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Luz, Câmera e som: Iza e as inspiradoras mensagens do clipe “Dona de Mim”

Foto: Reprodução

Texto por Filipe Rodrigues

 

Na coluna Luz, Câmera e S.O.M. teremos a oportunidade de mergulhar na estrutura visual que complementa a música e tudo que compõe essa manifestação cultural tão popular. A imagem está intimamente conectada com a música, seja em videoclipes, fotografias ou registros de apresentações ao vivo.

Aqui, tratamos do impacto cultural de clipes novos e antigos, da construção da identidade visual de diversos artistas, de como o audiovisual utiliza a música como parceira fundamental para trabalhar as sensações do público. Tudo de uma forma simples e acessível.

Para começar, que tal dar uma aprofundada em um dos melhores clipes da década de 2010? 

O ano era 2018 e Iza lançava “Dona de Mim”, faixa que também dava nome ao seu primeiro álbum. A música era basicamente um resumo do disco, uma canção que condensava todas as letras e assuntos, sem fugir de uma perspectiva política.

As dificuldades que a mulher negra enfrenta no dia a dia foram o foco da produção. O vídeo materializou a jornada de autoconhecimento e luta pelo fortalecimento da identidade feminina que a letra já trazia abertamente. Dirigido por Felipe Sassi, o clipe viajou por três histórias de personagens reais, rostos comuns, realidades conhecidas por milhares de cidadãs brasileiras.

O que pode ter escapado do conhecimento de parte do público é que as tramas encenadas ali foram inspiradas nas vidas de mulheres “de verdade”. Iza contou a história de reais para aproximar a mensagem dos ouvintes, o que obviamente foi uma escolha acertada.

“Dona de Mim” é tão carregado de mensagens que rendeu um mini-documentário chamado Mulheres Que Inspiram, para contar as histórias retratadas no clipe.

Uma delas, Josi Lima, foi uma inspiração abertamente assumida pela cantora na vida da própria mãe. Mulher, preta, professora de escola pública, Josi contou no documentário sobre experiência na rede de ensino e o racismo estrutural que teve – e ainda tem – que enfrentar todos os dias.

Já Bia Sabiá era uma estudante que descobriu estar grávida aos 18 anos, assim que entrou na faculdade. Criar uma criança e conciliar o papel de mãe com os estudos foi um grande desafio. Ela bateu um papo sobre maternidade e a democratização da arte de rua, que também faz parte da rotina dela. 

Marcella Maia, atriz que interpretou uma advogada no clipe, falou sobre o processo de identificação e autoconhecimento como mulher trans, além do progresso e das dificuldades profissionais pelas quais passou.

Todas essas narrativas, por mais distintas que pareçam, têm um desfecho em comum: a aceitação de ser quem elas são.

O mini doc está disponível no canal da Iza no YouTube:

 

“Dona de Mim” foi um clipe diferente do que Iza vinha produzindo até então. Não havia uma coreografia, o que deu um grande nível de liberdade para a cantora. Essa autonomia, na verdade, se fez presente em toda a produção, e foi possível sentir as mensagens que ela queria passar em todos os cantos.

Os figurinos não foram escolhidos por acaso. Nem teria como: um terno pichado com a palavra “mulher”, um kimono com a letra da música e um cinto com a frase “Dona de Mim”, por exemplo, foram marcas facilmente identificáveis. 

Além disso, devemos prestar muita atenção e reconhecer o valor das cenas em que Iza aparece com roupa militar. Às vezes, esquecemos que “militante” e “militar” têm a mesma origem. A semiótica dessa cena foi fortíssima e ainda é de arrepiar.

Se quiser dar uma olhada mais de perto, o canal da Warner Music Brasil tem um making of do clipe com interessantes cenas de bastidores e depoimentos dos envolvidos, como o diretor Felipe Sassi:

 

 

As locações também privilegiaram lugares reais para facilitar a conexão do espectador com o produto final. Transmitindo um senso de realidade na ambientação das tomadas, o clipe teve vantagem para focar em outros elementos importantes.

Além disso, os cenários em si possuíam significados próprios, como as referências no quadro da sala de aula em que uma das narrativas foi contada. Lá estavam escritas frases como: “53% da população brasileira é negra”, “você acredita que o Brasil é um país racista?” e citações com alusões ao Quilombo dos Palmares, aos navios tumbeiros e ao tratamento desumano dado aos escravos durante séculos de exploração.

 

Depois de contar todas as histórias, o final se deu em uma igreja, já que Iza não esconde o papel da religião na formação. No entanto, para não ter um viés excludente, o local foi retratado como um templo multicultural, sem fazer referência a nenhuma crença específica, simbolizando apenas um refúgio acolhedor para que todas as mulheres se sentissem bem-vindas. 

Apesar de a letra ser em primeira pessoa, o “eu” sempre significou “nós”. Ali, elas podiam ser quem queriam, livres de pressões, estereótipos e cobranças. Verdadeiramente “donas de si”.

Você pode conferir o clipe na íntegra abaixo:

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