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Entrevista

Gali Galó: O nascimento do Queernejo

A reinvenção do sertanejo por um estilo mais democrático

Foto: Mah Matias

Gali é multiplicidade em pessoa, seu novo momento une suas diversas fases em uma, que apesar de nova, é experiente no meio artístico, passando por diferentes momentos, Gali mudou musical e pessoalmente, explorando estilos e possibilidades que fluíram por uma primeira fase indie – ainda como Camila Garófalo – até desaguarem em Gali Galó. Representa um reencontro consigo mesma e com sua musicalidade sertaneja.

Junto a essa corajosa trajetória musical, Gali, que hoje se entende enquanto pessoa não binária, desenvolveu também seu lado empreendedor. No encontro com outro artista do universo queer, Gabeu, criou o movimento do queernejo, que culminou na realização do primeiro festival de música sertaneja voltado para o público LGBTQIA+: o Fivela Fest.

Apesar de estar no mundo artístico há mais de seis anos, o recente projeto Gali Galó – nome que teve bastante cuidado para ser escolhido, contando até com a ajuda de uma numeróloga – lançou dois singles que conseguem sintetizar esse seu novo momento. O primeiro deles, “Fluxo”, conta com a participação da cantora Aíla e revela a mistura de diversos elementos musicais e simbólicos. O segundo, “Caminhoneira”, traz de modo mais evidente a reaproximação com o sertanejo, gênero presente na iniciação musical de Gali, que nasceu em Ribeirão Preto, interior de São Paulo.

Tal reaproximação se deu junto ao crescimento do sertanejo universitário e do feminejo, fenômenos que resultaram em uma onda de aceitação do gênero por parte do público jovem. Apesar de dizer ser mais influenciada por duplas como João Paulo & Daniel e Bruno & Marrone – representantes de uma fase anterior, mais tradicional e romântica – foram cantoras como Maiara e Maraisa que fizeram com que Gali suprimisse a vergonha e o receio de se ver ligada ao estilo. Neste sentido, o estudo da viola caipira fez com que Gali passasse a compor se baseando na sonoridade característica do instrumento, remetendo a melodias e harmonias diretamente ligadas a sonoridade do sertão.

Além desta mudança de perspectiva em relação ao sertanejo, a descoberta de Gabeu foi decisiva para traçar os parâmetros do que viria a ser um novo estilo dentro do gênero. Instigada pelo cantor que definia sua música enquanto “pocnejo”, Gali viu a oportunidade de criar um movimento e construir uma nova narrativa dentro de um cenário marcado pelo eu-lírico masculino e sua percepção do mundo, que grande parte das vezes se transforma em discurso machista, homofóbico, hétero e cisnormativo.

Os reflexos da construção e busca desta nova narrativa se fazem presentes no som, na imagem e na lírica do trabalho de Gali Galó. O single “Fluxo” veio acompanhado de um clipe que mostra a faceta audiovisual de seu novo projeto e a faixa “Caminhoneira” faz parte da produção de um álbum que virá acompanhado de um road movie, explorando justamente a busca por esse lugar enquanto artista e enquanto pessoa em um novo universo de criação e percepção de si: uma  jornada que permeia a busca pela identidade de gênero e as raízes do interior.

No entanto, apesar de embebida desta temática, a narrativa lírica não terá necessariamente um viés militante, como a música “Caminhoneira” teve, aponta Gali: “Tem músicas desse disco que tem uma letra que não tem militância, a princípio não tem militância, porque meu corpo já é militância e minha voz já é militância. Mas a faixa veio dessa ideia de justificar a comunidade LGBTQIA+ e entrar diretamente no assunto. Nós LGBT’s estamos começando a nos permitir sofrer em sertanejo, porque a sofrência e o sertanejo são indissociáveis. Então só o fato de a gente estar cantando nossa sofrência já acaba sendo uma música temática, digamos assim. Enfim, vou misturar as duas coisas.

É notável na trajetória artística de Gali uma percepção muito nítida sobre o universo musical a sua volta. O encontro com Gabeu e a tomada de consciência de que outros artistas estavam trabalhando na mesma perspectiva de ampliar as fronteiras estéticas do sertanejo fez com que a pessoa de negócios de Gali viesse à tona. A ideia de um festival surgiu antes mesmo do encontro entre os dois artistas expoentes da então embrionária cena, e após algumas conversas estava desenhado o que viria a ser o primeiro festival de queernejo do Brasil

 

Fivela Fest

A mudança de pocnejo para queernejo foi o passo inicial para o lançamento do Fivela Fest. O lado empreendedor de Gali e a empolgação de criar um festival que abarcasse toda diversidade do público LGBTQIA+ fez com que já no primeiro encontro com Gabeu, Gali estivesse portando adesivos do Fivela Fest. A ideia interessou aos profissionais da música de modo geral; a novidade gerada pelo primeiro festival de queernejo do Brasil colocou rapidamente o Fivela no Mapa dos Festivais. Os portais de notícias começaram a divulgar o novo movimento e a ideia começou a concretizar-se. Desse modo, o festival teve sua primeira edição online por conta da pandemia e aconteceu no dia 18 de Outubro via Youtube pelo canal Fivela Fest.

O line-up contou com a presença de Gabeu, Gali Galó, Bemti, Zerzil, Reddy Allor, Alice Marconi, Kassio, Millian Dolla e a primeira dupla de queernejo, Mel & Kaleb. Além disso, a programação contou com diversas mesas acerca do tema, tais como: masculinidade no sertanejo, negritudes no sertanejo, transgeneridades no sertanejo e mulheres nos bastidores do sertanejo.

A junção dos artistas e convidados nesse festival é a prova de que tanto a temática quanto a música sertaneja queer tem espaço e público para crescer. No entanto, é ingênuo esperar que ela seja apenas uma nova faceta do tradicional sertanejo ou do sertanejo universitário. O queernejo é muito mais que isso, é a reformulação estética, sonora e simbólica de um gênero que há anos domina o macro mercado musical brasileiro com uma roupagem conservadora, retrógrada, e que começa a desgastar-se a partir de movimentos como esse.

Escrito por

Cientista social, músico e compositor. Aprendo a musicar com a sociologia e tento entender o mundo com a música; sozinho e junto à banda Diadorim. Sempre em trânsito entre São Paulo e Goiás, me interessam as nuances e seus pontos de encontro. Você não acha Elomar muito mais pesado que Slipknot?

1 Comment

1 Comentário

  1. ana

    16 de novembro de 2020 at 22:02

    massa demais!!!

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