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Entrevista

PATRÍCIA ILUS: MÚSICA E ATIVISMO

Patrícia Ilus é doutora em Geofísica Espacial e abandonou a carreira acadêmica para se dedicar as artes. Cantora, compositora, atriz, poeta e dramaturga, lançou no último dia 22 o seu EP Corpo Fêmea, onde finaliza um ciclo da sua carreira, iniciado no ano de 2018.

Na trajetória de utilizar o feminismo como materialidade para expressar a sua forma de se entender no mundo, Patrícia encontrou na música pop/funk território favorável para expressar as suas lutas e busca pelo autoconhecimento.

Durante a pandemia, a artista se descobriu autista, e este diagnóstico a incentiva a trilhar um novo caminho no ciclo que se iniciará.

SOM: Patrícia, como começou  seu envolvimento com a música? Vi que você é formada é formada em Física e doutra em Geofísica.

Patrícia: Então, eu comecei lá no coral da UFES, enquanto eu fazia a faculdade de física. Meu primeiro contato foi como coralista. Depois, passei a ser solista do coral e antes de terminar os estudos, comecei a estudar canto. Comecei pelo canto lírico, fui estudando paralelamente física, até que senti uma urgência de me dedicar à música e a vida me encaminhou pra isso.

A música se tornou um foco muito grande na minha vida. Enquanto fui fazendo o bacharelado em canto lírico na FAMES, fui fazer teatro também. Enquanto isso fui desenvolvendo composições, experimentando estilo, experimentando tocar com banda. Acho que fui construindo o lugar onde estou agora com muita reflexão, experimentação, conhecendo pessoas, e recebendo a influência delas. Comecei a fazer barzinho, fui cantar no Festival de Blues e Jazz de Manguinhos em 2012, depois fiz um show de música popular, “Rebento” em 2017, participei de vários shows como artista convidada.

Em determinado momento senti que precisava direcionar mais a minha carreira com a música autoral. Eu sempre gostei muito de fazer música dançante, de falar de feminismo e decidi exercitar a linguagem do funk. Como eu tenho muitas influências musicais, o funk que eu faço acaba se tornando uma mistura delas, uma música popular com batida de funk, uma balada que as pessoas escutam e perguntam “O que é isso aqui mesmo?”. E eu acho ótimo quando as pessoas perguntam o que é porque você está criando alguma coisa nova.

SOM: Patrícia, quando o feminismo atravessou o seu processo artístico?

Patrícia: Quando eu engravidei. Quando eu engravidei eu não lidei muito bem, pra dizer a verdade fiquei bem apavorada. Quando eu soube que era uma menina, entrei numa crise muito forte e fiquei com muito medo. Fiquei investigando o porque desse medo enorme que eu estava sentindo e veio o gatilho de todas as coisas que eu já passei e não gostaria que ela passasse. Na mesmo hora eu chorei e falei que não queria que minha filha passasse por tudo aquilo que eu passei. Ficou muito forte em mim a necessidade de mudar o mundo, pra protegê-la. Claro que é um pensamento muito grande, achar que posso fazer algo pra mudar o mundo, mas eu precisava fazer alguma coisa para amenizar aquilo que eu sentia.

Eu fique muito feliz, lancei o primeiro clipe e ficou como abertura do funk feminista que eu queria fazer, se chama “Revolucionou”. Eu fiquei feliz quando soube que esse vídeo foi parar dentro da penitenciaria feminina de Cariacica a partir de um curso sobre violência contra mulher e as detentas viram o clipe, gostaram, ficaram surpresas, reconheceram o local.  Isso tocou elas até o ponto de as agentes penitenciarias ficarem sabendo do clipe pediram pra assistir. Ou seja, tocou de alguma forma, deu algum recado, transformou em algum lugar que eu nunca imaginei que poderia alcançar.

Eu sou recentemente diagnosticada com autismo e isso explicou muitas coisas na minha vida. Como a minha dificuldade de criar rede de contatos, de me comunicar de forma constante com as pessoas. Muitas dificuldades eu superei de acordo com as necessidades, como a minha maturidade, testando, tentando. Ser artista é criar conexões. É você estar em eventos sociais, coisas que nunca consegui participar, estar sempre encontrando com artistas, produtores e isso eu não consigo fazer. Então, quando eu vejo um produto meu chegando num lugar onde eu gostaria de estar, é emocionante pra mim. Entende? Porque o trabalho em si que caminhou. E eu vou caminhando com muita ajuda. Muitas pessoas acham que eu não gosto de me comunicar, mas é uma dificuldade pra mim.

SOM: Além do ativismo feminista, você traz o autismo. Você pode falar um pouco sobre a descoberta dessa condição e como tem transformado isso em potência?

Patrícia: Eu fui diagnosticada esse ano mas eu sou autista desde criança. Eu tava num processo de sofrimento muito grande, por tentativas e fracassos exaustivos, com a pandemia, eu fiquei mais desnorteada ainda, isolada do mundo e ficou muito urgente eu procurar profissionais capacitados para me avaliarem e eu recebi esse diagnóstico. A medida que eu fui lendo mais sobre, encontrando outras pessoas autistas e adultas, eu fui percebendo muitas coisas em comum. A avaliação foi extensa, com muitos testes com neuropsicólogos, psiquiatras. Atualmente eu faço terapia para me dar suporte.

Quando a gente é autista, não é só uma questão de autoconhecimento, é uma questão de o entorno estar ciente dessas diferenças na socialização. Então, entendi que o meu papel é de informar. Autismo não é doença, é uma forma diferente de estar no mundo. O que eu preciso é que essa sociedade construída por pessoas diferentes de mim entenda que eu existo e que eu também preciso participar. 

Como esse EP Corpo Fêmea foi construído anteriormente ao diagnostico, não fala diretamente sobre autismo, mas as próximas músicas falarão mais abertamente. Mas como autista e mulher eu digo, não fui diagnosticada recentemente mas na infância meu choro foi tido como sensibilidade, minha dificuldade de interação foi tomada como timidez, características desejáveis para uma mulher. Então, todas as minhas características que seriam indicativos, passaram despercebidas. Não tem como desconectar uma coisa da outra.

SOM: O Corpo Fêmea é um projeto antes de se tornar um álbum né?

Patrícia: Corpo fêmea está espalhado por vários processos. Tenho duas músicas com esse nome que não entraram no EP… mas esse nome, é porque  o meu corpo foi designado mulher a partir do meu nascimento e desde então, eu tenho passado por todos moldes que a sociedade coloca para as mulheres. As vezes de forma sutil e outras até mais violentas.  E quando eu digo corpo fêmea, é com a ideia de início, de experimentação do corpo no mundo sem quaisquer moldes impostos. É nessa ideia que eu construo também o EP.

Queria dizer que a equipe toda que trabalhou comigo foi de excelência e inclusive fizeram adequações para eu me sentir mais confortável no processo de gravação do EP e dos Clipes.

Rodolfo Simor foi o produtor das musicas, também responsável pela mixagem e masterização. Foi receptivo às minhas ideias e abraçou o projeto com muito respeito e escuta. O resultado foi incrível. Os músicos: Queer Code, Thaysa Pizzolato, Fabrício Hoffmann e Saulo Santos, trouxeram suas influencias, mas ao mesmo tempo, exploraram suas potências criativas diante do desafio de integrar vários estilos. 

Melina Furlan que gravou e editou os clipes, muito criativa, e aberta a ideias. Foi super importante em todo o processo, a Rafaela Vagmaker, produtora executiva do projeto, me apoiando e fazendo pontes; Lara L’estrange, como parceria nos clipes e no show de abertura. Uma amiga que surgiu na pandemia e se transformou numa parceria forte. David Scardua que fez toda concepção de maquiagem e figurino para mim, e ainda deu suporte a todo o elenco. As dançarinas Lalau Martins, Vanessa Silva e Giovanna Fontoura, sempre parceiras, me acompanhando desde o começo do projeto. Dançando muito!

 Para além do projeto Corpo Fêmea, Ilus conta com o trabalho da produtora Bárbara Valente, com quem estabeleceu uma parceria desde o começo desse ano. “Bárbara tem sido importante para me ajudar a estabelecer contatos, criar estratégias e lidar com a escrita de projetos e as partes mais burocráticas da vida de artista.”, comenta a artista.

Escute o EP Corpo Fêmea:

 

Escrito por

Acredito no poder de transformação social da música e busco conhecê-la desde o seu contexto, nas narrativas periféricas de produção em cultura e na história que não é única. Comunicadora e criativa, garimpo vinil vez em quando.

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