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Entrevista

“FAVELA VAI VENCER” É O GRITO DE LUTA DE AMILTEX COM RENAN SAMAM

Confira a entrevista com o rapper cria da zona leste de São Paulo

Favela Vai Vencer
(Foto: Johnny Germano)

“Favela Vai Vencer” marca a estreia de Amiltex em carreira solo e abre os trabalhos para o seu primeiro disco “Terceiro Mundo”.

O rapper Amiltex estreia seu mais novo single “Favela Vai Vencer”, com produção assinada pelo produtor musical, compositor e rapper Renan Samam, que além de seu trabalho solo, também é reconhecido por produções com Emicida, Rashid e Marcelo D2. A história dessa parceria começou em um sorteio no Instagram, no qual Amiltex foi um dos selecionados e conquistou sua mais nova produção.

“Favela Vai Vencer” marca o retorno de Amiltex, nome artístico de Amilton Campos, ao cenário musical. O rapper atua há mais de uma década no movimento Hip Hop como MC e foi o fundador do coletivo Hó Mon Tchain. Com o grupo, lançou 2 álbuns: “Ascensão” (2012) e “Assim Que Nóis Trabalha” (2015), e a partir desses trabalhos veio a participar do programa Showlivre, do evento Arte e Cultura na Quebrada, entre diversos outros shows realizados em prol da propagação da cultura Hip-Hop por várias quebradas de São Paulo.

A faixa se apresenta como um grito de socorro e uma esperança de dias melhores para a população negra periférica. A letra exprime, não apenas as mazelas externas vivenciadas por Amiltex em seu universo particular na favela, mas também os conflitos e aflições internas, enfrentados por aqueles que se veem às margens da sociedade (literalmente), tendo que se virar para sobreviver sem o mínimo de estrutura material e emocional.

Amiltex de punho erguido em frente a um memorial de Marielle Franco

(Foto: Johnny Germano)

 

Além da própria realidade a qual retrata, Amiltex também traz à tona influências externas que compõem “Favela Vai Vencer”: fatos como o assassinato do afro-americano George Floyd, da vereadora e socióloga Marielle Franco, assim como os vários jovens negros que foram vítimas de ações violentas praticadas pela polícia militar, dão força pro discurso e motivos para exigir uma mudança nesse cenário que parece não ter fim.

Confira abaixo a entrevista com Amiltex:

S.O.M: Fala pra gente, quem é você, Amiltex? De onde veio, o que faz pra se manter no corre, pra onde vai, o que te motiva…

Amiltex: O Amiltex é mais um simples mano da periferia, um favelado sonhador e um irmão que luta pra sobreviver nessa selva de pedra imensa chamada São Paulo, moro no fundão da zona leste. No momento, graças a Deus tô trabalhando com a carteira assinada em uma loja da vinte e cinco de março, e é através do meu emprego que pago meu aluguel e faço o meu corre pra me manter ok e investir nas paradas da música. Eu pretendo ir além, não tenho limite, estou atrás da minha meta junto com os de verdade e é sempre bom pensarmos positivo e irmos pra cima do que queremos e acreditamos sem medo, mas lógico, sem pisar nem atrasar o lado de ninguém. O que me motiva? Tudo, eu acho. Minha família, a esperança em dias melhores, alguns amigos, e acredito também que a motivação maior é buscar essa voz ativa do gueto, sendo mais um irmão a passar a visão e ser o dedo na ferida do sistema, isso me motiva também.

 

S.O.M: Você é um dos fundadores do Hó Mon Tchain, como surgiu e como sua experiência com o coletivo influenciou no novo trabalho que está por vir? Quais são suas principais referências?

Amiltex: Sim! Sou um dos fundadores do coletivo Hó Mon Tchain. Surgiu através de mim e do Fao (MC), sempre fomos amigos e ele também cantava, até que resolvemos fazer uma música juntos. Quando gravamos, compartilhamos com alguns amigos próximos que andavam com a gente e que andavam de skate na época. Nisso, um foi colando pra rimar, outro também, quando foi ver o grupo estava formado por amigos ali.

Minha experiência com o coletivo foi boa, acredito que aprendi bastante porque bem antes do Hó Mon Tchain eu já escrevia meus raps, colava com os amigos da quebrada pra cantar nas quermesses e nos bailes da quebrada, então o Hó Mon Tchain foi uma experiência diferente. Trabalhar com cinco amigos, ver os caras direto, ir pra show, gravar, pensamentos diferentes, visão diferente, acho que aprendi bastante. Ainda assim, percebo que não influenciou muito no meu trabalho solo porque minhas músicas são bastante inspiradas na minha vivência e também do meu pessoal. Às vezes, algumas coisas precisam ser ditas e me sinto mais à vontade pra trabalhar solo também, pelo fato de ser um pouco perfeccionista às vezes. (risos). Minhas principais referências são Racionais Mc’s, Sabotage, RZO, Dexter, Rincon Sapiência, Johnny Germano, e alguns raps gringos como 2PAC, Nipsey Hussle, Benny the Butcher, entre outros… 

 

(Capa do single “Favela Vai Vencer”)

 

S.O.M: “Favela Vai Vencer” chega em um momento muito difícil pra população pobre do Brasil, o que é vencer pra você nesse cenário?

Amiltex: Poxa, nem me fala, que momento difícil estamos passando, apesar de que nunca foi fácil pra ninguém que mora em favela, em periferia. Mas agora com a pandemia, existem muitas restrições e pouco suporte pra quem realmente precisa, e com um presidente genocida no poder as coisas só tendem a piorar, infelizmente. Quando escrevi essa letra eu pensei exatamente nisso: O que é vencer pra um favelado?

Muitos Mc’s estouram, conseguem seu espaço e remuneração e cantam que a favela venceu, mas só que quem venceu foi o Mc que estourou e não a favela em si que venceu.

Pra mim, a favela vai vencer quando formos tratados como gente, como ser humano, acabar essa violência toda contra o pobre e o preto, violência da polícia assassina que só entra na favela pra matar, agredir e oprimir. Pra mim a favela vai vencer quando tivermos mais oportunidade de crescermos, com um bom emprego, com boas escolas pras nossas crianças, com auxílio para famílias carentes. O nosso governo nunca fez nada pro pobre, eles não pensam na gente e quando pensam em ajudar vem com esmola, com pouco, e pra mim isso gera mais revolta ainda. “Favela vai vencer” é um grito de esperança, de raiva e de revolta ao mesmo tempo, então a favela vai vencer quando pararem de ver o favelado como uma ameaça e começarem a nós dar chance de mostrar o nosso potencial. Quando isso acontecer iremos roubar a cena, porque tem muito talento nas favelas, nas quebradas, que infelizmente não chegam longe porque a polícia mata ou morre de droga, ou em uma cadeia. A Favela vai vencer quando o Governo parar de roubar e investir corretamente nas comunidades pobres do nosso país. Por enquanto, Deus nos dá força e discernimento pra seguirmos nossa caminhada.

 

S.O.M: Como se deu a parceria com o Renan Samam? 

Amiltex: Ah, eu conheci o Renan a mais ou menos uns dez, doze anos atrás nos pião de rap que eu fazia com os amigos. Na época eu tinha um amigo em comum com ele, o Hó Mon Tchain ainda não existia, mas eu já cantava e escrevia, tinha muita vontade de ter um coletivo com os amigos. Foi então que eu conheci o Renan e ele já tinha um grupo chamado “Quarta Estrofe” onde ele era o DJ. O Renan sempre foi humildade total, me convidou junto com esse amigo para irmos na festa de lançamento do seu disco e a gente foi sem nenhum dinheiro no bolso, então ele colocou a gente pra dentro do rolê e ainda deu um CD pra mim.

Achei o show dele foda, as músicas fodas e a pessoa do Renan Samam também é sem palavras, muleque é simplicidade demais. Quando isso aconteceu, me despertou a vontade de fazer acontecer, de ir pra cima e correr atrás do meu sonho que também era ser Mc. Desse tempo pra cá, trombava o Renan nos shows de rap e batalhas de Mc’s que eu colava e sempre que possível eu ia trocar ideia e ele sempre dava uma atenção e pá, trocava um papo da hora, admiro muito ele. Daí um belo dia ele resolveu fazer um sorteio de 3 beats pelo Instagram, eu me inscrevi e acabei ganhando a produção mais cobiçada que é essa da “Favela Vai Vencer”. Quando ganhei fiquei muito feliz, até porque o Renan tem um conceito monstro dentro do Rap e eu tava numa fase complicada, sem fazer nada em casa por conta da pandemia, com a cabeça a milhão de preocupação e também revoltado com as coisas que via nos jornais. Por morar na favela, vi e passei por muita coisa, daí pensei: esse é o beat que eu vou usar pra descarregar tudo que eu tô sentindo e pensando. Foi aí que surgiu o som.

 

S.O.M: Como você está se sentindo nessa estreia solo, suas expectativas e, claro, pode adiantar alguma novidade do novo disco? 

Amiltex: Nossa, estou me sentindo muito feliz, com um sentimento muito bom dentro do coração. Uma mistura de alegria e satisfação enorme pelo fato de estar há um bom tempo querendo lançar as minhas paradas, e ainda mais através dessa oportunidade de ter ganhado o beat do Renan… o beat é foda e me inspirou pra caralho pra escrever. Minha expectativa, não só da música “Favela Vai Vencer”, mas também do disco, é que alcance todos os favelados do Brasil, e que possa causar um conforto nos corações e abrir a mente de muitos. Nas minhas músicas eu passo muito sobre a minha vivência e também várias ideias que sei que muitos nas quebradas passam e pensam como eu, então acho que muita gente vai se identificar.

O meu disco solo se chamará “Terceiro Mundo” e terá a participação de alguns integrantes do Hó Mon Tchain, assim como outros amigos. Vai chegar no segundo semestre de 2021 com dez faixas pesadíssimas, e em nenhuma delas eu quis desperdiçar uma linha sequer, então quem gosta de rap, quem é favelado, maloqueiro, e revoltado com o sistema lixo desse país vai gostar e se identificar bastante. Obrigado pelo espaço e oportunidade dessa entrevista. Deus Abençoe!

Além do single, Amiltex também lança “Favela Vai Vencer” em videoclipe, assinado pelo videomaker Johnny Germano, que também é proprietário do selo independente Fim da Linha Records, responsável pela produção e lançamento desse novo trabalho do Amiltex. O selo foi desenvolvido para dar suporte a artistas independentes do rap nacional, que por muitas vezes veem seus sonhos guardados na gaveta por falta de oportunidades.

Assista “Favela Vai Vencer”

 

Escrito por

Aficionada por música, reconheci minha vocação cultural ao longo da graduação em Química na UFV e decidi me dedicar às novas profissões após concluir a faculdade. Atualmente, atuo como redatora, curadora musical, produtora de conteúdo e assistente de produção executiva. Sou idealizadora do perfil TODO DIA UM CD DIFERENTE no Instagram, onde escrevo sobre discos nacionais e internacionais, elaboro playlists e abordo temas relacionados à cultura e à sociedade.

2 Comentários

2 Comments

  1. Amilton Campos

    30 de agosto de 2021 at 9:34

    Obrigado pela oportunidade dessa entrevista Natália, Deus Abençoe…

  2. cesar

    30 de agosto de 2021 at 20:01

    música #Top otima entrevista …

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