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Entrevista

“FAZER SAMBA É UM ATO POLÍTICO”, DESTACA MARCELO AMARO

Músico lança seu novo disco hoje (10/09)

Marcelo Amaro
Foto: Carla Vieira

O cantor, percussionista, compositor e educador musical Marcelo Amaro tem se destacado nas rodas de samba e na cena artística carioca desde os anos 2000, e vai lançar agora mais um álbum, intitulado “Afrogáucho”. Suas músicas geralmente reverenciam sambistas, a negritude, as religiões de matriz Africana na diáspora brasileira, política, entre outros temas, mas neste disco resgata suas andanças desde criança até a profissionalização no meio artístico.  

Nascido e criado na Vila Cefer II em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, o músico hoje com 46 anos vive no Rio de Janeiro há quase duas décadas. Na entrevista à Ninja, ele conta mais detalhes sobre o lançamento e os desafios que os sambistas enfrentam no mercado fonográfico. Fala também sobre as dificuldades enfrentadas pelos artistas frente à pandemia e o cenário político nacional. Para ele, o samba sempre foi resistência cultural, é afirmação de valores culturais afro-brasileiros, por isso não se curva jamais  às repressões do poder público e do preconceito em nossa sociedade. Neste contexto, segundo ele, o artista precisa se posicionar criticamente contra o atual governo e reivindicar seus direitos.

Como se deu o seu contato com a música e esse processo de profissionalização?

É uma continuidade da linhagem do meu avô paterno, Otério Amaro. Nasci em Porto Alegre e vivo da música há quase 28 anos. Comecei de forma autodidata, meus pais escutavam bastante samba e de escolas de samba. O meu primeiro instrumento foi o tantan, porque sou fã do Sereno, do Fundo de Quintal, e fui migrando para uma dezena de instrumentos de percussão. Em 1993  criamos o Pagode Cia  Brasil, fomentava cultura e entretenimento no bairro Partenon e na cidade de Porto Alegre em casas noturnas, clubes e espaços culturais. O grupo  gravou um LP, o famoso pau de sebo, na Mostra  de samba e pagode de Porto Alegre. No início de 2000 recebi o convite para uma turnê em Genebra e a partir dali toquei com um grupo de artistas gaúchos renomados. Lá recebi o convite para tocar no Grupo de Choro André de Sapato Novo, porque não havia pandeirista. Fizemos uma turnê de dois meses pelo sul da França e fiquei quase dois anos vivendo na música e trabalhando num café restaurante. Já estava com a passagem de volta comprada, mas aproveitei a oportunidade. Resolvi voltar ao Brasil com destino programado para São Paulo para estudar no Conservatório Souza Lima, mas antes passei pelo Rio de Janeiro. Acabou virando quase vinte anos, o carioca me abraçou de maneira muito acolhedora. As coisas no Rio foram acontecendo naturalmente e o acolhimento foi instantâneo, comecei no Samba da Feira da Glória porque morava perto e fiz amizade com a rapaziada: Paulo Franco, Lula Matos e o saudoso Edson Cortes, o Dinho, ambos do Galocantô. Fui logo convidado pelo meu mano Lula Matos, que me lançou no palco do carnaval na Lapa e na Cinelândia. Fui rapidamente me enturmando e acompanhando os artistas dessa “nova geração” e muita gente bamba da velha guarda do samba. O Rio de Janeiro é uma grande escola de samba, a forma de perceber esse contexto amplo da cultura do samba urbano carioca através das vivências e saberes mudou totalmente e ampliou a minha visão. Só em 2015 num período que fiquei em Porto Alegre a composição entra na minha vida, comecei a escrever com o auxílio de queridos amigos e parceiros musicais: Xannd Sy, Luciano Magalhães, Rodrigo Rodrigues, Sandro Sampaio, e hoje me tornei parceiro de uma dezena de sambistas pelo Brasil, graças a esses amigos. 

Quais as principais barreiras para um artista negro na música e por quê?

O dia 14 de maio de 1888 é crucial para essas duas questões. No primeiro dia pós-abolição da escravatura, o negro ficou literalmente com uma mão na frente e outra atrás, sem direito a nada. Isso reverbera na sociedade em que vivemos até hoje, mesmo com as ações afirmativas no Ensino Superior. Existem muitas barreiras raciais em todos os gêneros musicais no Brasil: A negação do racismo, da rica contribuição musical dos povos africanos trazidos a força durante a escravidão e os crioulos (os negros nascidos no Brasil); a negação ao protagonismo do negro em toda a Música Brasileira –  inclusive na cultura do Samba, onde em todos os setores desta vasta cultura de origem dos povos de língua bantu aportados a força no Brasil colonial ainda há aculturação e usurpação sobre o gênero musical e o meu povo. O samba é afirmação da identidade e resistência do negro brasileiro, no entanto possui direito a ser consumido nas rádios apenas sábado e domingo. Por quê? Em programas de TV nem se fala. É urgente colocar em prática as leis do ensino de História e Cultura  Afro-Brasileira (10.639/03) e o ensino da música (11.769/08) em âmbito nacional. 

Falta dinheiro para investir na carreira artística, num curso de música, no impulsionamento das redes sociais, na compra de um instrumento, no investimento da gravação do seu single, videoclipe, DVD. Acredito que o artista negro possui muitas desvantagens sem o felebé (dinheiro) e uma rede social – sem generalizar – propensa a colaborar com muito menos para uma vaquinha. Do ponto de vista dos editais de cultura públicos ou privados, muitas das vezes o artista negro (in) dependente só é lembrado para temas específicos e disputam com grandes artistas em leis de incentivo fiscal e raramente ganham. Uma saída para dar margem à independência financeira dos artistas brasileiros, seria pôr em prática responsabilidade social, cultural e artística junto às grandes multinacionais e médias empresas privadas no Brasil, através de editais. Esse instrumento com direito a dedução de impostos sobre serviços e circulação de mercadorias, além de incentivos diretos para escolas de música brasileira gratuitas e festivais de música brasileira com premiação, seria um bom caminho.

Quais São as suas maiores referências Negras no Samba? 

Martinho José Ferreira, Martinho  Vila, juntamente com Nei Lopes, são as minhas maiores referências no Samba. São para mim duas potências negras intelectuais, que me inspiram desde a criação musical à minha formação acadêmica e principalmente como cidadão afrodescendente. 

Você lançou alguns álbuns e agora vai lançar um novo, conta um pouco qual a atual proposta.

Gravei dois álbuns, O Banquete em 2016 e o Viva a percussão em 2018, todas as faixas autorais ou parcerias. No mesmo ano lancei também mais alguns singles e os mais importantes foram sem sombra de dúvidas I Love you Mangueira, em parceria com Nego Alvaro, e Vai Lá Vai Lá, convite de Tuti Rodrigues para compor essa versão de samba com salsa,  ambos possuem clipes no Youtube . No ano de 2020 lancei o DVD Marcelo Amaro Ao Vivo, no Beco do Rato, com produção musical de Lula Matos e 12 participações especiais. Agora o lançamento do AFROGAÚCHO tem dez faixas para apresentar um pouco mais minha trajetória do Rio Grande do Sul passando pela Europa e chegando ao Rio. De certa forma, também celebrar a vida e agradecer a toda a minha linhagem ancestral, inclusive meu pai que morreu ano passado, que sempre foi meu maior apoiador e amava o samba. Porém, com tudo que aconteceu na nossa família, este disco eu dedicarei ao meu irmão caçula por tudo que ele representa e sintetiza em nossos corações, puro amor!

Como o CD está pensado dessa vez?

Já está gravado e com o ISRC pronto e será lançado a partir de setembro um single mensal e algumas faixas, já produzimos um videoclipe. Acredito que este seja meu melhor álbum, participei de todas as etapas deste trabalho que mostra uma sonoridade com base no samba urbano carioca, com pitadas de sotaques e instrumentação de sul ao nordeste brasileiro,  em diálogo com o continente africano e a europa. O disco Marcelo Amaro produzido por Ele, coletivamente com Luiz Henrique do Apê Estúdio e Daniel Delavusca, que gravou cavaquinhos e foi o responsável por todos os arranjos, a excelente execução de vários craques: Jorge André, Pedrinho Ferreira, Anderson Vilmar, Joás Santos, Vinícius Magalhães, Jorginho Trompete, Jean Ximenes, Tuti Rodrigues, Pedro Franco, Lula Matos, Ana Zivkovic, Paulinho Black, Wanderson Martins, Márcio Vanderlei, Dudu Dias, Misael da Hora, Kiko Horta, além da participação especialíssima de João Donato, teve ainda o coro conduzido por Munique Mattos. As artes da capa, faixas e contracapa são de Senegâmbia, um jovem artista e designer carioca que vem se destacando. A diagramação do CD ficará por conta da designer e cantora, Didi Assis.  O álbum AFROGAÚCHO estará disponível nas plataformas digitais no dia 10 de setembro (sexta-feira) e em novembro o disco físico estará à venda no site www.marceloamaro.com.br. É um presente do universo fazer um disco em plena pandemia e contar com o convidado especial João Donato, que tocou piano e dividiu comigo a faixa Descendo Santa Teresa. O instrumental e o samba sempre conversaram. Música é universal, como diz o mago Hermeto Pascoal.

Essa sua linha de percussão puxa muito para a questão da africanidade e religiosidade também?

A percussão entra naturalmente na minha vida. Não fui à escola para aprender, assim como centenas de crianças aprenderam a jogar futebol ou na escola de samba. E na religiosidade tem coisas que a gente carrega e não tem explicação. Os toques do terreiro despertam cedo e quando começo a escutar Geraldo Bongô, que é um cara que gravou Clara Nunes, Roberto Ribeiro e tantos outros ícones da Música Brasileira. São esses tambores que me levam a pensar a música em termos de ritmos e melodias e muitas pesquisas. A percussão sempre foi meu norte, ainda não tive oportunidade de viajar todo o Brasil mas carrego essa coisa de sempre estar pesquisando. Bebo em várias fontes e o samba é meu alicerce, meu chão. Das pesquisas surgem o Festival Viva Percussão e de seus tentáculos a monografia do curso de Licenciatura em Música pelo Conservatório Brasileiro de Música: “A Importância da Percussão Brasileira Através do Projeto Viva Percussão”.

A religiosidade vem da minha avó, nasci no mesmo dia que ela, era sacerdotisa num terreiro no Rio Grande do Sul. Sem os africanos no Brasil não teríamos o samba, não estaria aqui dando esta entrevista. Atualmente faço parte da Orquestra Afro Brasileira, que é a mais antiga Orquestra Afro-Brasileira com 79 anos e a mesma idade do seu atual líder, Carlos Negreiros, que  juntamente com o arranjador e regente Caio Cezar resgataram a Orquestra. Ainda não tive oportunidade de viajar ao continente africano, fiz o teste de DNA de identidade ancestral e o resultado deu 71% africano, quero muito conhecer o Benim e todo o Golfo da Guiné ou Costa da Mina e a Costa Ocidental Africana, além de Havana em Cuba e a cidade de NY, que são  fundamentais para quem é músico. É minha missão aprender e transmitir ensinamentos musicais mundo afora através da percussão, canto, composição, educação musical. Enquanto “tiver bambu terá flecha”, ou seja, enquanto eu tiver saúde, seguirei buscando caminhos para divulgar a música brasileira através da percussão.    

Como você vê a relação do samba com a política?

Quando não reconhecem os povos africanos que foram escravizados nas américas, os crioulos e crioulas sem rumo na abolição da escravatura do Brasil há 133  anos,  Hilário Jovino, Donga, João da Baiana, Pixinguinha e tantos outros bambas nas casas das tias baianas, principalmente a famosa Hilária Batista de Almeida, Tia Ciata. Depois Ismael Silva, Bide, Marçal e toda a turma do Estácio, junto a tantos outros bambas que foram dezenas de vezes presos ou intimados por vadiagem. É por causa deles que nós fazemos o samba hoje. O Samba urbano nascido no Rio de Janeiro no início do século XX e que hoje está em cada canto do Brasil é contra cultura, de origem negra e pobre que sempre foi reprimida e perseguida. Por mais que tenha sido usado para controle da massa por muitos políticos, o samba é resistência cultural,  possui um enorme potencial de luta política que está no cotidiano do sambista. Se faz presente na filosofia de vida, instrumentos musicais, muitos advindos dos terreiros de candomblés, preceitos religiosos das divindades africanas, as suas obras musicais de cunho étnico-racial, histórico, sócio-político, amor, alegria e dor. O samba  é continuação e afirmação de valorização da cultura negra, é muito mais do que sambinhas e mal pagas. O samba é aquilombamento urbano e ainda hoje rural, como ponto principal de lugar de fala, com muita troca social, expressão de opiniões. Uma grande Kizomba. Valeu Zumbi! 

Na questão racial que você citou, tem também uma coisa mais comercial de mercado? 

É um recorte racial e social, os caras não tocam. O funk é de preto mas não depende da gravadora, os caras lançam no youtube e têm milhares de seguidores, porém é lançado por um produtor que  gerencia a carreira de muitos MCs. Só agora o samba está pensando nisso, criar canal, fazer live, eu mesmo estou começando a ter seguidores e pensar em monetizar esses vídeos. Ainda estamos engatinhando nesse sentido, o funk já entrou na pandemia bombando. Estamos pesquisando os outros gêneros, como o funk e o rap, porque  também são gêneros cria das  favelas, morros. Muitos jovens onde dei aula me diziam: tio, isso é coisa de velho. A maioria dos sambistas antigos morreu dura. Penso que hoje é preciso  desenvolver um aplicativo audiovisual somente para o gênero samba e seus estilos, junto a rádios AM, FM, comunitárias e web rádios, tocando de domingo a domingo sem jabá. Ainda não está inserido no mercado digital, principalmente nas plataformas ou streamings. Somente hoje a maior distribuidora de streamings no Brasil, possui uma pessoa responsável pelo gênero musical  Samba/Pagode. Ou seja, Estamos velhos/ mas ainda não morremos… (Monarco) Samba, Agoniza mas não morre ( Nelson Sargento). O segmento musical samba merece muito respeito, porém terá de fazer por ele mesmo na nova era digital. Nós por Nós!

Como vê o cenário político atual enquanto músico e também cidadão nessa pandemia?

No samba é onde consigo sobreviver desde a minha chegada ao Rio e vejo um retrocesso muito grande nos últimos anos, principalmente com o arrombamento dos cofres públicos por três governadores do Estado do Rio de Janeiro e um ex-prefeito que odiava nossa cultura. O público consumidor do entretenimento do gênero sofreu o pênalti  com parcelamentos, atrasos de salários e desmontes. Junto a todo esse caos de crise sanitária e roubalheira, não temos uma unidade de oposição nesse momento. Todo dia você acorda agoniado com o terror desse desgoverno federal, que não tem um plano de nada. Para mim, fazer samba é um ato político e de resistência nesse país. Recado ao Ministério Federal da Saúde, libere as vacinas para vacinação em massa no País! 

 

Por: Eduardo Sá

 

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