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Entrevista

INSTITUTO CULTURAL SEMIFUSA LANÇA SELO DE DISTRIBUIÇÃO MUSICAL

Iniciativa visa oferecer melhor suporte aos artistas e bandas independentes periféricas

Instituto Cultural Semifusa
Foto: Rodolfo Ataíde

O Instituto Cultural Semifusa é uma entidade sem fins lucrativos que existe há 12 anos e visa estimular o protagonismo cultural e contribuir para o desenvolvimento social e intelectual de jovens nas periferias de Ribeirão das Neves, região metropolitana de Belo Horizonte.

O Coletivo está integrado a Rede Internacional de Periferias, a Rede de Afroempreendedores da RMBH, a Rede dos Trabalhadores da Cultura de Ribeirão das Neves e ao Circuito Metropolitano de Saraus, desenvolvendo atividades culturais como, a Feira das Artes da região metropolitana, o Sarau do Ribeirão, o Festival Pá na Pedra de Artes Integradas, entre outros.

Visando ampliar a sua atuação na música e oferecer melhor suporte às bandas independentes da região, o Instituto Cultural Semifusa lançou nesse ano de 2021 o selo Semifusas Ecos. Já em seu primeiro mês, um single e um álbum foram lançados a partir do selo como trouxemos aqui.

O primeiro foi o single “Início” da Banda Piso Molhado:

E o segundo lançamento foi o álbum “Luzir” do músico Marcos Brey que você pode conferir abaixo:

Marcos Brey é músico, sociólogo e também cofundador do Instituto Cultural Semifusa e do Selo Semifusa Ecos. Conversamos através do zoom com ele e a partir da metade da entrevista, também com a Alana Januário que se juntou a nós e é cofundadora do Semifusa Ecos, sobre trajetória dentro do Instituto Semifusa e o processo de lançamento do selo.

Entrevista

SOM: Brey, fala um pouco de você para nós…

Marcos: Estou desde o começo da ideia de fundação do Coletivo Semifusa, é uma história de 12 anos, e hoje se tornou um instituto, a gente se formalizou. Neves é uma cidade que é muito rica culturalmente, tem umas características muito legais e foi um território fértil pra gente trabalhar com cultura. Por causa disso, acabei estudando ciências sociais, eu sou também professor de sociologia. A música e a cultura me levaram para a ciências sociais e agora eu retorno para cidade transformado por uma coisa que a própria cidade provocou em mim, que foram questionamentos e vontade de transformação. Nesse meio de caminho a gente conheceu muita gente, muitos lugares. Cidades como Contagem, Santa Luzia, Sabará, cidades eu se assemelham a Neves, a gente uniu forças por muito tempo e agora estamos voltando nesse processo de produção cultural.

SOM: E como se deu o seu processo de inserção na música? 

Marcos: Minha família sempre foi muito musical, né? Então, eu sempre tive um contato próximo com a música, mesmo não tendo contato com instrumentos convencionais e aulas. Semana passada eu tava conversando com uma amiga e lembrei que na sexta série eu decidi que eu queria cantar uma música na sala, era aula de inglês. Sempre gostei muito de Pink Floyd e eu decidi cantar uma música deles na aula de inglês. O professor não havia entendido nada, nem meus colegas, mas me incentivou, me cedeu minutos das aulas dele e eu cantei. Adorei essa sensação e talvez essa tenha sido a minha primeira apresentação em público.

Eu nasci em BH e vim para Ribeirão das Neves com 11 ou 12 anos, a minha formação artística se dá aqui. Aqui a cultura é efervescente. Cresci e decidi que eu queria ser músico. Fiz banda na escola, toquei muito em barzinhos a noite e depois de uns anos veio o coletivo Semifusa. Tentei entrar na faculdade de música, mas não era a minha porque era muito mais erudito e eu sou da música popular. Então, percebi que eu não precisava fazer faculdade de música para ser artista e decidi priorizar outras questões que estavam mais latentes, como os problemas sociais que também existem aqui na localidade.

SOM: Como foi o processo de escolha de lançamento do selo?

Marcos: Eu estou num processo de lançamento a minha carreira solo e enquanto artista eu tenho sentido na pele alguns desafios. Percebi nesse tempo que a dificuldade de maioria dos artistas independentes não é a produção e sim a distribuição. Na última edição do Festival Pá na Pedra do Coletivo Semifusa vimos que 90% dos inscritos tinham videoclipe gravado, músicas lançadas nas plataformas e o desafio era a distribuição desses trabalhos.

O Talles Lopes foi uma das pessoas que incentivaram o desenvolvimento dessa iniciativa, porque dentro desses doze anos de Semifusa o que a gente tem de mais valioso é a rede que nós formamos. Assim, decidimos criar o selo para priorizar a distribuição do trabalho de artistas periféricos e metropolitanos.

SOM: E vocês já vêm com dois lançamentos, né? 

Marcos: Sim. Eu convoquei uma reunião e conversei com alguns artistas. Como um bom pai, eu achei que deveria me lançar também a partir do selo já para experienciar o processo. Havia uma banda que estava produzindo bem próxima, a Piso Molhado, que veio também conosco e já se colocou como parceira do Selo e a gente decidiu se lançar juntos. Ambos somos projetos financiados pela Lei Aldir Blanc e está sendo muito massa. Já conseguimos desenhar como vamos trabalhar. Alguns veículos de comunicação, rádios já entraram em contato com a gente pedindo para enviar para eles o material dos artistas veiculados ao Selo.

SOM: Vocês já tem um recorte específico de artistas e gêneros musicais que gostaria de trabalhar?

Marcos: A característica do selo é oportunizar para onde há escassez.

O papel social do Semifusa é criar espaço para artistas pretos, artistas periféricos e gêneros que não têm tanto visibilidade e que são, inclusive, criminalizados como Rap, o funk.

Uma vez no festival que fizemos, o Pá na Pedra, houveram músicos que nunca haviam subido no palco anteriormente. A gente tem o intuito de dar visibilidade e criar espaço para esses artistas que como nós não foram aceitos em diversos espaços. Nada vem de mão beijada. Depois que você já é artista renomado, é mais fácil. É mais difícil ainda quando você é artista periférico.

Alana: Eu acho importante essa fala do Brey porque tem toda essa construção e o mais legal é que foi tudo no desejo de construir algo que fosse característico. Decidimos criar esse ambiente onde pudéssemos nos sentir cem por cento satisfeitos. Uma coisa que sempre questionei é o quanto há artistas muito bons que não possuem espaço de divulgação. É um espaço também onde mais pessoas possam ter acesso a esses trabalhos que são maravilhosos.

Marcos: Cada vez mais a gente tem que pensar em ganhar dinheiro com arte e isso é um tabu na sociedade. Qualquer artista lida cotidianamente com essa questão. A cultura como um todo não é vista como uma área profissional. É vendido muito o glamour e as pessoas no geral acham que o músico só faz sucesso quando vive esses espaços da grande mídia e glamourizados. Muitos artistas toca na noite e se sustentam assim, dão aula, dentre outras coisas. Não podemos ter medo de vender a nossa arte, de colocar preço no que se faz. É um processo de autoestima compreender que o trabalho é bom o suficiente para ser remunerado por isso. E o que eu quero com o selo também é desmistificar isso para essa galera metropolitana e periférica.

Alana: É importante demais essa fala, é uma questão e autoestima mesmo. Estruturalmente somos esmagados por essa desvalorização ao nosso trabalho. É muito difícil a galera ter essa confiança de dar preço ao trabalho, de se sentir digno. Então, eu acredito que a nossa linha venha a contribuir muito com a galera a acreditar na veracidade daquilo que faz e valorizar tano quanto vale. Não é só valor financeiro, é dignidade. É uma desconstrução muito importante.

 

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Acredito no poder de transformação social da música e busco conhecê-la desde o seu contexto, nas narrativas periféricas de produção em cultura e na história que não é única. Comunicadora e criativa, garimpo vinil vez em quando.

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