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Entrevista

Paula de Paula: cantautora goiana que faz das cordas e teclas seus principais instrumentos de ação

Foto: Guilherme Guedes

Viola e sanfona são os principais instrumentos, musicais e políticos, da multiartista e multi-instrumentista Paula de Paula. A cantautora alia sua carreira musical ao trabalho docente enquanto arte-educadora e estabelece através do regionalismo da cultura sertaneja e caipira os pontos de partida para suas criações artísticas. O trabalho docente, além de ter reflexo em suas composições, colabora para a manutenção de sua vida artística propriamente dita.

Nascida e criada no estado de Goiás, Paula desde a infância teve contato com os instrumentos musicais por intermédio de seu pai. A trajetória da família, do campo para a cidade, fez com que além dos instrumentos acústicos, a eletricidade das guitarras e contrabaixos fizesse também parte da então criança, que já acompanhada de seu “caderninho”, rabiscava letras que anos depois viriam a fazer parte de suas composições. Não tardou para que ela, aos quinze anos, passasse da admiração auditiva para o sentimento tátil do tocar violão. Aos dezoito, migrou para a viola caipira, e junto com sua entrada na faculdade de artes cênicas, começou a compor e participar de festivais enquanto artista solo, garantindo o segundo lugar do festival SESC Canta Cerrado, com a canção Canarinho Cantador, passando também pelo festival Frutos da Terra e enveredando pelo cenário da viola caipira em outros estados, como Espirito Santo e Minas Gerais.

Na efervescência cultural da universidade encontrou parceiros que viriam a fazer parte da construção de sua carreira. Neste período, 2015, além de se apresentar com o grupo feminino Batuque de Roda Meus Amô, entrou para a banda Erotori, que lançou seu primeiro álbum “O amor, a Paz e o Pão” em 2019. O duo Ave Eva, composto por Paula e Flávia Carolina, instrumentista e compositora, é também um de seus projetos principais, com disco de estreia, homônimo, lançado em 2018.

É notável o fato de que além de estar presente em múltiplos projetos, característica dos artistas do cenário independente – incluso a atuação enquanto professora e arte-educadora – os trabalhos que Paula de Paula integra trazem sempre consigo a assinatura da viola, da sanfona e do cantar sertanejo. Na Erotori, banda na qual somam-se a cantautora, Noel Carvalho (Bateria), Emanuel Leal (baixo), Daniel Pregnolatto (guitarra), Rozinaldo Miranda (sax tenor) e Marcos Galvel (teclado), tal assinatura é vista na mescla entre elementos tradicionais e modernos. O som característico da viola caipira, dos ritmos do sertão, do cerrado e do interior, dialogam com as guitarras, os teclados e os efeitos sonoros da capital, trazendo inventividade para as composições, o que pode ser visto na faixa Pipoca Doce.

Ave Eva, por sua vez, traz de maneira ainda mais evidente os ritmos e aspectos sonoros característicos do estado de Goiás, da vivência interiorana do cerrado brasileiro, ainda que com uma roupagem atualizada e nada conservadora. A decisão de traçar esse caminho estético e sonoro veio, além das influências da trajetória pessoal, enquanto afirmação de identidade: “Com o passar do tempo, através até de minhas composições, eu vi que realmente é uma forma de me afirmar nessa cultura goiana e de reconhecer a beleza disso; de vivenciar as folias, de me encantar com a sanfona, com a viola; e de perceber toda a memória afetiva que esses instrumentos trazem, não só pra Goiás, mas pro Brasil todo”, relata.

No sentido político da atuação artística, Paula deixa clara a intenção de ocupar um cenário majoritariamente composto por homens. A escolha da viola e da sanfona são também decisivas para essa tomada de espaço.

“Eu acho muito legal estar representando estes instrumentos sendo mulher nesse contexto da música  caipira, no qual tem a predominância de homens tocando viola e sanfona. Então é um lugar que gosto de estudar e me expressar; expressando o feminino e minha arte através deles.”

Desse modo, estar presente em projetos compostos só por mulheres é um reforço para o aumento da presença feminina no meio musical, o que vai além de uma possibilidade de construção de narrativa da mulher empoderada, colocando em foco o próprio eu-lírico feminino e possibilitando que todas as facetas da música e da poesia partam do ponto de vista específico das mulheres: “É realmente o eu-lírico feminino nas músicas. O enredo que parte de uma mulher que tá contando a história. Então não são só as letras que vão estar diretamente me colocando nesse lugar de empoderada, mas a minha poesia, independente do que ela esteja falando, eu estou falando, é um lugar de fala do feminino, da mulher”.

Paula reconhece que apesar de recente, a presença feminina no sertanejo ganha cada vez mais força, inclusive no mainstream e no que ficou conhecido como feminejo com cantoras como Marília Mendonça, por exemplo. Pensando nisso, durante a quarentena, Paula juntou-se a também violeira Letícia Leal para mapear e tornar visível o trabalho das violeiras do Brasil. Por meio das redes sociais começaram um processo de cadastro de violeiras e ficaram felizmente surpresas com o resultado.

Em 2020, Paula de Paula empenha-se na realização de dois projetos: um disco infantil e o seu primeiro álbum solo. Contando com a produção de Pedro Laba, o projeto inspirado pela maternidade e pela vivência enquanto arte-educadora terá oito composições que perpassam os ritmos populares como xote, maracatu, baião e outros. O disco que tem o lançamento do primeiro single previsto para o Dia das Crianças conta com o coro gravado pelos alunos da Escola do Sertão, local onde trabalhou enquanto docente.

Paralelamente, a compositora trabalha também no seu disco solo, Violeira, sonho construído desde criança, época em que já havia definido a estética caipira do disco. Produzidas em conjunto com Pedro Vaz – violeiro que participa em faixa instrumental do álbum – as dez músicas estão em processo de gravação, com as guias já definidas. Os traços sonoros da compositora aparecem com mais força neste trabalho, tendo guarânias e demais ritmos marcadamente sertanejos.

Paula de Paula, apesar de distante dos palcos, como tantos outros artistas, continua focada na produção e desenvolvimento de seus múltiplos trabalhos. Conciliando as diversas frentes de sua multifacetada carreira, a compositora e violeira, moradora de Alto Paraíso, Chapada dos Veadeiros, se esforça também para fortalecer os movimentos independentes com sua arte, entendendo a necessidade de integração das frentes de resistência popular da comunidade local e regional e esforçando-se para a manutenção e movimentação das culturas populares nos seus mais amplos sentidos.

Escrito por

Cientista social, músico e compositor. Aprendo a musicar com a sociologia e tento entender o mundo com a música; sozinho e junto à banda Diadorim. Sempre em trânsito entre São Paulo e Goiás, me interessam as nuances e seus pontos de encontro. Você não acha Elomar muito mais pesado que Slipknot?

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