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Ludmilla: “Respeita nosso funk, nossa cor, o nosso cabelo”

Fala vem em momento de ataques racistas por parte de participantes do Big Brother Brasil

Ludmilla
Foto: Chico Cerchiaro

A cantora Ludmilla bombou a internet com a sua declaração na festa do reality show Big Brother Brasil. A declaração que dá nome a esse mini artigo é uma espécie de força motriz ao povo preto, foi carregada de tanta energia que no dia seguinte as redes sociais estavam tomadas com vídeos da cantora mandando uma mensagem contra o racismo, cheia de vigor.  

Nos últimos dias vimos que de fato a justiça brasileira não foi feita para defender o direito das pessoas pretas. Em 2016 no Rio de Janeiro teve início o processo de injúria racial, promovido pela cantora em desfavor de uma senhora, já de idade avançada, que comparou o cabelo da artista com bombril em rede nacional.

Para a tristeza da população preta, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, não quis ver o racismo escancarado na frase da senhora que chamou o cabelo da cantora de “bombril”. 

A ideia de inferiorizar o outro a partir de símbolos físicos já foi muito estudada na academia, a brilhante professora da Universidade Federal de Minas Gerais, Nilma Lino Gomes, tem um artigo de 2012 sobre o tema “Trajetórias escolares, corpo negro e cabelo crespo: reprodução de esteriótipos ou ressignificação cultural”.

“Alguns se referem ao cabelo como: “ninho de guacho”, “cabelo de bombril”, “nega do cabelo duro”, “cabelo de picumã”! Apelidos que expressam que o tipo de cabelo do negro é visto como símbolo de inferioridade, sempre associado à artificialidade – esponja de bombril – ou com elementos da natureza – ninho de passarinhos, teia de aranha enegrecida pela fuligem – .

A crítica ao cabelo das pessoas pretas é somente mais uma das formas de desumanização dos negros. E por isso ninguém deveria desrespeitar a aparência do outro atualmente, principalmente se o outro tiver sido escravizado durante séculos no mundo todo, exclusivamente pela aparência. É muito sórdido saber que pessoas eram vistas como mercadorias por suas características físicas, e utilizar isso nos dias atuais como forma de manifestação.

É importante lembrar que as pessoas pretas foram escravizadas a partir da aparência, e uma das formas de manter a distância social entre pessoas brancas e pretas desde a época da escravização é a desumanização das características físicas das negras e negros. Por esta razão, é desumano criticar a aparência dos pretos, principalmente se durante séculos a aparência foi a razão de exploração política e econômica dos povos escravizados.

“Durante séculos de escravidão, a perversidade do regime escravista materializou-se na forma como o corpo negro era visto e tratado. A diferença impressa nesse mesmo corpo pela cor da pele e pelos demais sinais diacríticos serviu como mais um argumento para justificar a colonização e encobrir intencionalidades econômicas e políticas. Foi a comparação dos sinais do corpo negro – como o nariz, a boca, a cor da pele e o tipo de cabelo – com os do branco europeu e colonizador que, naquele contexto, serviu de argumento para a formulação de um padrão de beleza e de fealdade que nos persegue até os dias atuais” (GOMES, Nilma Lino – Trajetórias escolares, corpo negro e cabelo crespo: reprodução de estereótipos ou ressignificação cultural, 2002)

Na mesma sintonia da senhora que ofendeu a cantora Ludmilla, Rodolffo – participante do reality -, comparou o cabelo de João a uma peruca de homens das cavernas. Um verdadeiro absurdo! O participante que teve seu invejável Black Power comparado a peruca de plástico de homem das cavernas chorou no programa, bem como Camilla de Lucas, outra confinada, negra, que ainda teve uma fala importante na eliminação de ontem (06/04): 

 

Antes de entrar ao vivo a cantora Ludmilla manifestou solidariedade ao participante ofendido pelo Twitter. O show começou com a música antiga, da época da MC Beyonce, que já tratava sobre a temática dos cabelos, a canção “Fala Mal de Mim” teve seu clipe publicado em 2012 e um dos trechos da música já tratava o tema “fala mal do meu cabelo e da minha maquiagem, oh coisa escrota, pode falar a vontade”

A música das pessoas pretas na época da escravização chegou a ser proibida por ser uma forma de comunicação entre os escravizados. No site do Sistema Operacional da Música, no artigo “Baile Funk de Favela e com Alvará” há um capítulo exclusivo sobre a criminalização da cultura preta, com os exemplos históricos de anulação da comunicação entre os negros através da proibição de condutas relacionadas à música e ao tambor. 

Desde a época da escravização a musicalidade é uma das formas mais eficazes de comunicação do povo preto, e foi exatamente o que a cantora Ludmilla fez no reality show, comunicou com todo povo preto a potência da nossa aparência, – no meu feed hoje, só tem pretas e pretos reproduzindo a fala em êxtase -, a eficácia da mensagem através da música foi indiscutível, e hoje a massa brasileira reflete sobre o racismo esculpido na inferiorização das características físicas.

A artista fez ao povo preto mais do que o judiciário do Rio de Janeiro, pois além de um resgate da auto estima das pessoas pretas, também demonstrou quão inaceitável é nos dias atuais que inferiorizem as características físicas pretas, por mais que o judiciário carioca não tenha chancelado a necessidade de respeito a aparência preta, Ludmilla o fez através da musicalidade, em um dos programas de maior audiência da televisão brasileira, e com mais eficácia que qualquer toga. A cantora deslegitimou os racistas que ainda insistem em inferiorizar os corpos pretos, sem se atentarem que a escravização já chegou ao fim, e que essas formas de controle não pertencem mais a essa sociedade. 

Um recado direto para todas as pessoas que ainda se firmam nos símbolos de inferiorização do corpo negro surgidos com a estrutura escravagista “respeita o nosso funk, respeita a nossa cor, respeita o nosso cabelo”.  

 

Escrito por

Mãe, advogada, funkeira e mineira uai!!!!

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