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Samba: da ilegalidade à identidade nacional 

Da criminalização ao uso político do samba

Arte: "Roda de Samba" - Carybé
Arte: "Roda de Samba" - Carybé

 

Há registros de que a palavra samba era utilizada em diferentes lugares das Américas, dizendo respeito ao universo dos negros, sobretudo, a danças em roda.  A palavra se popularizou no final do século XIX no Rio de Janeiro após a imprensa utilizá-la para associar a manifestações culturais populares.

“O samba, não esqueça, veio da Bahia para o Rio”, Donga.

A perseguição às práticas culturais de afirmação da identidade periférica e afro-brasileira não é novidade. Temos os cultos religiosos de matrizes africanas, que foram se integrando nas práticas católicas para continuar existindo durante a colonização no Brasil; a capoeira, que foi proibida pelo decreto número 847, de 11 de outubro de 1890 até 1937; e o samba, que no início do século XX ainda não era entendido como um gênero musical, mas era considerado um crime de “vadiagem”, o que fez com que sambistas fossem perseguidos por policiais e autoridades, e até presos, como João da Baiana por andar na rua com um pandeiro. Na máxima, temos o funk, que atualmente sofre tentativas de criminalização.

Apesar de ser considerada por alguns como um maxixe, “Pelo Telefone” foi gravado no ano de 1917 na voz de Baiano e é tido como o primeiro samba registrado da história. Assim, principia o marco do samba como gênero musical para a indústria fonográfica. A composição é atribuída a Donga e Mauro de Almeida, e o processo de criação está associado à Tia Ciata, considerada por muitos como a representante mais influente para o surgimento do samba, baiana, empreendedora, candomblecista, fomentadora cultural do Rio de Janeiro no séc. XX.

Após a popularização do samba por teatros de revista, rádios, carnavais e pela própria indústria cultural, as transformações e suas diversas vertentes foram ganhando notoriedade. Por fim, no governo populista do Estado Novo de Getúlio Vargas, o samba carioca foi instituído como um dos símbolos da identidade brasileira. 

“A construção do estado-nação é uma estrutura política com traços culturais associados à ideia de identidade. Quando a gente fala de identidade nacional brasileira, precisamos entender que essa ideia vem procurando ser construída desde o século XIX, por diversos atores intelectuais. 

A identidade nacional é uma fabricação, porque os próprios estados-nação, surgem a partir de interesses políticos específicos.”  Pontua Pedro Amorim, músico e pesquisador.

O samba não é uma categoria homogênea. Existem vertentes que foram desenvolvidas com o tempo, de acordo com cada localidade a qual pertence. Existem o samba de roda, samba-chula, samba corrido, o coco, o partido alto, o pagode, samba de breque, o samba-enredo, o samba-canção, que se caracterizam pelo contexto o qual está inserido, além da forma de tocar, de compor e da formação instrumental.

Compreender o que se constitui como identidade cultural exige um mergulho na história do país em seus aspectos políticos, sociais e culturais. Aqui, trouxemos uma pequena dose de acontecimentos e construções ideológicas que fundamentaram as relações sociais no Brasil, e influenciaram o que foi se convencionando no tempo como identidade nacional.

“Existiam vários tipos de músicas que eram populares na época, como o maxixe, as modinhas, gêneros mais sertanejos, enfim… mas o samba foi escolhido para simbolizar a identidade nacional. Envolve duas coisas, precisamos olhar para a dinâmica da formação brasileira, e outra, que entra em um terreno especulativo porque a gente não vai ter dados, que é como acontece a transmissão da música popular, que é sempre oral. É difícil entender como um gênero influencia o outro, ou como um gênero vira outro. A não ser que pessoas que vivenciaram isso estejam vivas e possam trazer essas narrativas. Outro ponto importante que vale a pena ser dito, é que, na época, a cidade do Rio de Janeiro era a capital federal do Brasil. Então, tudo que aconteceu ali foi sintetizado como “Brasil”.”  Comenta Pedro Amorim.

 

Entre a malandragem e a exaltação

Independente de onde seja, o samba, originalmente, é uma manifestação cultural de pessoas pretas e marginalizadas. Com o advento do nacionalismo, as narrativas que os compositores traziam nas suas canções se destacavam por abordarem a malandragem, a reafirmação laboral, e a exaltação aos bens naturais. As temáticas colaboraram para a construção subjetiva do que é ser brasileiro, e foram estrategicamente veiculadas pela mídia a partir do interesse ideológico em voga.

No limite, temos como destaque a performance da Carmen Miranda, que alcançou o estrelato e carreira internacional levando o samba para os estúdios da Broadway, considerada por alguns como “a embaixatriz do samba”, e por outros, instrumento político de Getúlio Vargas, para alinhar seus interesses com os EUA. Bem como o personagem do Zé Carioca, construído por Walt Disney para representar a malandragem carioca e o “jeitinho brasileiro”, vendendo a ideia de brasilidade que ainda é muito reproduzida.

Existem diversas abordagens possíveis para falar e ler sobre a ascensão do samba, mas não podemos deixar de escutar a vasta e rica obra que os músicos brasileiros produziram durante essa trajetória. Temos os cariocas Cartola, Arlindo Cruz, Beth Carvalho, Ivone Lara, Paulo César Pinheiro; os paulistas Demônios da Garoa, Sombrinha, Adoniran Barbosa; os baianos Dorival Caymmi, João da Baiana, Riachão, Batatinha, Nelson Rufino, Mariene de Castro; os mineiros Ary Barroso, Clara Nunes, a maranhense Alcione, e vários outros.

O samba é brasileiro e isso é incontestável.

 

Pedro Filho Amorim é compositor, artista intermedia, pesquisador e educador. Colabora com vários artistas em projetos que envolvem música e artes expandidas. Professor do Centro de Cultura, Linguagens e Tecnologias Aplicadas da Universidade Federal de Recôncavo Baiano (CECULT – UFRB). Coordena o projeto de pesquisa interdisciplinar “Ritmos Humanos e Mundanos”.

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Acredito no poder de transformação social da música e busco conhecê-la desde o seu contexto, nas narrativas periféricas de produção em cultura e na história que não é única. Comunicadora e criativa, garimpo vinil vez em quando.

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