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Entrevista

KAROL CONKÁ: “NUTRA SUA CORAGEM, SEM ELA É DIFÍCIL”

Conversamos com um dos maiores nomes do rap nacional de sua geração

Karol Conká
Foto: Lana Pinho

Nascida em Curitiba, de origem humilde, Karoline percorreu um longo caminho até ganhar os palcos do mundo sob a alcunha de Karol Conká. Mulher, negra, bissexual, mãe aos 19 anos e artista de um gênero com predominância masculina; nenhum preconceito pôde a impedir de se tornar – indiscutivelmente – um dos maiores nomes do rap nacional de sua geração, sem distinção de gêneros. 

Conká abriu portas para uma nova abordagem no cenário do hip-hop brasileiro ao criar uma linguagem híbrida de mensagem política e humor idiossincrático envolta á ritmos que refletem a globalização, somando o regional ao estrangeiro e, claro, tudo isso apresentado em visuais excêntricos que evocam a opulência e – em última instância – o espírito de improviso do brasileiro. 

Karol Conká

Foto: Divulgação

No início de 2021, durante sua participação histórica no Big Brother Brasil, a artista foi eliminada com maior índice de votação já registrado no reality. Muito além do tabloidismo, das críticas vindas de personalidades midiáticas, dos memes ou das graves e inúmeras ameaças à sua família, Karol Conká protagonizou um triste episódio que detém teor social pelo que ilustra em sua essência: o ódio velado à mulher negra. 

Atualmente, a rapper usa suas mídias sociais para promover discussões sobre saúde mental com especialistas no programa ‘’Vem K’’, ao mesmo tempo que prepara o lançamento de seu aguardado terceiro álbum de estúdio, que sucede os trabalhos do aclamado Ambulante (2018), produzido por Boss In Drama. Até agora, conhecemos apenas o lead single “Mal Nenhum”.

O S.O.M conversou com Karol Conká sobre o que vale no final das contas: a música! O resultado você confere agora.

Karol, eu acho muito interessante como você transforma as coisas ao seu jeito, “Dilúvio’’ e “Mal Nenhum” são músicas que tem essencialmente um ar de superação, mas você não perde o seu estilo, nem essa ginga que você tem no flow, mesmo quando é pra falar de vulnerabilidades. Eu queria saber mais do seu processo de composição, como acontece?

Antes de tudo, eu estou muito feliz de estar aqui! Sou uma grande fã do Mídia NINJA! Mas então, meu processo de produção musical é bem simples mas complexo ao mesmo tempo… Eu crio no improviso do que eu sinto, do meu momento. Foi o que aconteceu na produção do meu novo álbum com o RDD, ele, produzindo na hora, e eu, escrevendo simultaneamente ali com ele… Eu me inspiro muito no que eu tô sentindo e penso em como isso vai soar musicalmente. Pra mim é muito simples, é um processo quase que prático, como se fosse respirar mesmo… Eu adoro música, então pra criar melodia ou criar um verso, eu vou mais na espontaneidade.

Seu primeiro álbum foi todo produzido pelo Nave Beats e o segundo todo pelo Boss In Drama. Você já lançou duas mostras desse novo projeto, uma produzida pelo Leo Justi e a outra com o RDD, além de que você postou uns stories com o Boss In Drama também. É um disco com múltiplos produtores?

Esse terceiro disco é todo produzido pelo RDD. Continuo seguindo a linha de um produtor por álbum. E tudo aconteceu bem natural também… Quando conheci o RDD a gente tava com a proposta de fazer uma música, só que deu um ‘’match’’ tão grande que a gente falou assim ‘’Vamo fazer mais uma?!’’, aí num dia a gente tinha feito 3 músicas. Ai eu falei ‘’Cara, vamos fazer um álbum?’’

Eu estava pensando em fazer um álbum só ano que vem, parar pra produzir, etc. Esse ano queria pensar só em lançar alguns singles, mas aí foi tão legal a energia aqui, que em duas semanas a gente conseguiu produzir 12 faixas! Num turbilhão vivendo aquele momento de dilúvio, eu consegui fazer 12 músicas em duas semanas.

Aquele trecho que viralizou, em que você canta “sessão de hipnose com a minha raba’’, é uma música do novo álbum?

Não, não é! Mas essa música é demais! É muito gostosa! Só não foi lançada até agora porque eu acho que não faria sentido com meu atual momento… Eu gosto de estar inteira pra cantar, me apresentar e não faria sentido eu chegar hipnotizando ninguém com minha pequena raba agora (risos). Essa música foi produzida pelo WC, eu pretendo lançá-la, mas ainda está sem data definida.

Todos seus álbuns são bastante biográficos, mas eu pressuponho que esse novo será o disco mais pessoal da sua carreira até o momento, não é?

Ele está bem mais pessoal, mas todos são bem pessoais, todas minhas músicas são… Mas assim, é como se eu tivesse falando de um outro lado, eu estou cantando um lado mais íntimo, um lado que eu não expunha tanto.

Nesse segundo lançamento pós-reality, ‘’Mal Nenhum’’, tem pessoas que comentam ‘’A Karol tá aí! Nossa Karol tá aí! Ela veio na canetada!’’; as pessoas ligam muito pra ideia de ‘’poder’’, eu também fazia isso… Mas uma das coisas que aprendi é que a vulnerabilidade, ou a entrega para a tristeza e o luto, também fazem parte de uma força. Não é porque eu canto uma música que fala de dor, uma música que eu gravei chorando, que eu não esteja forte. Então eu passei muito tempo escondendo esse meu lado mais vulnerável, e mostrando mais a camada do ‘’poder’’, a camada mais empoderada e esse lado vulnerável eu guardava pra mim. Aí quando ele foi exposto, eu não vi mais sentido em não cantar sobre esse meu lado.

Vou ser um pouco abusado aqui e vou perguntar, das que ainda não foram lançadas qual você tá mais ansiosa pro público escutar?

Eu sinto que meu público vai gostar de ‘’Subida’’! Tem um trecho dessa música no documentário, mas é só um trecho… Não dá pra ouvir ela inteira! Mas é muito legal. É uma das minhas favoritas. 

Karol, a solidez não só musical do seu trabalho sempre me chamou atenção: os visuais, figurinos, fotografia, direção de arte, etc… Como acontecem esses visuais? Como surgem as ideias?

Tudo da minha cabeça! Eu vou sentindo. Igual o lance do cabelo: eu olhava no espelho e falava ‘’Eu não tô conseguindo me conectar’’. Eu acho que tudo que está no interno acaba se externalizando, seja a maneira de se vestir, de se comportar… todos nós somos assim.

Eu mudei o cabelo, e eu sempre mexi muito no cabelo. Todas as mudanças capilares estão ligadas a mudanças extraordinárias que acontecem na minha cabeça, na minha vida, no meu cotidiano. Só que dessa vez rolou uma mudança diferente: um mergulho de autoconhecimento assistido. Eu sempre fui uma metamorfose ambulante, adoro ser assim! Acho que estamos todos aqui pra evoluir e eu nunca gostei de mesmice, né?! Então, acho que pra mim o visual está muito ligado a minha arte e as coisas que eu vivo. 

 E agora eu tenho trabalhado mais um minimalismo, mas é um minimalismo ‘’conkálistico’’ (risos).

 E quais são suas referências, Karol? O que e quem te inspira?

Musicalmente, eu escuto de tudo um pouco! Eu sempre tive dificuldade de apontar uma inspiração pras músicas, porque acontece no ‘’feeling’’, ali na hora… Mas eu posso dizer que minha inspiração vem de Timbalada! Até hoje eu amo Timbalada! 

Eu não pego um beat ou um clipe e falo ‘’quero uma coisa assim!’’ quando alguém pede uma referência. Igual eu fiz com Boss In Drama em “Kaça”, a gente tava no meu apartamento, eu fechei os olhos e falei pra ele “Eu estou com uma capa gigantesca, tem várias mulheres junto comigo e estão querendo caçar a gente porque a gente tem argumento!” e aí ele foi fazendo o beat e eu falando “Isso, agora coloca um trovão aí! Agora vem o Timbalada!”

E como tem sido criar durante a pandemia? Com todo esse desgoverno?

É um desânimo constante. Tem sido difícil se sentir feliz… Parece que a gente nunca mais vai ser feliz. É essa a sensação.

É difícil achar graça em alguma coisa sem pensar no que todo mundo está passando, não é?! Então eu procuro me informar, não me alienar, não me deixar consumir pelo sentimento de ira por me sentir impotente, não poder fazer nada além de usar minhas redes para levar informação e cuidar de mim e dos outros. 

Eu procuro ter meus momentos de mentalização todos os dias, antes de dormir e quando eu acordo. O jeito que eu faço pra aliviar essa ‘’bola de tristeza’’ é ver o que eu posso fazer, o que eu tenho de melhor em mim, o que eu tenho a disposição pra fazer algo que possa contribuir de alguma forma!

Karol Conká

Foto: Divulgação

Pelo menos, no meu caso, a dor não me impede de compor, de criar: ela abre caminho para a elevação da minha alma! Nesse momento eu falo ‘’Eu tenho esse estúdio, eu tenho voz, eu tenho esse equipamento e eu vou focar no que eu tenho, no que eu posso fazer agora’’, é sobre tentar transformar essa dor em algo que possa ajudar a dissolver a angústia. 

Que artistas do hip hop/rap atual você tem curtido?

Olha, eu fico ouvindo The Supremes no vinil da minha casa, escuto muitas coisas antigas! Da atualidade, eu tenho escutado o álbum da Pabllo Vittar, eu gosto de Duda Beat, Jaloo, Kdu dos Anjos, LinikerMac Julia é muito boa! Ebony e Cristal também! Essas são as nacionais que não saem daqui, eu escuto muito!

E você tá com esse projeto muito bacana, o “Vem K”, abordando questões de saúde mental e outros temas importantes. Como surgiu a ideia desse projeto?

A ideia surgiu assim que eu percebi que eu precisava cuidar de mim, eu precisava quebrar o tabu da terapia. Porque eu amo falar e quebrar tabus, eu amo discutir questões e eu percebi que tinha outro tabu em mim: a questão da terapia.

Eu nunca havia feito terapia e durante o reality eu percebi que eu precisava olhar mais pra mim, aí eu parei tudo e fui em busca de profissionais da saúde mental para me situar, me sentir mais centrada e entender porquê eu explodi e perdi o controle da minha emoção e me desequilibrei. O porquê de tantos porquês. Então eu fui tentar entender isso da melhor maneira possível, com amparo da minha equipe. E aí eu pensei: ‘’Já que essa minha camada mal resolvida foi exposta, por que não tratar disso e levar essas descobertas para as pessoas que me acompanham, que não desistiram de mim e estão esperando uma resposta?’’

Fazer terapia é bom, as pessoas têm essa ideia de que terapia é pra quem tá ‘’maluco’’… Aí você vê que tem muito desrespeito com quem tem problemas mentais ou problemas de animosidade. Uma das coisas que a gente mais viu, foi as pessoas me chamando de louca, etc. Fui atrás de respostas, tive um desequilíbrio emocional, como milhares de brasileiros na pandemia. 

Eu sempre recebi mensagens na DM falando ‘’Karol, suas músicas me ajudam a lidar com a ansiedade!’’… Mas eu não sou uma profissional da área, então esse programa, o Vem K, ele é pra isso: pra gente ouvir o profissional da área de saúde mental! Eu tô ali mais como uma ouvinte, representando o telespectador que também tem dúvidas, então tá sendo muito legal poder passar essas informações para as pessoas.

“Nutra sua coragem, sem ela é difícil”, Karol Conká.

E é massa ver como tudo coexiste no seu universo; esses temas de auto-reflexão estão bem presentes nos materiais que você lançou. “Saúde Mental” é o tema do novo álbum? 

Não, não é o tema do novo álbum… É legal você ter comentado isso, porque o tema saúde mental está em tudo, sabe?! Para que eu consiga dar essa entrevista, gravar minhas músicas, etc, é sinal que minha saúde mental está ‘’ok’’ depois de tudo que aconteceu. Poderia estar mais abalada se eu não tivesse ajuda profissional. Então o que eu posso dizer é que esse álbum vai falar de experiências, contatos e sentimentos. 

Karol, você é uma mulher negra e artista num país como o Brasil. Não é novidade pra ninguém sua trajetória fantástica e quantas barreiras você teve de superar para chegar onde você está hoje. Que conselho você daria para quem sonha em viver de arte nesse país antiarte?

Nutra a sua coragem! Sem a coragem é difícil. Tem que ter coragem pra mostrar sua arte, coragem para fazer sua arte, para expor sua arte, coragem pra entender que pessoas não entenderão sua arte e tem que ter coragem para ouvir vaias e aplausos. Coragem para estar em cima, coragem para estar em baixo! A coragem é a dose inicial.

 

Ouça + de Karol Conká

Escrito por

Gouthier é jornalista cultural, artista audiovisual e pesquisador em direção de arte fonográfica.

1 Comment

1 Comentário

  1. Heigor

    22 de julho de 2021 at 19:57

    Karol ainda tem muito a mostrar, ficou claro com esse papo. Mto boa entrevista!

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