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OKADO DO CANAL: “TÁ NA HORA DA GENTE CONTAR NOSSA HISTÓRIA”

Rapper tem importante trajetória de transformação social para além da música

Okado do Canal
Foto: Rodrigo Garcia

Okado do Canal apresentou em Junho ao lado do DJ Phino o EP “Desafio”. O trabalho traz vertentes do rap como trap, grime, boombap, tem um pouco de tudo, até uma faixa instrumental.

Ellan Barreto é o nome de batismo do Okado, rapper pernambucano, B-Boy, diretor artístico, educador, comunicador, enfim, são vários Okados como o músico conta: “Por muito tempo tentei separar esses vários Okados fragmentados em um Okado só, não é o Okado do break, do rap, é sem rótulo. Okado do Canal.”

O artista transcende a arte, atuando também como transformador social, mudando o meio em que vive, formando jovens da comunidade do Canal do Arruda, Okado é também, um líder. Uma coisa não é descolada da outra, afinal a música é um agente de transformação social, e em sua arte o rapper traz referências do meio em suas obras audiovisuais, partindo do Arruda para desenrolar narrativas interessantes.

Seus clipes trazem finais surpreendentes, daqueles em que não se espera pelo que vai vir. Aliás, é uma característica do próprio Okado, que tem relação com seu nome artístico, nas palavras dele:

“Logo quando cheguei do interior, voltei um dia, vi uma matéria sobre morte de Sabotage, aí eu pirei, vi o cabelo dele pra cima, espetado chamou minha atenção, as rimas, o beatbox. Um tempo depois apareceu uma kombi aqui anunciando que ia ter a Oficina de Hip Hop no Instituto Vida. Fui lá achando que era rap, como não tinha informação, era tudo Hip Hop, quando cheguei lá não era Hip Hop e Rap, era Hip Hop e Break. Vi os caras girando, aí eu pirei, ‘não quero cantar não, quero fazer isso aí, virar de cabeça pra baixo e parar numa mão’.

Eu tinha essa mania de fingir que ia fazer um movimento e fazia outro, aí os caras falaram ‘Deixa de ser ocado, se for fazer um movimento faz logo’. Ocado vem de ‘caô’. Tinha outros ocados também, aí quando se referiam a mim era Okado do Canal. Devo muito a minha favela em si, tudo o que aprendi aqui, o que conheci, talvez se eu tivesse em outras favelas aí que não tem informação, cultura, eu não estaria nem vivo, é uma forma de retribuir.”

 

O fazer rap em tempos de pandemia

S.O.M: Como tem sido seus dias?

Okado do Canal: Correria, como sempre. Só que agora durante esse lance da pandemia, realmente é o corre, queira que sim queira que não, minha coroa é autônoma, tô aí há um tempo tentando sobreviver da arte, e no final das contas acabou tendo esse peso, de manter a casa aqui e a coroa lá também. Tenho que pegar outras unha também, bico de pedreiro, corre aqui, corre ali e tal, a casa aqui também tá em construção, não pode parar. A vida do artista aqui no nordeste, Pernambuco assim principalmente, que tem muita cultura regional, e a gente que é do Hip Hop, pelo fato de ser uma cultura que não é daqui mesmo, os órgãos públicos não valorizam tanto. Tem que ser alavancado pelo público, por quem acredita no trabalho.

S.O.M: Qual a diferença drástica que você sente em fazer arte antes e durante pandemia?

Okado do Canal: É mais difícil, tem uma galera que pegou a manha das redes sociais, da parada de streaming. Como não tem show a galera tá tendo mais tempo pra produzir com qualidade, tem poucas pessoas que sacou a parada e conseguiu se dar bem, pegou um pouco mais a visão do mercado, porque é isso né no começo da pandemia não tem muito o que fazer vamos estudar. Sem show dificultou um pouco né?! Muita gente tem que fazer outros corre, já não tinha uma fonte fixa, muita gente já fazia isso, aí pandemia sem show é que lascou. Já vi muita live com cachê algo que dá pra manter você a família, o grupo ali, mas tem uma galera que tá se afastando. Bate uma certa frustração.

Meu forte é o show, trocar ideia com a galera diretamente, como tenho experiência no cinema, trabalhei com câmera, com edição, tô mais na área da atuação, aí facilita um pouco mais dialogar com a câmera, mas falta aquela energia de dar e receber ao mesmo tempo. A partir da live que eu fiz apareceu outras oportunidades, e consegui até manter um pouco, sendo convidado pra fazer outras lives, continuar produzindo.

Agente de transformação social

“Eu sou fruto de projeto social, tudo o que fiz na minha vida foi através do break, eu comecei a fuçar em audiovisual porque eu via os b-boy gringo, da Coréia, dos Estados Unidos, falava ‘vou aprender pra editar meus vídeos assim’. Comecei a colar numa oficina de vídeo Grupo Pé no Chão, meu foco era aprender a edição, mas primeiro tinha que aprender a câmera. Fizemos até o filme ‘Alto do Céu’. Foi por livre e espontânea pressão que eu atuei (risos), ninguém queria botar a cara, tinham vergonha e ficavam ‘bota Okado, Okado já canta, já dança’. Essa mesma galera que deu a oficina pra gente, voltou, Kurt Shaw e Rita de Cássia, aí eles voltaram pra cá com a ideia de fazer um livro, trabalhei um pouco com a pesquisa, é massa o livro, mas a ideia era só escrito, falei ‘era massa se fosse DVD’, a gente gravava mas transcrevia. Aí fomos amadurecendo e nasceu o Favela News, que partiu do livro ‘Cartografia da Favela’. Foi a minha inserção, comecei a fazer oficinas, as mães já começam a confiar na gente. A galera da periferia não tem tanto acesso à leitura.

Teve uma época que passei num bagulho doido, mesma mãe que falava pro filho não andar comigo hoje traz o neto e diz ‘Cuida aí’, isso pra mim é gratificante.

S.O.M: Tá dando pra mobilizar a galera?

Okado do Canal: Teve a Usina da Imaginação, tinha um orçamento pra fazer uns filmes, aí veio pandemia, pensando junto com os coordenadores como estava a questão de desemprego na comunidade, principalmente a galera que trampava como autônomo também, fechamos com seis costureiras e demos máquinas pra elas fazerem máscaras e mandar pros caras do carro do ovo. A gente uniu uma coisa na outra. Enquanto a gente fazia, levava pras costureira fazer, distribuía com os caras que estavam indo para a rua. Começamos a fazer uns vídeos, pra gurizada que tava em casa mesmo, pra forçar a imaginação com os pais que estavam em casa.

A galera fala pra não aglomerar, mas na favela, a própria família já é aglomeração.

Tem casa que quatro pessoas dormem numa cama de casal. Agora a gente tá na fase de retomar, pensar coisas novas, pra poder tipo aprovar aí e botar pra frente, voltar a fazer filmes e tal. Deu uma queda, a gente fazia atividades com primeira infância, crianças, adolescentes, com pais sobre paternidade.

S.O.M: É as coisas funcionam melhor no contato do dia a dia…

Okado do Canal: Não chega internet né homem?! Tem uns que tem celular, tem internet, mas tem cinco, seis pessoas em casa, meio complicado. A gente conseguiu aprovar um projeto pela Lei Aldir Blanc, fizemos oficinas de cinemas, pra jovens e adultos, mas uma galera que consegue se cuidar, coisa que com criança não dá. A gente até ia fazer cine tubes, mas ficamos com medo, criança daqui pouco tá jogando pipoca, sem máscara, e eles são quem mais sofre com isso, ficaram sem escola, sem ver amigos, ou brincando na rua e as pessoas julgando como se eles entendessem alguma coisa. Mãe que tem que trabalhar, não tem como ficar com o filho.

S.O.M: Estava falando com Léo da Bodega sobre a Lei Aldir Blanc…

Conheço o Léo, tamo preparando uma bombinha aí. (risos)

S.O.M: Eita (risos)… Ele disse sobre a Aldir Blanc e como é difícil ficar sabendo que tá rolando um edital. Um artista de rua por exemplo, fica complicado…

Okado do Canal É eu mesmo parei na quarta série, e aí tinha um edital de aquisição de bem, e o que acontece: botamos uma oficina num edital de aquisição de bem, ainda bem que deu certo. Tem que explicar como é, tem que ter pra artista de rua, pra periferia também, tem essa questão da linguagem acessível, tem que ter uma linguagem abrangente. Mas tem essas observações, pô, se fosse algo mais rígido como o FUNCULTURA, meu irmão, não tinha nem passado. Tem muitos moleques daqui que é que nem eu, ou você trabalha ou você estuda, principalmente quando você é o mais velho. Eu tenho seis irmãs e um irmão, e eu sou o mais velho de casa.

S.O.M: Tem menos editais com esse governo também…

E mais o extermínio em massa nas periferias, não só no Rio. A negligência é pensada e planejada.

Okado do Canal: Tem várias pessoas da favela que ainda defendem.

O jornalista Ariel Freitas fez uma reportagem para o Favela em Pauta, mostrando como as notícias falsas nas favelas são uma questão de saúde pública. E ainda traz ao final do texto agências de checagens, dentre elas a “Caiu na rede: É fake?”, projeto de parceria da Agência Lupa com o Voz das Comunidades.

 

S.O.M: De que forma se dá seu processo criativo?

Okado do Canal: Agora eu tô tentando ir nessa onda de pensar e escrever, depois construir o beat, já com o trampo agora com o Phino, inclusive nesse EP, foi muito isso eu sentia o que o beat queria dizer, ‘Ah isso vou tirar, mas isso aqui ficou bom’, dava uma lapidada na letra. Vou lendo umas matérias. Ano passado escrevi “Brasil com Z”, foi logo quando conheci a página da Mídia Ninja, bombardeado de informação, galera colocando preso no container, o genocida lá dizendo que não era coveiro, vou fazer uma matéria sobre isso aí.

Okado: “Tá na hora da gente contar a nossa história”

S.O.M: Você tem um bom olho no audiovisual, como isso aconteceu?

Okado do Canal: Essa parada veio recentemente, comecei a sair um pouco mais da área audiovisual de guerrilha, tive mais experiência com cinema, frequentar cinema, sacava outros filmes também. Daí no final das contas eu comecei a ir, ver os vídeos, filmes, tinha altos filmes da galera da elite, classe média, uma galera que não é da periferia, branco, falando com certa propriedade que não era pra ter né. Falei acho que tá na hora da gente contar a nossa história. Galera só foca no crime. Mesma galera que fala de favelado assim e pá, mas atravessa a rua quando vê a gente. Conheci uma galera, Pedro Sotero, Lucas Caminha, uma galera que tava disposto a compartilhar do seu privilégio. A gente produziu “Ei Brown”, cenas reais gravadas com o celular dentro do Restaurante Leite, o mais antigo daqui. Depois a gente fez “Vamo Se Armar”, já foi mais a galera da favela mesmo, um casal, Rodrigo Garcia e Natália Correa que trampa com nós na Usina da Imaginação. “Brasil com Z” a gente fez em casa mesmo, no celular, eu e minha companheira.

A ideia é produzir com qualidade, mostrando realmente o que é e não o que a galera acha que é.

Ninguém nunca vai chamar o cara pra dirigir um filme, então a gente tem que fazer nossos próprios corres. Penso em produzir mas é difícil, produzir com qualidade, com roteiro, com uma pré produção, tudo na camaradagem, a gente acaba tendo que dar prioridade para um trampo que tenha cachê, por mais que todo mundo tenha um amor pelo negócio, mas todo mundo precisa comer.

Okado do Canal: O lançamento do EP foi essa doidera toda de pandemia, ensaiar pra live se encontrar pra montar repertório, ensaio, eu e Phino sentimos essa necessidade, a gente tá vivendo uma época assim, todo tempo sendo bombardeado de energias negativas, a favela merece também, ter uma música assim que a galera vai trabalhar na segunda feira, mas ouça lembrando como foi o final de semana, ou pensando como vai ser, pensando ‘Pô, se eu ficasse rico hoje dava um pau no meu patrão’. A gente foi nessa onda, ‘tô com essa letra Phino, produz o beat aí’. Um dos propósitos desse EP foi apresentar ele como beatmaker, que Phino veio como DJ, mas ele produz também, e muita gente não saca. Aí falei ‘Duvido tu produzir um beat pra esse som aí’. Ele chegou com um beat e mais um, e disse ‘Agora é tua vez escreve aí’. O EP é bem diferenciado, tem afro trap, trap, boombap, um love song, um grime, tem instrumental dele também. Tava ansioso pra ver como batia na galera isso. Eu sou muito de escrever a partir das vivências que eu tenho, e as vivências que eu tava tendo era interna, em casa, ou vendo as coisas pela rede social, e aí eu tive dificuldade pra escrever por causa disso. Mas ao mesmo tempo já tinha vivência suficiente guardada também.

 

Ouça + Okado do Canal:

 

Escrito por

Jornalista, escreveu para Hits Perdidos e Música Pavê, atualmente Editor em Sistema Operacional da Música, S.O.M.

1 Comment

1 Comentário

  1. Opium Jones

    14 de agosto de 2021 at 5:45

    Krl, das melhores que já li aqui no sistema operacional da música. Muito obrigado por esse jornalismo lindo ❤️

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