazer a primeira edição com a Oi e fundos locais, e desde então a gente tem essa parceria com a Oi que só vem crescendo e é isso que a gente tenta fazer, programar estilos musicais diversos Originalmente muito focado em música mas hoje eu posso contar depois nossos planos inclusive de abertura, outras linguagens né, mas acho que foi mais ou menos essa a jornada do Favela Sounds.

S.O.M: Vocês sempre souberam fazer um festival?

Sim e não, porque meu primeiro trampo na área da cultura foi em festival, porque eu me apaixonei, foi um festival de Teatro, o Cena Contemporânea, inclusive foi na época que eu conheci o pessoal da Mídia Ninja, na época Fora do Eixo né?! E eu tava muito impressionado porque era aquela transição para o digital e eu trabalhando com comunicação porque eu sou formado em comunicação. E aí eu via 50 pessoas, a Dríade, Carol Tokuyo, o Carioca, mais de 50 pessoas, cada um com duas câmeras, três notebook e aí ali tava subindo também o movimento Mídia NINJA onde se fez muito relevante politicamente. Eu ficava ‘Cara, isso é uma verdadeira revolução’, tantas fez que hoje é a Mídia NINJA. Eu fazia o Cena Contemporânea, e essa dimensão de festival Internacional eu tive lá, meu professor era o Guilherme Reis, era demais, e a base disso é: O que é um festival internacional? O que um festival pode agregar para uma comunidade? Pra uma cidade? O que são atividades formativas? Projetos continuados? Projetos de um ano só? Peguei fazendo comunicação lá e aí num determinado momento o diretor do festival virou Secretário de Cultura aqui da cidade, e eu assumi a programação musical, foi meio que o presente dele para mim porque apesar de ser do teatro, ele trabalhava com música, e claramente era o que eu mais gostava, tava lá na hora que abria, na hora que fechava.

E isso foi um grande pontapé, o Cena Contemporânea…. E na verdade o Favela Sounds é um recorte dessa dimensão né?! E aí a gente já lançou ele com esses braços, o braço de oficinas, o braço de debates e atividades formativas, que primeiro era no museu, depois foi pra escolas públicas, as oficinas que começaram em ambientes criativos independentes, das quebradas daqui. Aí depois a gente entrou com atividades no sistema socioeducativo para menores em privação de liberdade, e aí a gente descobriu que também era o melhor público pra trabalhar porque é uma galera que tá a fim de se reintegrar a sociedade, que vivencia o rap dentro dos contextos de privação de liberdade, e saí de lá querendo, almejando essas profissões. Então uma coisa que acontece é a gente formar essa cadeia técnica e trazer essa turma para trabalhar com a gente como estagiários primeiramente, e depois formando equipe técnica pra música, pra comunidade como um todo, e ressocializando pessoas pela música, já que a música salva e salva muito como a gente sabe.

Favela Sounds

Foto: Jacqueline Lisboa

Mas aí esses formatos foram mudando mas sempre uma coisa a gente manteve que era essa parte final de shows ser gratuita e acontecer na Esplanada dos Ministérios, que uma das poucas vezes que as demandas, as urgências da juventude periférica podem ser postas nesse território, não só de periferia. A gente fala muito da juventude que a gente tá trabalhando, basicamente é com a Geração Z, nosso público tem uma média de 23 à 25 anos de idade. E essa coisa do território que chamou muita atenção, porque a galera colou e colou em peso, a primeira edição teve 15 mil pessoas, hoje cada edição leva 30 mil pessoas das quebradas da cidade inteira.

A gente tem uma questão territorial muito doida, que uma quebrada pode estar a 90 Km da outra, esse é o distrito federal e ele foi feito propositalmente assim, pra espantar as pessoas mais pobres da cidade, criando cidades dormitórios, trazendo essas pessoas exclusivamente para trabalhar e excluindo elas de qualquer opção de entretenimento.

Porque a mobilidade urbana é péssima no período noturno. E por isso a gente contrata ônibus a todas as edições que saem de 10 RAs, dessas mais distantes trazendo o público indo e voltando, esse ônibus é muito divertido, imagina uma galera… Na verdade conheci gente conversando assim na arena mesmo que nunca tinha vindo ao plano piloto, região central, que não conhecia a Esplanada dos Ministérios é o que a gente conhece como turismo civíco. Eu acho importante mesmo o Brasil estando no momento que está com as pessoas que está, eu acho que no fim é isso que a gente tem que valorizar. E poxa se a própria juventude dessa cidade, desse território não conhece por onde passa o regramento do país fica complicado, então esse primeiro acesso é muito importante através do Favela Sounds também, e de outros Festivais que democratizaram muito esses espaços públicos.

Shows e atividades de formação

S.O.M: Como vocês chegam nos temas de cada edição e das atividades formativas?

Cada ano tem um tema, a música nunca sai do epicentro da conversa, mas a gente vai incorporando outras atividades, e vai mudando com base nas experiências. Hoje por exemplo a gente tem um olhar para o digital completamente diferente de 2 anos atrás do que a gente vem tentando vender mesmo, como marca, de se tornar uma plataforma, ser conhecido como uma plataforma de conteúdos independentemente da mídia em que a gente tá trabalhando. Porque a gente entende que esse recorte setorial que a gente escolheu é ao mesmo tempo um dos que mais bomba no país, você abre o charts tá lá o rap, o trap e principalmente o funk.

A gente percebe que os verdadeiros criadores desses estilos, como o funk, o rap, o samba, foram expropriados.

Então assim, a Deize Tigrona nunca teve o reconhecimento que ela merecia… Eu acho que ela nem gostaria de ouvir isso mas a ancestralidade, a primeira mulher do funk, porque é uma compositora superativa que tá ligada nas causas do presente, que mais do que outras cantoras tá correndo, no que a gente chamaria nos anos 1980, 1990 de Marginalia, que tá colando junto, que tá fazendo. A gente era muito ingênuo né na democratização da internet, é o que eu chamo de Belle Époque, de achar ‘pô é isso o soundcloud vai mudar a vida do artista independente’, mas na verdade as gravadoras tão fortes, elas tem outros nomes agora, elas tem outras formas de estar… É dinheiro gente, então a gente tem que captar pra entregar um palco muito massa, pra trazer um vídeo muito massa que possa ajudar esses artistas a se projetar.

E também cada vez mais tentando se aproximar de pequenos negócios criativos de periferia, que estejam envoltos nessa linguagem criativa nossa, que não estejam só ligados na música, mas que a gente possa trazer alguns insights desde uma capacitação por exemplo, para que a pessoa possa responder mais competitivamente ao mercado, sabe? E tentar traçar sua própria rota independente, sabendo que é duro, desde o início. Então nossa formação passa por esses meandros e agora no digital a gente tá descendo um pouco mais esse tom, entendendo outras urgências, por exemplo…

A gente vê muitos dados de desemprego, esse desemprego recorde de mais de 15% aí você desce pra esses dados, para juventude periférica você vê que a grande maioria quer voltar a estudar… Sonhos, sonhos e utopias da juventude e uma outra grande maioria quer arrumar um emprego, obviamente.

Então nossas atividades estão se concentrando mais, pensando na Geração Z, como atuar melhor, pensando digitalmente também, como participar de uma entrevista de emprego de uma forma mais propositiva, como trazer o seu currículo de uma maneira legal, tendo uma formação para lideranças comunitárias sobre combate a Fake News.

A gente acha que a gente pode ser mais propositivo, a gente pode usar música para chegar nesses outros assuntos sabe.

Então nessa edição virtual que a gente tá trazendo, shows claro, mas também oficinas com 1 hora de duração, nesses temas que eu tô fazendo e vários outros. Muitos talks, que tem um cunho muito de inspiração mesmo para galera… Cara tem uma questão com a geração z que é de não pertencimento eu acho que nem, não sei se você foi punk, mas acho que nem os punks tinham essa sensação de não se encontrar no mundo. Agora eu acho que a gente pode contribuir muito, principalmente para a juventude periférica mostrando o que são os empregos do futuro, mostrando que também há lugares interessantes de atuar.

Ah, e claro a energia do trabalho criativo eu acho que pode ser uma das coisas mais interessantes para esta geração. Então é nessa língua formativa que agente atua. E esse ano a gente está lançando também uma jornada e aceleração de negócios criativos junto com Sebrae e Oi Futuro pra capacitar, uma formação curta, que vai ser uma semana depois do Favela Sounds, entre 23 a 28 de agosto, e eles vão ter uma semana de aceleração e temas como formalização, comunicação, coisas assim e termina numa banca de ideias com convidados de todo o Brasil e do mundo pra dar pitaco nos negócios deles tipo: Você pode melhorar nisso aqui. Você já viu tal coisa, enfim cada vez mais a gente quer ser transversal e trazer mais linguagens pra perto.

O audiovisual sobre a nova ótica de se fazer festivais

S.O.M: Vocês conseguem traçar um paralelo de como era fazer um festival antes e durante a pandemia?

Agora eu acho que a gente é profissional do audiovisual. (risos) Eu demorei para entender isso, mas eu percebi assim, o Favela Sounds tem sua primeira edição online agora, mas eu estive em várias outras, outros projetos do ano passado. A ficha caiu lá para agosto mais ou menos, cara, a gente tá fazendo cinema, tá fazendo série… Rotina de gravação, roteiro, cuidado com os figurinos, coisas que a gente nunca pensou. Então eu tô aprendendo como nunca, seguramente eu tô entendendo que fazer festival agora é outra coisa que tá muito ligada ao audiovisual e tentando tirar proveito desse digital que é nada amistoso e perverso. Que quanto mais você paga mais você aparece.

Mas estamos tentando tirar disso elos mais fortes para o festival a nível nacional e internacional, entendendo que a gente também consegue uma linha para dialogar com outras comunidades, com outros públicos né. Esses aspectos de internacionalização a gente investiu desde o início, graças a programas aqui do DF também. A gente tinha um programa aqui de intercâmbio de circulação, que é fantástico, porque ele ainda existe, ele tá agora adormecendo no digital, mas financiando só coisas no digital, esse programa que é o Conexão Cultura do governo local já nos levou a plataformas, ambientes de mercado assim, dos maiores do mundo.

A gente notou desde o início interesse nesse formato de fazer a parada, então a gente é chamado pra falar sobre a experiência Favela Sounds em alguns lugares e mais recentemente a gente pode aprender, que o que a gente fazia antes como porta-voz, meio RP, indo pra gringa pra difundir esses artistas, agora há um interesse concreto vê-los, então por exemplo, ano passado a gente fez um pocket pro Oslo World, que é a maior plataforma de negócios da Noruega. Aí foi um vídeo, um filmete assim, 50 minutos, oito artistas de periferias distintas que gravaram do jeito que dava, com baixo recurso, mas que gravaram seus vídeos, eram espécies de entrevistas, uma narradora em inglês e isso foi exibido encerrando o Oslo World. Então assim, já saímos de lá com convite de levar alguns artistas pra tocar. Acho que isso antes da pandemia isso era muito difícil, tinha que vir um cara do Oslo World aqui, e não no Favela, talvez lá na SIM São Paulo, em algum outro ambiente de mercado, que ia conhecer alguns poucos produtores do país.

A gente conseguiu criar um Manifesto Global, eles chamaram gente do mundo inteiro para criar um Manifesto utópico para festivais que reunisse o mundo com avatar, uma gamificação cabulosa. Assim claro que a barreira é o acesso e nosso maior desafio para essa edição digital é esse: Como tornar o conteúdo leve, o conteúdo de vídeo de qualidade leve ao ponto de rodar legal com internet limitada, com pacote de dados limitados? Mas a gente tem muitos ganhos, inegáveis.

S.O.M: Como vocês chegaram ao line desse ano?

Só quem viveu sabe o que são cinco anos na vida de um Festival né não, Paulo? (Risos). É uma m**** você começa do zero todos os anos, então esse aspecto sustentabilidade precisa ser muito discutido pro ambiente criativo de forma geral, a gente tenta. Mas a gente queria comemorar esses cinco anos de alguma forma. Pessoas, gente da mídia, sempre reconheceram o Favela Sounds como um lançador de tendências.

Eu considero que a cultura de periferia é uma grande lançadora de tendências no país, se não fosse assim o samba, o funk e o rap não estavam onde estão, nem Mano Brown era Mano Brown. Então o Favela é apenas um interlocutor dessas tendências do país e com representantes da diáspora mundo afora.

Essa dimensão a gente sempre tenta trazer, Angola, Moçambique, galera que reside em Lisboa, em Berlim, galera da América Central… Claro que essas pessoas têm apoios para circular né?! Elas estão nesses países e tem essas vantagens, é muito caro trazer gente para tocar. E aí a gente decidiu traçar um panorama que fosse o mais perto possível em termos de gêneros e estilos musicais que tivesse uma paridade de gênero que isso a gente faz desde 2016, programar mais mulheres do que homens. E que ao mesmo tempo desse pra trazer algumas pessoas que já estiveram conosco e que chegaram em outros lugares. Porque por exemplo, o Favela Sounds foi, se eu não me engano, o primeiro festival fora do Estado da Bahia que o ÀTTOOXXÁ tocou lá em 2016, foi a primeira vez que o BaianaSystem, 2016 também, aqui a primeira vez que Baiana veio trazer aquele disco da retomada grandiosa deles pro DF. Naquele mesmo ano Rincon Sapiência ainda não tinha lançado esse disco que devolveu ele para o mercado de uma forma cabulosa. Então isso tudo é só uma observação das coisas que estão acontecendo ou por acontecer, mas acabam ajustando tendências mesmo. A formação desse line é muito baseado na diversidade de estilos musicais.

São 15 artistas, a gente gravou em estúdios em Salvador, em São Paulo, e no DF. E também dois conteúdos foram gravados fora de estúdio, um no Maranhão e o outro em Pernambuco. Em Pernambuco inclusive em cima do Alto do Miramar, numa cobertura, no meio da quebrada, é um show do Schevchenko & Elloco.

Qual é a ideia dessa plataforma? Criar conteúdos sobre a cultura periférica ao longo do ano inteiro. A gente tá na pegada com audiovisual com um certo tempo já, produzindo uma série sobre a cultura periférica e os estilos genuínos de cultura periférica, que percorrem país. É um projeto grande que eu espero muito poder lançar em 2022. Mas que a gente vem trabalhando num time muito forte há algum tempo, então essa ponte com o audiovisual tem a direção da Viviane Ferreira que hoje tá na SP Cine. E essa ponte com o audiovisual tem crescido muito e a gente quer investir muito nisso, então a gente tá usando essa edição meio que pra lançar essa série de conteúdos propositivos que não não pretende se acabar, sabe?! Ao longo do ano passado a gente foi experimentando isso. E aí nós criamos uma campanha chamada “Favela Cuida” para o Setembro Amarelo, um mês de conteúdo sobre cuidado com a saúde mental, desmistificação da terapia e indicações de lugares que conseguem terapias gratuitas, ou de baixo custo para pessoas de quebradas e falando sobre síndromes e enfim, foi uma campanha muito bonita que a gente quer levar para outro contextos esse ano ainda, não sei se vai ser possível.

Trabalhamos também numa chamada “Cores Vivas” que evidenciou alguns talentos da diversidade nas periferias do país e a gente entende que esse lugar de campanha tá muito próximo do que a gente quer fazer com o festival sabe?!

Eu percebi, roteirizando esse festival desse ano, que na verdade eu tô fazendo o que eu sempre quis fazer com o Favela Sounds, que é dar o máximo de informação possível pra comprovar, não que a gente precisa comprovar, mas pra comprovar pra sociedade civil que aquele fulaninho que tá tocando ali não tá mangando da sua cara, não tá só falando p******, ele é genial, ele é genial na métrica, na estética, ele é criador de novas fórmulas de enxergar o mundo, ele transforma a língua portuguesa.

Porque no frigir dos ovos, a língua portuguesa é transformada na quebrada, assim como na gastronomia, na moda.

Mas é nessa pegada que a gente vai ficar. Então assim os conteúdos gente não quer…. Na verdade inicialmente a gente vai lançar ele no YouTube e a gente vai embedar eles na plataforma, criando uma jornadinha do usuário. Transportando o que seria essa visita à arena do festival aqui na Esplanada, a gente está transportando pro web site e projetando ela no mapa do Brasil e a nossa pira que nós estamos destacando ali, dez estados do país, cada estado é um palco virtual onde você pode ver no dia 18 ao dia 22 ou você pode ver ao longo do ano inteiro a hora que você quiser entrar naquele palco e conhecer alguma favela daquele estado. Essa é a viagem na navegação da plataforma e a gente quer a longo prazo mapear a música de favela brasileira, nossa ideia é criar um repositório ali, nessa mesma plataforma que vocês vão ver, criar um repositório de talentos mesmo para que não haja mais desculpas nem pra publicidade, nem para programador de festival, nem para Rede Globo, pra ninguém. Temos talentos inegáveis ali que você pode usar uma faixa dele para realizar um filme por exemplo. Esse é o nosso objetivo ao longo prazo para plataforma mas no curto prazo é realmente uma jornada do usuário que torne um festival virtual mais interessante, depois de um ano e meio de pandemia mais ou menos, algum diferencial tem que ter.

Favela Sounds

Favela Sounds traz amor para combater o ódio

S.O.M: Por que é a vez do amor?

Cara é tão doido essa história também. A gente vem de um processo muito duro aqui no DF, de desmonte originalmente, é um desmonte que graças a deusas foi controlado e é controlável. E fevereiro do ano passado a gente foi surpreendido, a gente tava fazendo uma festa depois carnaval com um cara que era tipo O Hit do carnaval 2020 e na manhã do evento a gente foi surpreendido com uma prisão aqui no Lago Norte, bairro de classe alta da cidade, de um jovem, que não é terrorista né quando o cara é rico ele é jovem, o jovem tava planejando um atentado à bomba no Festival. Era talvez o final de semana mais bombado da cidade, tinha evento pra todo lado, que era pós carnaval e ele tava mirando um evento que reúne pessoas pretas, LGBTs e periféricas em sua maioria. Quem descobriu isso foi a Polícia Civil, e prenderam o cara, foi uma sorte mesmo porque poderia ter acontecido sabe?! Isso tudo gerou traumas muito grande em todos nós aqui da equipe, porque pô você tá querendo correr pelo certo, você tá querendo fazer bonito.

E aí a gente percebeu na pele e não no texto, o que era essa perseguição que está sendo posta no Brasil, até onde a desinformação tá levando a gente.

Eu vim pra rede, pra nossa rede mais interna, pra gente discutir coletivamente. Porque se acontece hoje com o Favela Sounds amanhã pode acontecer com qualquer outro festival no fim tá todo mundo aqui pela diversidade, tá todo mundo aqui pelas mesmas questões né?! E pessoas muito sábias, graças aos orixás eu tenho aconselhamento de gente muito sabia, eu tenho aconselhamento de gente muito tranquila, que me fez não reagir momentaneamente, um time que me deu energia pra mim, pra Amanda, pra todos os envolvidos, para construir essa edição então ela é meio que uma resposta ao discurso de ódio cada vez mais crescentes.

É a vez do amor porque não pode ser a vez do ódio, é a vez do amor também porque é um samba muito bonito aqui da cidade que traduz um pouco esse nosso sentimento. Mas por trás aqui de bell hooks, que é a nossa grande referência para edição, a gente foi estudar amor e é lindo estudar amor. E no início eu achava que era muito piegas, mas no fim das contas é o que a gente tá precisando no momento, combater ódio com discurso de amor. Então o que tem por trás dessa edição, por trás de cada artista, de cada talk, de cada estímulo aos jovens que vão participar é uma pergunta que aparece, que pode ser difícil, mas acho que o objetivo é bater no coração de todo mundo assim: Como a gente refunda nossa sociedade? Como a gente recria nossos laços e passa olhar para o outro a partir de uma ética do amor? Não a ética da ganância… É tênue a linha entre o que é piegas e o que é construtivo. Mas a gente quer ser construtivo, um amor da construção, amor do coletivo, que vai levar a gente lá, adiante. Porque o agora, o que está posto não é suficiente, não atende a todos.

Políticas Públicas na Cultura

S.O.M: No que tange as discussões sobre cultura, políticas públicas, esses ataques, hoje a rede social por um lado democratiza mas oferece também possibilidades pra imbecialização de temas importantes, como no caso da cultura. E quando a imbecialização vem de pessoas em cargos de alto escalão, isso se torna ainda mais preocupante. As declarações do Frias, aquele outro que tem nome de furúnculo…

Que disse que a musica tem que servir a Deus. (risos)

S.O.M: Então por tudo o que o Festival representa: atividades formativas, residências artísticas, oportunidades pra galera das periferias. Ele seria possível sem políticas públicas? Existiria o Favela Sounds?

Jamais, jamais! Uma grande empresa de mídia que tá hoje nesse lugar, sempre esteve nesse lugar que a gente busca hoje enquanto plataforma, uma certa vez tentou lançar um festival de cultura periférica de modo absolutamente independente… Tinha ingresso até de R$800, o valor era alto claro, o valor de fazer festival é alto. Eu não sei como foi, claro que eu nem fui, porque eu não ganhei ingresso e esse valor não consegui acessar mas… Não, não dá pra fazer não gente. Política pública para cultura é fundamental para todos nós.

Quando começou essa pandemia eu só pensava na galera da técnica, artesãos, do teatro, de onde eu comungo muitos anos da minha trajetória, da dança, a galera que já tinha dificuldade de acessar palcos porque primeiro, não é exclusividade da música que não há palcos pra se tocar no Brasil. E essa galera teve que se adaptar ao digital, existe teatro no digital? O desenvolvimento criativo de um país passa por parte política, a menos que a gente fosse anarquista por total e aí sei lá, não tem política pública para nada, ou até assim teria algumas políticas públicas para certas coisas. Mas não existe, isso que a gente está vivendo é de distopia. Foi uma moça na CPI, Luana Araújo, uma médica que era pleiteada e que rapidamente foi tirada, ela foi uma luz na CPI, e ela tava falando: Vocês tão discutindo de que borda da terra plana vocês tão querendo pular.

Porque assim, há fatos. Por que a gente não parte dos fatos? Eu converso com gestores públicos que vem dessa nova geração com muita tranquilidade, porque é preciso, a gente não pode chegar esquentando, não é o caso do furúnculo (risos), mas pessoas que não tem nada a ver com o que tá acontecendo e com muita delicadeza: Vamos discutir a partir da legislação, do decreto que rege esse fomento, porque é fato gente, é lei, vamos partir disso, se não tá em lei que a música tem que servir a Deus não há argumento, é básico.

As religiões nas periferias

S.O.M: E o seu line serve a Deus, o problema nem é mais o que tange ao cristianismo, aproveitando o gancho, como que tu vê, trabalhando direto com as periferias, como você vê a proliferação das igrejas dentro das periferias. Interfere muito?

É o assunto mais delicado dos contextos periféricos, porque parte de premissas muito individuais, do que é ser protestante naquele território e de como este território colabora como essas igrejas, como essas igrejas colaboram para o território e qual é a contrapartida disso. Não se debate eu acho que a nível pessoal para cada um. Mas as igrejas neo pentecostais eu vejo muito mais problema hoje na fisiologia delas, nas arquiteturas grandiosas, não só no Brasil tá?! Em Moçambique, em Angola, rolou umas expulsões aí em alguns lugares, há um tempo atrás que eu amei expulsaram todos os pastores de uma vez… O que eu que tenho medo é da ganância mesmo assim, porque eu já vi muita igreja fazendo trabalho de base que não é feito por outras instituições em comunidades.

Assim, porque no frigir dos ovos é isso o pastor do território ele pode até ser iludido, mas no fim ele vai correr pela comunidade dele. Diante de vários problemas, várias questões, então é uma luta de atores muito grandiosos aí, igreja é ancestral, é bem delicado esse assunto mas eu acho que a igreja nas comunidades hoje tem um papel muito estratégico. Eu trabalhei em duas campanhas junto a Purple, que é uma agência, esse ultimo ano inclusive a gente ficou fazendo pouca coisa de música, mais de comunicação, pela demanda, pela necessidade. E a gente fez uma campanha chamada “Narrativas periféricas sobre o jornalismo independente em comunidades”, e depois uma campanha chamada “Caixa aberta da vacina” com institutos de transparência, sobre vacinação e a gente fez muitos testes de mensagens com grupos evangélicos, instituições grandes respostas muito legais sobre vacinas, muito positivo mesmo. Inclusive gente que atua no contexto evangélico em comunidade, eu acho que o problema mesmo tá na ganância superior, quem tá na ponta sempre sofre consequências.

S.O.M: Esse é um tema abordado, ou acompanhado?

Favela Sounds aborda diversidade religiosa. Nosso tema de 2019 foi um festival que homenageou Exu, isso eu falo com toda a liberdade, quem tem um pouco de conhecimento batia o olho no cartaz e falava ‘que linda homenagem’. Mas na verdade a gente tava homenageando Exu como uma homenagem a rua, o tema era “Favela Sounds é a rua do mundo”. Enfim, Exu vinha como um personagem simbólico, brasileiro pra isso tudo que gente tava querendo falar naquela altura. Abordamos diversidade religiosa, todas as formas, acho que a gente dificilmente discutiria um contexto evangélico sabe mas por exemplo esse ano a gente tem uma das oficinas que é a gente dividiu a programação por dia a partir daquelas campanhas que eu falei que a gente criou “A vez do amor”, “Favela cuida”. Cada dia tem um direcionamento e lá no dia do “Favela cuida” a gente tá falando cuidado através de plantas, cuidado ancestral através de plantas. Então a gente tá trazendo a sabedoria ancestral para ensinar você a fazer tratamento de baixo orçamento, pra segurar sua onda nesse período que está difícil para todo mundo sabe. Mas é o que é empírico disso tudo, o que é tradição, o que é cultura dentro de todas essas matrizes religiosas, e claro que a gente tem preferência a falar por aquelas que são brasileiras, ou que ganharam uma dimensão diferenciada no Brasil. Tudo o que é delicado a gente tenta aborda sim.

 

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1 Comment

1 Comentário

  1. Paulo Zé

    17 de agosto de 2021 at 22:02

    Muito foda essa matéria, por mais destas com perfil de outros festivais o Brasil merece!

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