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Entrevista

Além do “Please, Come to Brazil!”: há 10 anos, Queremos! mudou a forma de pedir shows no país

Alex-Woloch - Queremos! Festival 2019
Foto: Alex Woloch - Queremos! Festival 2019

No final do ano de 2010, um grupo de cinco amigos, fãs de música e festivais, planejava mais uma viagem para assistir ao show do Miike Snow. A banda havia deixado o Rio de Janeiro de fora da turnê, assim como vários outros grupos internacionais, que vinham pulando a Cidade Maravilhosa. Era uma época em que o Rio vivia um momento no mercado de entretenimento bem diferente do atual. O Rock in Rio não tinha voltado, o Lollapalooza ainda não havia acontecido no Brasil e, em três anos, fecharam importantes casas, como relembra Pedro Seiler: Scala, Cinemathèque, Ballroom, Mistura Fina, Canecão.

Os amigos estavam viajando juntos e conversando sobre ir para outra cidade, mais uma vez, para assistir a um show. Foi quando surgiu o questionamento: “Não é possível que 200 pessoas não possam pagar 200 reais ao invés de ir para São Paulo, pagar o hotel, pagar passagem, pagar o ingresso.”

Seguindo a ideia da conhecida “vaquinha” e com uma motivação extra que já vinham recebendo de Alexandre Rossi (Rolinha), programador do Circo Voador, para elaboração de algum projeto, os amigos lançaram um Manifesto com o intuito de trazer Miike Snow para o Rio. Tudo aconteceu de um jeito super informal, sendo o valor arrecadado através de uma conta de PayPal pessoal.

A ideia foi super bem aceita e, numa segunda-feira, 20 de setembro de 2010, o primeiro show da iniciativa aconteceu, recebendo um público de quase 900 pessoas no Circo Voador. Logo depois, o grupo repetiu o mesmo formato para a banda Belle & Sebastian. Com o sucesso consecutivo, havia chegado a hora de formalizar a ideia: nascia a marca Queremos!

Apesar de ter sido uma iniciativa um pouco despretensiosa, o grupo de amigos, formado por Bruno Natal, Felipe Continentino, Pedro Garcia, Tiago Lins e Pedro Seiler, já trazia uma relevante bagagem profissional no segmento da indústria criativa: Natal com jornalismo documental, Continentino com direção de programas de TV, Garcia com publicidade, Lins economista mas que trabalhava com fotografia e TV, e Seiler com experiência em turnês, curadoria e direção artística, além de passagem por gravadoras (BMG e Biscoito Fino).

E é com esse belo começo que celebramos os 10 anos dessa rede aqui no S.O.M, em uma conversa com Pedro Seiler, um dos sócios-fundadores da marca.

O MODELO – CROWDFUNDING

As plataformas de Crowdfunding começaram a surgir por volta de 2005, nos Estados Unidos. O conceito surge com uma ideia filantrópica, de doações e, também, de viabilização de produtos e invenções, com arrecadação no meio virtual. O Queremos!, além de ser um dos pioneiros no país, trouxe uma ressignificação de como se vinha trabalhando o crowdfunding, ao utilizá-lo para shows ao vivo.

A plataforma usou este modelo por mais ou menos 1 ano. Os sócios entenderam que o crowdfunding, apesar de reduzir o risco, oferecia algumas barreiras. Para conseguir patrocínios era necessário ter um calendário e, além disso, os agentes de grupos internacionais não olhavam com bons olhos a ideia, porque parecia que o artista não estava consolidado naquele mercado.

Os sócios, então, deram um passo atrás com o objetivo de profissionalizar a marca. A ferramenta de crowdfunding, que viabilizou o Queremos!, deixou de ser o principal modelo de negócio. Eles investiram numa plataforma em que o fã pudesse pedir um artista, gratuitamente, e começaram a trabalhar esses dados como norte, para a tomada de decisão e curadoria.

“Ao longo desses 10 anos tiveram vários artistas que a gente nunca tinha ouvido falar e que de repente pipocavam 1500 a 2000 pedidos na plataforma. E aí, a gente ia atrás para ver se era viável ou não, se o artista existia, se estava vivo, se ainda fazia turnê. The Cat Empire foi um exemplo, a gente fez shows de alguns artistas mais teens como Jack and Jack, coisas que a gente não conhecia e foi totalmente devido aos pedidos dos fãs.”

OS DADOS E INSIGHTS

No ano de 2015, com o retorno de Los Hermanos, a plataforma recebeu uma enxurrada de pedidos orgânicos pelo show da banda: em torno de 50 mil! O Queremos! decidiu então propor um projeto com a Orquestra Petrobras Sinfônica, que já vinha desenvolvendo iniciativas inovadoras, com o Matheus Simões à frente da direção executiva. A relação já existia – a orquestra utilizava a plataforma para pré-venda de pacotes para assinantes, por exemplo. A parceria para produção deste conteúdo deu super certo, os ingressos voaram e, em 2016, foi lançado o Ventura Sinfônico, rendendo turnê pelo país e documentário.

OS PÔSTERES COLECIONÁVEIS

A experiência de um show ao vivo é única mas, para o público, a sensação de ter algo de recordação é especial. Por serem fãs antes de empreendedores, os amigos decidiram oferecer para cada noite um pôster exclusivo, elaborado por um artista diferente e distribuído gratuitamente, agregando diferencial à marca desde o primeiro evento.

Os pôsteres viraram símbolo do Queremos! e objeto de desejo, seja nos shows ou nas edições do festival. No início, imprimiam no verso o nome de todos os fãs que haviam participado da pré-venda, através do crowdfunding. Com a alteração do modelo, começaram a imprimir os nomes das pessoas que pediam o show antecipadamente, na plataforma.

“10 anos depois a gente continua, para cada show a gente chama um artista gráfico diferente, dá liberdade total de criação pra eles, aí vão desde artistas super conceituados Raul Morão, Luiz Zerbini, Breno da Hardcuore enfim, a artistas novos, designer novos. O do [Rodrigo] Amarante ele próprio fez o pôster, a gente dá liberdade total de linguagem, de formato.”

O FESTIVAL

O Queremos! se intitulava “um festival anual”, promovendo diversos shows ao longo do ano. Os sócios, como apaixonados por festivais e frequentadores assíduos, foram amadurecendo a ideia de criar o próprio grande evento e dar mais um passo na constante construção e consolidação da marca.

Em 2018, lançaram a primeira edição do Queremos! Festival, num dos locais emblemáticos do Rio, a Marina da Glória: um evento para até 10 mil pessoas, com montagem inédita de dois palcos e muitas ativações de marca.

“A gente tinha uma nível de exigência muito alto, da gente com a gente mesmo, então demorou a sair do papel […] a gente não acha que tenha nada parecido no Brasil até hoje; um festival de um dia ininterrupto com a qualidade do serviço, a coerência do line up […] com cuidado nos mínimos detalhes e foi legal, assim, ver que tanto por parte do público, quanto das marcas, quanto de imprensa, com duas edições, o festival já está bem consolidado, com possibilidade de acontecer em outras cidades também.”

A PANDEMIA E CRIAÇÃO

O período de isolamento inviabilizou uma programação de comemoração dos 10 anos de Queremos!. O ano que seria o mais forte, em termos de agenda, já contabilizava 9 shows com vendas abertas, o line up da terceira edição do Festival, além do planejamento de festas de 10 anos, nas cidades do Rio e São Paulo.

Esse “motivo de força maior”, cláusula bem conhecida nos contratos artísticos, redirecionou o foco e a energia, antecipando os planos de produzir mais conteúdo digital. O projeto que seria colocado em prática a partir de 2021 inclui: artistas assinando playlists, investimento maior na Input (newsletter), reformulação do site, projeto de podcast, conteúdo audiovisual, como o já lançado “Dá a letra”, onde os artistas explicam um pouquinho das letras das canções, além de mais três projetos engatilhados.

“A quantidade de conteúdo e sessões novas que a gente vai abrir, o site vai ficar menos dependente dos shows, vai ter gente entrando pro blog pra ver notícia, na seção de podcast, na seção de produção de conteúdo audiovisual. Várias seções que vão gerar visitas.”

No segmento das lives, a plataforma foi uma das pioneiras, em abril, com o formato de festival, sendo realizada em dois finais de semana, com remuneração garantida para os artistas. O Heineken Home Sessions foi a primeira transmissão ao vivo do canal da marca, em parceria com a Heineken. A iniciativa promoveu um boom nesse processo de digitalização, rendendo um crescimento exponencial de seguidores, principalmente no canal do Youtube. Sobre o projeto da live, num momento que estava sendo marcada por projetos mainstream ou sem formatos mais abertos, Pedro comenta:

“Tinha que fazer sentido com o que a gente era, tinha que botar artistas de todos os tamanhos mostrando a diversidade que tem na música brasileira e, ao mesmo tempo, tinha que ter a ver com o nosso DNA, não dava pra ser uma coisa gratuita. […] Ele nasceu a quatro mãos, a gente tinha uma vontade de fazer alguma coisa, a Heineken também, então a gente desenhou junto mas a curadoria 100% nossa, a produção 100% nossa, usando a nossa expertise de comunicação e engajamento com os fãs.”

UMA DÉCADA

Depois de 10 anos, mais de 250 shows e mais de 300 mil espectadores, a plataforma, que também tem na trajetória atuação em terras estrangeiras, hoje direciona 100% do foco pro Brasil, atuando principalmente em quatro cidades: Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre. Dos cinco sócios-fundadores, dois seguem na operação, Seiler e Continentino, acompanhados por uma equipe enxuta, promovendo de 16 a 22 shows por ano, além do festival.

Em constante evolução, o Queremos! segue fortificando a marca, o engajamento e a presença digital, trabalhando também como agência de conteúdo, agência de comunicação e com projetos de curadoria para marcas. A programação de celebração de 10 anos, com bastante aglomeração, vai ficar para o próximo ano, mas Pedro confirma que esse ano será lançado o segundo livro, continuação do livro de 5 anos, com pôsteres destacáveis. Ele comenta: “…e torcer para que a gente possa comemorar 10 anos no ano que vem […] acho que tem uma licença poética pra comemorar a partir de quando puder”.

Pra finalizar a conversa, de uma forma bem simbólica e com um certo desafio, o S.O.M. propôs uma lista dos 10 shows mais marcantes do Queremos!. Confere aqui o comentário do Pedro e a lista:

Foto: Eduardo Magalhães - PhoenixFoto: divulgação - Kamasi Washington

Fotos: Phoenix por Eduardo Magalhães e Kamasi Washington – divulgação

 

“Qualquer pergunta de lista pra mim, apesar de eu gostar muito de lista, é muito difícil. Vou tentar não pensar muito porque, provavelmente, se você perguntar isso amanhã vai ser diferente e vou misturar o gosto pessoal de realização, com a qualidade do show, com a importância do show pro Queremos!. Certamente estou sendo injusto com vários shows e momentos especiais […] mas acho que esses que eu falei estão fazendo jus à história, sim.”

1 – Wilco (2016 – Circo Voador)
2 – LCD Soundsystem (2011 – Vivo Rio)
3 – The Chemical Brothers (2015 – Vivo Rio)
4 – The National (2011 e 2018 – Circo Voador)
5 – Gal Costa (2019 – Queremos! Festival)
6 – The XX (2013 – Vivo Rio)
7 – Tame Impala (2012 – Imperator, 2013 e 2014 – Circo Voador)
8 – Kamasi Washington (2019 – Audio/ Circo Voador/ Opinião)
9 – Broken Social Scene (2011 – Circo Voador)
10 – Tony Allen (2012 – Circo Voador)
Bônus – Phoenix (2018 – Circo Voador)

Além das próprias redes sociais, os conteúdos dos shows são disponibilizados em seu canal no YouTube, confira abaixo:

Escrito por

Apaixonada pelo universo da música, presença frequente em shows e festivais, exploradora de novas tendências e colecionadora de sons em playlists.

2 Comentários

2 Comments

  1. beto

    22 de outubro de 2020 at 9:09

    sempre surpreendendo com seus passos à frente do que se imagina. nem tente defini-la, voce vai errar!

  2. Dimi

    24 de outubro de 2020 at 9:01

    Excelente matéria! Muito bom conhecer um pouco mais do Queremos! iniciativa inspiradora para todo o mercado.

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