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Entrevista

GIO PROVOCA NOVO ENTENDIMENTO SOBRE ARTE EM “NEBULOSA BABY”

Artista entrega obra como um fractal em série, disco e filme

GIO "Nebulosa Baby"
Foto: Divulgação

Giovani Cidreira, ou agora apenas GIO, mescla vivências reais, atualidade e futuro em seu novo lançamento, o disco e álbum visual “Nebulosa Baby”. É difícil colocar o artista em qualquer caixa de gênero e estilo que exista, ele faz algo único e direciona pra isso, nas palavras dele: “Eu gosto do não-lugar, se me põe num lugar eu quero o outro, se me coloca no violão eu parto o violão”.

Não há rótulos pro baiano que se reinventa e surpreende a cada novo lançamento desde que começou. Uma coisa é fato, e o “não-lugar” é uma evidencia disso: GIO é uma fonte criativa inquieta, um criador, e isso é notado até em uma simples conversa. Antes de iniciarmos já estávamos mergulhados nesses assuntos.

O cantor questiona como a gente vê arte, e isso está no seu álbum visual, nas músicas, na sua família, e em nossa conversa.

S.O.M: Como você tá e como tá seus dias nessa realidade que vivemos?

GIO: Ih rapaz, é isso, tô maluco, maravilhado porque acabei de lançar um disco, na verdade eu tô começando a entender agora que eu tô realmente soltando esse negócio, um processo de quase três anos de produção desse disco. E durante essa pandemia cara acho que o trabalho basicamente me salvou assim. Ter lançado “Estreite” com Josyara, “Mano*Mago” que eu lancei com Mahal e tá trabalhando nesse disco me fez ficar legal assim apesar de toda essa m**** que tá acontecendo, mas esse é um disco que eu tinha desistido, ‘essa ideia é uma loucura do caramba, como a gente vai fazer isso no Brasil de hoje?’. Eu sendo quem eu sou, vindo de onde eu vim, muito difícil, esse isolamento, muita gente morrendo. Mas aí parei em casa assim, comecei a mexer no computador, revisitei essas músicas e isso começou a me dar uma revigorada sabe?! Mexer nesse negócio… A mesma coisa foi com o disco lá de Josyara, “Estreite”, e “Mano*Mago” com Mahal, eu lembro que quando a gente lançou “Estreite” logo depois da pandemia, essa coisa toda tinha virado realidade, com gente morrendo em massa mesmo. E eu tava muito triste, mas eu lembro que na semana do “Estreite” deu uma revigorada. São aquelas coisas porque a gente vive, a gente faz e vive pra isso, aquelas coisas que não tem nenhum valor prático, você não paga as contas com música. Mas é um alimento pra alma, quando as coisas tão ruins é aí que você percebe isso mesmo. E o trabalho tem me ajudado muito.

S.O.M: Quando você sentiu esse alimento pra vida?

GIO: Desde pequenininho que eu tenho esse negócio, minha família sempre acha engraçado, fala disso, porque na minha família não há nenhuma referência artística, uma pessoa que trabalha com música ou qualquer tipo de arte, quer dizer… Não que não seja um ambiente artístico, meu disco novo também traz essa questão.

As pessoas tem uma burrice de achar que porque o outro não tem tanta formação secular, ou não conhece certos tipos de música, não entende, ou não vivem num ambiente artístico.

O artístico vem antes disso, no olho no olho, é um jeito de se comunicar com as pessoas entendeu?! De querer transpassar alguma coisa. Minha família teve muito isso é uma educação muito maravilhosa nesse sentido, e desde cedo eles entenderam que eu era um menino que tava absorvido por esse universo meio esquisito.

Eu lembro que quando era pequeno as pessoas falavam ‘Deixa ele quieto, ele tá com alguma loucura ali, tá falando sozinho’, e com meus irmãos e minha irmã também sempre muito livre nesse sentido. Comecei a cantar, quando eu vi já tava cantando, sempre cantei fiz música, comecei desde pequenininho já a criar história, primeiro comecei a escrever história em quadrinhos, depois comecei a fazer poeminhas. E aí minha família percebeu, juntou todo mundo e comprou um violão, cada um deu um dinheirinho.

Aí já comecei a gravar em fitas cassete, que minha avó tinha um radinho, já gravava, levava pro colégio, isso já tinha 12, 13 anos e aí também já conhecendo uma garotada, trazia os temas do colégio: Menino gosta da menina mas ela não gosta, aí eu ‘Qual o nome dela?’, ‘Jamile’, aí já começava a cantar. No meio da comunidade também, eu acho que eu comecei a reparar isso já um pouco mais tarde cara, numa situação assim em Valéria, cresci no bairro de Valéria, periferia, que é o último bairro de Salvador, antes de Simões e Filho, já indo pro interior mesmo. E aí numa situação que eu via os meninos com moto, com carro, com as coisas, ‘pô também quero’… E aí ‘você pega esse negócio, bota ali, vem aqui, entrega o outro’, eu ia entrar nesse movimento quando um rapaz me disse: ‘Não pô, você não, tá maluco? Você é artista. Artista, entendeu? Sai daqui, você vai mostrar o que tá acontecendo aqui para os outros, depois’ (risos). Eu fiquei… Ó que loucura eu falando isso agora… E eu fiquei ‘Meu Deus que loucura’. Comecei a pensar ‘P**** eu sou artista’, então comecei a entender essa parada e realmente me entender como um repórter daquele negócio, como ele falou assim.

Mesmo depois cara, com 23 anos, eu tava muito mal né, aqui em Salvador, tudo muito difícil, eu fui na casa de um amigo meu, Tadeu Mascarenhas e ele falou ‘Tem um edital da Natura Musical’, eu falei ‘Isso não existe, quem sempre ganha é o filho do cara lá, o parente do amigo’. E aí rolou a parada, cortei minha língua né?! Depois disso eu fui pra São Paulo, conheci o pessoal da Balaclava Records, tudo com o dinheiro que tinha no bolso. Quem mixou meu disco foi Diogo Strausz, fiquei falando pra ele ‘Você vai fazer meu disco’ (risos), fui na casa do cara… Ronaldo Bastos no Rio de Janeiro, compositor do Clube da Esquina, fiquei enchendo a paciência dele e de Léo.

Com isso tudo acontecendo eu volto pra Salvador, aí eu conheci os meninos do selo, pô O Terno Rei, fui atrás do Ale Sater, a gente fez um negócio só pra eu conhecer os caras, tocar na casa de show deles, e falei pro Rafael Faraó ‘Quando acabar esse show você vai ver, vai querer meu disco’ e eles quiseram mesmo. Aí já tô em Salvador, com essa coisa pra ser lançada ainda tinha essa coisa de tipo assim ‘Será isso mesmo?’. Que uma coisa é você se entender como artista, outra coisa é você querer viver disso né?! Quer dizer… Um bocado de coisa que toca na rádio que não é de gente que vive disso, gente que faz mas não vive. Acho que o Don L fala um negócio desse que ‘Se o lixo que toca na rádio é o que vira então eu não sou um artista’. Nesse momento que fui pra São Paulo comecei a pensar nesse sentido também e eu acho que é isso né?!

Eu acho que eu sempre fui essa figura, sempre estive absorvido por essa essa energia, essa coisa louca mas aí também tem esse lance de viver isso, de vender isso, eu não sei se daqui três anos de verdade, eu vou tá aqui, não sei se vocês vão tá me vendo aqui, não sei se vou ter essa disposição entendeu?! Pra continuar vendendo… Porque eu acho que a música é só uma fase na vida, nesse sentindo estar vendendo, me comunicando, mas eu sempre vou fazer música, assim como vários familiares meus que nunca tiveram a oportunidade de entender-se enquanto isso, e por isso não venderam.

S.O.M: Você lembra a primeira música que te tocou?

G: Boníssima pergunta… Volta e meia eu tô conversando com amigos meus e a gente sempre lembra de quando era criança, eu acho que dia desse ouvindo “Andança”, ‘Olha a lua mansa a se derramar’, essas coisas que emocionam a gente, mas assim eu sou do interior né, cresci no interior antes de vim pra Salvador, eu vivi em Castro Alves até os 10 anos. E no interior da Bahia é muito forte a tradição de São João, mês de junho, e eu morava numa fazenda bem isolada pra ir pro colégio a gente pegava aqueles carros, aqueles caminhões, subir no caminhão e levava a gente para o colégio na cidade mais próxima e voltava. Tinha aquele senso de comunidade, de família que se estende assim, apesar das pessoas não serem familiares de sangue…

E no São João uma coisa típica é a gente passar de casa em casa, comendo bebendo, e dançando forró. E numa dessas que as pessoas iam na minha casa eu lembro de estar lá e ver as pessoas dançando até o dia raiar, e eu tava assim lá em casa e chegar um trio, sanfona, triângulo, zabumba e começar a tocar, e eu ouvi uma música de Luiz Gonzaga que era “Pau de Arará”, ‘Quando eu vim do Sertão, seu moço, do meu Bodocó, a malota era um saco e o cadeado era um nó, só trazia a coragem e a cara, viajando no pau de arara, eu penei mas aqui cheguei’ e eu chorava, minha mãe ‘Menino, que que você tem?’… ‘Essa música, mãe, eu não sei’. Eu lembro desse momento de chorar em lágrimas, e nunca esqueci essa música, que é uma das minhas preferidas da vida assim.

Essa é uma boa lembrança de música… Inclusive é um negócio que marcou tanto assim, que eu comecei a enxergar uma banda, e já queria tocar acordeon, um dos primeiros instrumentos que eu falei ‘Pô, que negócio bonito o acordeon’, que até hoje eu não aprendi. Mas uma boa lembrança, você me lembrou de alguma coisa legal.

GIO "Nebulosa Baby"

Capa por Alex Oliveira

S.O.M: Você lembra que dia nasceu “Nebulosa Baby”?

G: Eu lembro cara, e isso é muito louco, porque eu tava, assim eu ia pra Blumenau, tava visitando minha mãe, e com as músicas da “Mixtake” prontas, já tava comigo, ia fazer a capa, ‘Pô, a gente tem um disco, aqui tem músicas, comecei a fazer umas coisas em casa’ e Benke falou ‘A gente pode apresentar essa parada, a gente mostra uns pedaços delas agora, depois a gente faz uma outra coisa que vai juntando as peças. Depois a gente mostra como é suas músicas em sua forma original por último’.

Eu tava já tinha dois anos sem ver a minha mãe, que ela morava aqui em Salvador quando eu fui para São Paulo, depois se mudou, foi a Blumenau, e eu tava lá velho e a gente conversando, a gente falava sobre impeachment, de Dilma, Bolsonaro, aquele endurecimento, e tinha um negócio da mamadeira de p*****. Ela começou a falar da família, ela disse ‘Família, pessoal fica falando, família é onde você se sente bem, o lugar que você tá e você é quem você pode ser, sem se preocupar, isso é família’. Ela começou a me lembrar que essas coisas eu sempre soube porque a gente aprende em casa, ensinamentos que a gente tem que a minha avó em Santo Amaro passa para gente assim né, sem nenhum preconceito é interessante como as pessoas tem isso… Porque tem uma ligação também bem diferente com o tempo, com a terra, com o solo, e o espiritual. Minha mãe começou a falar da intuição, ela: ‘Meu filho a única coisa que a gente tem é a intuição, a gente não tem nada, na nossa frente sempre esteve um deserto, a gente só tem nossa cabeça. Onde você tava? Em São Paulo, agora você vai pra Europa. E você só tem isso, são nossos poderes’.

Comecei a pensar nisso e eu fiquei andando… Quando eu vou compor eu fico andando, eu ando mais do que sento e escrevo, a maior parte do tempo é andando em círculos. Veio uma coisa na cabeça, tinha acabado de conhecer o trabalho de Jup do Bairro, eu fiquei pensando ‘Pô, podia fazer uma música que dá conta disso, mas não podia ser uma música, tinha que ser uma coisa dessa como a minha mãe fala’. E eu tinha que chamar Jup do Bairro, aí eu fiz uma harmonia, uma coisa no tecladinho eu falei ‘Acho que isso é um disco, que tem essas músicas, que tem aquela, “Sangue Negro”, falta terminar um negócio, vou falar com Felipinho ele pra ele vir’. Essa harmonia virou “Joias”, outra música, e essa ideia de Jup, eu me desencorajei, me acovardei, loucura de novo né?! Já tava certo, aí nasceu várias coisas, tanto que essa ideia do disco começar com Jup, que ela ela só voltou à tona quando tava com Benke, ele tava já mixando o disco, finalizando pra master e ele veio com os áudios gravados de uma entrevista de Jup… E velho se você ouvir o que ela fala ali, naquela entrevista, exatamente as coisas que eu tava conversando com minha mãe, exatamente quando eu comecei a fazer meu disco e isso me deixa muito claro para mim que esse negócio da intuição que é o tema central assim né, é verdadeiríssimo, vivíssimo, e isso é muito louco.

Esse nome né… Tem essa música “Nebulosa”, uma música triste, veja bem… Eu acho que a desigualdade, as coisas difíceis, elas isolam a gente, às vezes tava em São Paulo e me sentia muito mal, alguns lugares você se sente deslocado, você não se sente pertencente, parte daquilo ali, você se sente pobre, que é isso que as pessoas dizem, você não sabe ler, você não sabe mexer, você não sabe fazer de tal maneira. Esse tipo de coisa vai deixando você meio coisado, aí você cai em certas armadilhas, ou você abusa de drogas, ou você foge de algum jeito. Você não encara, você não entende o porquê, você cai nessa coisa, porque essa estrutura quer quebrar você, te destruir. E basicamente eu fiz essa música pensando nisso, porque vivi isso e eu começava a pensar já nessa imagem para o disco, uma coisa que falasse dessa sensação que eu tava sentindo na época. Quando cheguei a pensar não só sobre mim mas sobre o mundo todo, uma coisa uma nuvem densa com a densidade no ar e deixa as coisas pouco legíveis entendeu. É como uma sensação, uma expressão para falar desses tempos duros que a gente vive, é uma coisa nebulosa, uma coisa meio triste, é misteriosa também, e é só com uma coisa meio bagunçada, confusa, já o Baby é o contraponto sabe,?! É só para ter a loucura mesmo, o baby é tipo o pântano e a claridade, “Clara Crocodilo” do Arrigo, por exemplo. Comecei a pensar nessa coisa que não tivesse nenhuma relação entre os dois nomes na verdade, e que tivesse essa coisa meio debochada, meio engraçada, meio non sense, que eu gosto também… Que é desse não lugar, me botou num lugar eu vou para outro lugar, me botou no violão, eu vou partir o violão, me botou com sample, eu jogo ele pra cima.

Em “Japanese Food”, você vai ver a capa do disco, não tem nada a ver com o negócio, eu gosto dessas provocações, gosto dessa brincadeira porque se não fica muito fácil entendeu, fica muito fácil. Eu gosto de receber as coisas assim também. Quando recebo um disco quando eu ouço as coisas, quero que me impressione, sentir que é real, eu acho que eu faço isso também por isso, porque é uma coisa meio real, o nome é bem isso, essas duas partes, o baby, essa brincadeira mesmo meio criança. Depois que eu fui descobrir que Nebulosa é um berçário de estrelas… E “Nebulosa Baby”, que maluquice né, no final as coisas começam a fazer um sentido maior. (risos)

S.O.M: Você já tinha ideia do disco antes de “Estreite”, “Japanese Food”, e tem esse lance do fractal que você tava falando em off…

G: O Benke traz uma coisa da linguagem artística, com a comunicação assim, de como vamos passar isso pras pessoas. A obra ela não se encerra no registro, e a gente tem essa oportunidade de pegar esse disco, jogar no chão, quebrar ele, deixar estilhaços, vamos tratar como peças de um quebra-cabeça, dados, que a gente vai inserir nos próximos lançamentos. Também a gente fez para que as pessoas começassem a pegar esses cacos depois. “Mano*Mago”, tem coisa que tão nesse disco, em “Estreite” também.

Agora junto com os episódios da web série, e junto com o filme que eu lancei, a gente junta né esses cacos todos e constrói, monta, como um objeto fractal, dentro de um objeto que as pequenas partes dele dão informações do todo né. Acho maravilhoso isso, porque é uma oportunidade também que eu tive de lidar com a dificuldade né, com a dificuldade de lançar um disco a tempo, e contar uma mensagem a tempo, que não existe hoje, vindo de onde eu vim, tendo a cor que eu tenho. Eu não faço parte de um grupo social que me favorece pra chegar em algum lugar, tenho que lutar muito, muito para lançar um disco.

A gente tem que realmente pensar em utilizar as habilidades, um modo estratégico pra enfrentar esse mundo.

Então eu aproveitei mais uma vez que eu sempre aprendi desde pequeno que é transformar a dificuldade em uma linguagem. Assim como na web série que a gente fez também, a gente ia gravar um documentário, ia para as ruas, não deu para fazer isso, transformar em fotografias, arquivos, vídeos e depois com disco a mesma coisa. Tenha calma para separar as coisas e contar essas coisas dessa determinada maneira. Você vai perceber que é tudo parte de um tema só né, que é aquela história lá do começo do disco que, a nossa ancestralidade, realidade, a nossa intuição, são as coisas que a gente aprende sem essa inversão de valores, sabe?! Onde participante de reality show ganha mais que professor, essas coisas que a gente trata como coisas normais, mas não são normais entendeu. O que eu aprendi em casa é outra coisa. A gente tem que realmente pensar em utilizar as habilidades, um modo estratégico pra enfrentar esse mundo.

O álbum visual é o seguinte: Eu tinha a ideia do disco, realmente não pensava em gravar nenhum filme, e quando rolou a ideia de fazer um projeto na verdade não partiu de mim, partiu de Gatha e Caelí, que são produtoras, coordenadoras desse projeto. Principalmente desse audiovisual, como são pessoas muito próximas a mim, elas identificaram dentro das músicas uma construção, uma abertura para fazer isso e além do mais, as pessoas sempre vão falar comigo ‘Poxa você tem um lance visual muito legal cara, você é bonito’. Mas aí eu não gostava de fazer clipe, porque eu acho muito difícil fazer clipe, fico ‘Poxa mas eu não gosto de tantas coisas’, que aí não queria fazer, ainda mais algo tão pessoal. Tem que ser uma coisa muito próxima e foram amigos que fizeram, juntaram e fizeram esse filme.

Foi maravilhoso porque eu pude realmente ter uma terceira possibilidade pra contar essa história. Mesma coisa que falei de energia, ancestralidade que a gente encontra nas periferias, toda uma energia pra superar, que modifica a realidade… Mas eu nem gosto de contar muito essas interpretações. Essa linguagem documental é porque faço uso dessas imagens, das pessoas que convivem, cara, uma pira sabe?! Que ela mora na cabeça, por exemplo: Meu pai ele é pedreiro, e é meu pai que aparece no vídeo, batendo martelo e fazendo a massa e eu eu pensei justamente naquela conversa contigo que tô falando com você agora, dessa coisa arrogante, chegou pessoas por exemplo, que eu tava em São Paulo uma vez e alguém falou comigo ‘Pô você mora em Valéria, seu pai é pedreiro, mas você é genial, como ele entende o que você faz? Não tem como né, ele não entende né?’

Eu fiquei pensando nisso, uma coisa que parece bobagem mas é muito real, eu comecei a pensar e querer transformar isso numa imagem mesmo, onde eu tivesse dançarinos pretos, e você pode imaginar de onde eles são, a dança da colher com a dança do pedreiro, porque quem vive e convive, os meus amigos que fazem esse trabalho, vão mandar pra mim ‘Caramba, eu sempre pensei nisso, a imagem da construção, uma coisa realmente com um fundo poético, porque é uma construção e existe movimento, existe um ritmo para fazer aquilo’.

Comecei a pensar nisso e pensar também, imagens que eu achava que eram fortes, que tinham a ver com esse discurso e com os outros também ligados à nossa gente, valorizando essas coisas, eu comecei a pensar em minha vó e você vai ter imagem das pessoas no rio, essas coisas são coisas que eu vivi, coisas que a gente vive, me traz essa coisas, pequenas partes da infância. É lembrar do que realmente importa, e tem essa coisa toda de me trazer para essa ficção mesmo. É engraçado como as coisas se misturam nesse filme não tinha outro jeito.

S.O.M: Essa pessoa que te disse isso é totalmente descolada da realidade…

G: E isso é muito comum, até pessoas que eu conheço, artistas, pessoas assim que fazem, que é difícil de entender. O preconceito se antecipa a qualquer coisa, cara. Algumas pessoas vivem inferiorizadas por não ter certas roupas, ou não morar em certo lugar, mas elas estão além, elas estão muito além delas. É como minha mãe me falar que a família é onde você se sente bem e a minha amiga de São Paulo, num jantar na casa dela, no mesmo dia alguém bater na cara de alguém porque tava com a blusa tal…  Essa crise da classe média alta, é isso. E “Joias” é uma música que fala disso, eu fiz essa música por isso também, porque é aquela coisa chegar em certos lugares, as pessoas realmente não dão conta desse descolamento da minha realidade, assim que é uma bobagem…

Você viu, o cara, aquele lá de Valéria, é um cara que tem nada a ver, é o que me olhou e falou do ser artista, de ser um cara que vai contar isso, a gente julga muito a genialidade das pessoas pelo que elas têm.

S.O.M: Como você sente que mudou sua cabeça desde quando começou?

G: Não sei se a coisa ficou mais séria, ficou muito mais pesada, a gente repara que a violência aumentou, a violência contra a população negra, contra as mulheres, as coisas não melhoram e ir para São Paulo, tá longe de casa foi muito importante para me reconhecer mais ainda enquanto uma pessoa negra, nordestina. Assim ver como são as coisas e esse tipo de coisa modificou um pouco meu jeito de compor, fazer minhas coisas sabe? Porque eu acho que eu sempre falei, nunca vou levantar bandeira e nunca vou desfalar nada que eu vivi. Eu também não gosto do tipo de música política que parece texto de Facebook, é chato, você tá falando uma coisa certa do jeito errado, cala a boca. É tipo isso, e aí cara mas isso começou a mexer de uma tal maneira que eu comecei a pensar para quem que eu tava fazendo minhas músicas, assim pela primeira vez eu comecei a pensar se os meninos lá de Valéria iam ouvir, se aquele cara que falou para mim que eu era artista ia ouvir, acho que esse é um ponto principal nesse trabalho. Porque para mim não vale a pena, não teria valido a pena se eu não tivesse recebendo mensagens e telefonemas de amigos meus de Valéria, que não via a muito tempo, e não falava muito tempo.

Não adianta para mim mais… Não faz sentido só ser aquela galera que, nada contra, mas sabe a galera do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas, que sempre esteve com “Nebulosa Baby” na mão e jogou pro ar, pessoas que não ligam para estrela que tá ali no fundo, eu queria fazer para as pessoas que precisam, que necessitam, como eu precisei um dia.

Eu fico preocupado porque se tá ruim para quem tem um quintalzinho, uma varandinha e fica em casa imagine para quem não tem né?!

E eu comecei a pensar nisso fazendo esse disco cara, porque traz essas coisas pra gente, que gravou coisas lá em Jequié né, e as crianças de lá da comunidade participaram, tudo com muito cuidado, mas participaram lá, eles queriam que eu tocasse, começaram a falar ‘Eu quero ser isso, eu quero ser você’, cria uma realidade para essas pessoas entendeu, que elas não vão saber que existe cara, elas não vão saber que vão se dar mal entendeu. Porque o negócio é esse, gira para isso, e tô muito feliz de ter conseguido fazer isso, não ter levado isso para essa comunidade.

Vou lá depois, semana que vem provavelmente, falar para eles, assistir junto com eles mais contente. Você ir lá e voltar aos lugares, e tudo que as pessoas lá em Santo Amaro, minha parte de Santo Amaro da Purificação, quando eu vou lá eles falam ‘Vocês vem aqui tira uma foto leva para galeria, desconhece que nós somos artistas também’. Eu fico feliz por isso que ele tá chegando nesse momento tá falando com você né, quer dizer realmente consegui pensar nisso e a primeira vez… Eu sempre quis me distanciar muito de qualquer coisa assim muito ideológica, fazendo uma certa análise, até é um jeito de fugir de certas questões que me incomodam, que é doloroso pra mim também, acho que “Japanese Food”, por exemplo, apesar de ter suscitado algo ali, é diferente, acho que agora que comecei a pensar, discutir isso mesmo na prática sabe?! Realmente olhar essas crianças, de me ver mais gurizinho, acho que eu tô mais comprometido com a realidade.

Não me interessa mais nenhum contato que não tenha isso, não me interessa nenhum jornal, não me interessa nenhum artista, eu posso ficar ali no meu canto.

S.O.M: O que você ouve quando tá no seu canto?

G: Cara, essa semana tô ouvindo muito o “Stone Flower” do Tom Jobim, um disco que eu gosto muito e o Miles Davis, “Kind of Blue”, e do nada comecei a ouvir de novo. Você vai achar muito engraçado, o disco italiano do Renato Russo, (risos), “Equilíbrio Distante”, é muito interessante aquele bagulho. Basicamente tô ouvindo isso essa semana, semana que vem eu vou mudar. Tem coisa que nunca sai, Milton Nascimento, Don L, três anos ouvindo sem parar Don L, Jup tenho ouvido bastante, e Drake que é um cara que ninguém aguenta mais aqui, porque não paro de ouvir. (risos)

Quem quiser entender as coisas todas né, para quem quiser entender realmente o que tá rolando, acho que o melhor a fazer é assistir web série primeiro, tem os quatro episódios lá e trás essa produção do disco né, mas também fala de uma mensagem que você vai ouvir no disco depois quando você pegar o álbum, e no filme né essa mensagem tá materializada, essa energia toda. É importante para a galera que vê todo esse Megazord, porque é um jeito de entender o tamanho disso, entender a mensagem e toda a parada.

Escrito por

Jornalista, escreveu para Hits Perdidos e Música Pavê, atualmente Editor em Sistema Operacional da Música, S.O.M.

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