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Entrevista

OS 21 ANOS DO FESTIVAL DEMO SUL

Após duas décadas de fomento cultural evento ganhará longa metragem

Festival Demo Sul
Foto: Rei Santos

Festival Demo Sul completa 21 anos em 2021, consolidado como um festival que inspira pessoas através da música. O evento dirigido por Marcelo Domingues trabalha lado a lado com muitos profissionais respeitados da música, permitindo que o público se conecte através de riffs e batidas.

O evento anual com certeza fixou o nome de Londrina, no norte do Paraná, como ponto de passagem de grandes nomes da musica independente. De Nação Zumbi a Mudhoney e Tom Zé aos locais The Droogies e Etnyah. 21 anos atrás, no inverno de trinta graus de 2001, o Demo Sul começou como um evento pequeno e pouco tempo depois já reunia comunidades, amigos de festivais, patrocinadores e músicos num intercambio natural, entre concertos, que aconteceram, por toda a cidade.

Londrina é um espaço aberto para este casamento surreal de música punk, metal, prog, rocker com percussão, violas, perna de pau e bolas de fogo. Em tempos de festival a cidade borbulha faíscas voando sob cenários naturais, cinematográficos, que só Londrina tem. Independentemente disso, o Demo Sul é uma lição de história para os fãs deste período, destas duas décadas de renovação da cena local. O mesmo espírito DIY comunal continua a florescer hoje, em tudo, desde o Metal as cenas experimentais até a insistência punk e hillbilly.

É fato que o festival é disposto a compartilhar e promover a música local, o patrimônio rocker londrinense e suas conexões sonoras com a região. Seleciona no seu player banda Trilöbit, aperta o play e segue o fio nessa entrevista com o idealizador do festival Marcelo Domingues, que nos presenteou com algumas de suas fotos preferidas que lembram momentos memoráveis ​​ao longo desses 21 anos.

 

Foto: Rei Santos

S.O.M: Qual foi o estopim para o surgimento do festival?

Marcelo Domingues: No começo dos anos 90, festivais como Abril Pro Rock, BHRIF, Super Demo e Juntatribo já estavam rolando pelo Brasil e apresentando bandas e artistas até então desconhecidos do “grande publico” como Chico Science & Nação Zumbi, Planet Hemp, Raimundos, Pato Fu, Mundo Livre S/A, Virna Lisi, Killing Chainsaw entre outras. Na mesma época selos independentes como a “Banguelas Records” do saudoso Miranda e a “Tinitus” do Pena Schmidt também estavam apostando nesse até então “novo mercado” da música nacional. E acho que isso foi o estopim para que 1996 com a união de seis bandas autorais de Londrina fosse realizado o primeiro e único festival de bandas independentes da década de 90 na cidade, o “LONDRINA UNDERGROUND SCREAM FESTIVAL”. Esse festival ficou marcado não pelo sucesso de mídia (como os festivais citados acima tiveram), mas pelo sucesso de público. Por se tratar de um evento que estava apostando em bandas autorais (devemos lembrar que Londrina sempre teve uma grande cena de bandas covers), o festival surpreendeu pois foram vendidos quase todos os ingressos antecipadamente e tivemos casa cheia. E essa experiência serviu de embrião para que seis anos depois, surgisse o Demo Sul.

S.O.M: Como era a cena londrinense há 21 anos?

MD: Essa historia da cena musical em Londrina vem de longa data. Em 1979, Gal Costa fez um show em Londrina. Reza a lenda que, após a apresentação, um jornalista quis saber o que a cantora achou da cidade. Ela teria dito, com sua languidez de menina baiana, que Londrina era uma “fazenda iluminada”. Quase 40 anos depois muita água já rolou. Londrina é hoje a quarta maior cidade do sul do país e tem festivais de primeira linha nas áreas de teatro, música, dança, cinema e circo. Antes dessa famosa declaração de Gal Costa, um coletivo de artistas – incluindo Domingos Pellegrini, Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção – já explorava ideias parecidas. O auge dessa geração foi o festival Na Boca do Bode, em 1973. Com concepção avançada, o show deixou claro que existia uma produção relevante na cidade. Anos depois, porém, o núcleo duro do movimento se dispersou.

No final dos anos 90, o caminho voltou a ser explorado pela extinta produtora Madame X, que inseriu a cidade em um circuito restrito de shows internacionais, e incluiu bandas como Buzzcocks, Fugazi e Superchunk. Os shows formaram público, além de abrir algum espaço a bandas locais, mas não dava vazão ao trabalho destas mesmas bandas para fora de Londrina.

Eu sempre digo que todo o projeto é destinado a desenvolver algo novo ao algo que precisa mudar. E precisava! Londrina conta com uma população jovem, imensa e renovada anualmente por gente de todo o Brasil, que chega para estudar em uma de suas 11 universidades. Só a UEL, a maior delas, responde por 20 mil desses estudantes. Tínhamos um número razoável de bandas, bons estúdios e espaços que poderiam ser explorados pra realização de shows, faltava um festival que garantisse uma articulação com o resto do país. E nesse contexto, surgi em 2001 o Demo Sul inserindo-se nos grandes meios de produção e comunicação nacional e tornando Londrina um polo de atração para público, bandas, músicos, produtores e jornalistas atrelados ao cenário da música brasileira. A cidade consolidou-se como peça importante na rota dos festivais nacionais de música, sendo incorporada de forma definitiva como referência às bandas e músicos de todas as regiões do Brasil. Este ambiente favoreceu para que o Demo Sul, reunisse grandes nomes da música nacional e internacional além de colaborar com a solidificação de inúmeras bandas da cidade.

S.O.M: Qual foi a melhor época para o festival?

MD: Foi de 2005 a 2010.

Tivemos um período no Brasil em que a politica pública de cultura tinha um valor imensurável.

Em Londrina, por exemplo, o investimento público na área de cultura durante esse período aumentou sensivelmente e com aumento dos recursos, várias expressões culturais se consolidaram. Foi uma época em que realmente o poder público abraçava a causa.

S.O.M: Qual a melhor edição do festival?

MD: Todas foram legais. Não teve uma edição em que eu fui e me arrependi, todas tiveram momentos especiais e marcantes, todas tem histórias boas a serem contadas, de certa forma acredito que todas tiveram sua importância no momento em que foram realizadas, desde as que foram realizadas em grandes arenas até as realizadas em pequenos pubs da cidade. Tenho comigo a missão de dever cumprido, em todas elas.

S.O.M: Top 5 de todos os lugares em que aconteceram as edições do festival.

MD: – Parque Aquático do Grêmio
– Concha Acústica de Londrina – Chácara Lima
– Todas as Tribos/Amnésia
– Chácara Pirata

Foto: Rei Santos

S.O.M: A edição que foi sucesso de público?

MD: Foi em 2010. Contando com todas as ações que o festival realizou entre shows, palestras, exposições, oficinas e workshops, o público total dessa edição chegou a 25 mil pessoas durante os 10 dias de evento.

S.O.M: Top 05 bandas gringas no festival?

  1. Rosário Smowing (Argentina)
  2. Vudú (Argentina)
  3. Mitch & Mitch (Polônia)
  4. Mudhoney (U.S.A)
  5. The Silver Shine (Hungria)
  6. Um show épico que merecia ter registro? Tom Zé (2010)

 

S.O.M: Qual o futuro do festival?

MD: Durante esse período de pandemia, optei por não fazer nenhuma “live” ou ação virtual que envolvesse o Demo Sul, respeito e entendo perfeitamente os amigos que optaram por esses formatos.

O festival para mim tem que ter transpiração, emoção e o calor humano sendo nutrido a cada nota, acorde e harmonias.

Se as coisas se normalizarem (e espero que isso aconteça o mais rápido possível com o avanço da vacina), temos uma previsão de retorno para o segundo semestre de 2023, casado com o lançamento do filme do festival.

S.O.M: Fale sobre o documentário do festival?

MD: Na verdade a ideia é produzir um filme, um longa-metragem. Estive na Clareira Filmes em duas reuniões com o Anderson Craveiro (Diretor que produzirá este longa), assistimos alguns filmes do gênero e conversamos bastante sobre roteiro, estética e o que pode ser utilizado como registro histórico, mas ainda estamos amadurecendo essa ideia de como podemos fazer para não trazer aquela narrativa dos documentários. Para a maioria das pessoas essa distinção é bastante estranha. No início, o cinema documental era uma ferramenta de investigação, mas essa definição perdeu espaço para concepções mais criativas. E é neste contexto que estamos “pirando”, a diferença entre os gêneros não importa muito, pois trabalhar conscientemente na fronteira entre as várias formas de explorar a realidade pode enriquecer qualquer tipo de arte. Sabemos que o registro histórico é uma parte importantíssima, e vamos manter isso, para a criação do filme, até porque temos aproximadamente 2.000 horas de registro em vídeo do Demo Sul.

 

S.O.M: Top 21 shows do festival

MD: Passaram pelos palcos do festival um total de 397 bandas. Seria fácil citar somente os headliners, mas eu seria injusto com os artistas independentes da cidade e de outras regiões que ajudaram o Demo Sul a crescer e se tornar popular. Então vou compartilhar esses 21 shows entre os headliners, algumas “Jam Sessions” e bandas independentes nacionais e locais.

HEADLINERS

  1. Patife Band (2003)
  2. Garotos Podres (2003)
  3. Júpiter Maçã (2005)
  4. Cachorro Grande (2005)
  5. Nação Zumbi (2008)
  6. Tom Zé (2010)
  7. B. Negão e os Seletores de Frequência (2011)
  8. Raimundos (2012)

JAM SESSIONS

  1. Kid Vinil & Hocus Pocus (2008)
  2. Thunderbird & Búfalos D’água (2012)
  3. Gerson King Combo & Indayana (2013)

ARTISTAS NACIONAIS

  1. Stereo Maracanã (2003)
  2. Macaco Bong (2006)
  3. Porcas Borboletas (2006)
  4. Moveis Coloniais de Acaju (2007)
  5. Muntchako (2016)

ARTISTAS LOCAIS

  1. The Cherry Bomb (2005)
  2. The Droogies (2007)
  3. Espíritos Zombeteiros (2007)
  4. Terra Celta (2008)
  5. Etnyah (2012)

S.O.M: Curiosidade que ainda não saiu na imprensa

MD:  Todas as manchetes abaixo poderiam estampar matérias relacionadas ao Demo Sul. Mas nem tudo que é legal vai para as páginas dos jornais…

“Garota invade o palco e promete “boquete” para quem achar sua carteira”
“Bandas ficam hospedadas em casa de repouso para insanos”
“Jornalista fica chapado grita com organização do evento, quebra a porta da Van e é expulso do festival”
“Whisky 12 anos no café da manhã alivia a organização do stress”
“Móveis Coloniais de Acaju interrompe o show para fã pedir a noiva em casamento durante a apresentação”
“Dono de estabelecimento proíbe produção de colar cartaz do Demo Sul achando que era coisa de seita satanista”
“Carro da produção atola no estacionamento e integrantes do Garotos Podres saem da Van para ajudar empurrar o carro”

S.O.M: O line-up dos sonhos…

MD: O Demo Sul sempre foi um festival que apostou no ineditismo, em trazer e mostrar o “novo” para o público, isso foi o fio condutor que levou o festival a torna-se um evento de repercussão nacional e conquistar sucesso de público de mídia, então continuaria com a mesma proposta. Se sonhar alto ou sonhar baixo dá o mesmo trabalho e a edição fosse acontecer neste ano de 2021, eu pensaria numa programação com dez bandas por dia/noite, dividas em dois palcos de arena… E o line-up do sonho ficaria mais ou menos assim:

PRIMEIRO DIA

Fatoumata Diawara (Costa do Marfim)

Bomba Stereo (Colômbia)
Sudan Archives (U.S.A)
Tinariwen (Mali)

Bombino (Agadez/Nigeria)

Huun-Huu-Tu (Russia/Mongolia)

Dongyang Gozupa (Coreia do Sul)

Jambinai (Coreia do Sul)

Baiana System (Brasil)
Sampa The Great (Australia/Zâmbia)

SEGUNDO DIA

General Elektrik (França)

Deluxe (França)

Fitz and the Tantrums (U.S.A)

Chicano Batman (U.S.A)

Fkj & Masego (Jamaica)

Caravan Palace (França)

Mr Jukes (UK)

The Limboos (Espanha)

Dona Onette (Brasil)

Thievery Corporation (U.S.A)

TERCEIRO DIA

Songhoy Blues (Mali)

Vapors of Morphine (U.S.A)

Dubioza Kolektiv (Bósnia)

White Denim (U.S.A)

Sofia Portanet (Alemanha)

Moon Hooch (U.S.A)

Otoboke Beaver (Japão)

Ho99o9 (U.S.A)

Whiskey Shivers (U.S.A)

War and the Treaty (U.S.A)

Foto: Ana Flavia Negro 2004

Escrito por

Nasci em terras tupiniquins, mas sou cidadão do mundo... um poeta amador escrevendo beats numa jornada artística com pitadas de jornalismo. Essa fase da minha vida começou nos corredores da UEL entre 2005 e 2008. De 2012 a 2014 fui apresentador na Web Radio ALMA Londrina e Fiz um filme com a Maria Alice Vergueiro, ela mesma, diva que você conhece do curta: Tapa na Pantera. Esse filme eu fiz com os amigos da Clareira Filmes (2013) e Em 2011 trabalhei na produção de um curta com o ator inglês George Antoni para a Union Films - UK. Antes, de 2008-2010 colaborei com a revista Dynamite como correspondente em Londres. Antes de me aventurar escrevendo para a som.vc, eu andava testando novas linhas e contornos para o esquecido gonzo jornalismo... na revista digital: escuta que é bom.

2 Comentários

2 Comments

  1. Waléria

    16 de agosto de 2021 at 17:27

    Muito bommnnmn!

  2. Danielle

    18 de agosto de 2021 at 16:33

    O melhor Festival independente do Sul do Brasil. Avante DEMO!

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