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Coluna

Transflorestar – Ato I: Iara Rennó nos convida a existir a partir da ótica do sentir

Resenha de show

Título: Transflorestar – Ato I

Artista: Iara Rennó

Local: Casa de Francisca (São Paulo, SP)

Data: 30 de abril de 2022

♪ Com mais de 20 anos de carreira, Iara Rennó não hesita em expressar a sua musicalidade utilizando de todas as possibilidades que a matéria sonora permite. Pautando a existência como elemento principal de criatividade, juntamente com os elementos da natureza, a artista irá nos conduzir a caminhos reflexivos, sensoriais e sinestésico.

No último sábado (30), Iara, Curumin e Ed Trombone apresentaram, pela primeira vez ao vivo, músicas do  filme “Transflorestar – Ato I”,  que teve a sua estreia na 19a Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip de 2021. Nele, a artista se debruça sobre o mundo a partir da ótica da floresta enquanto integra música, poesia, artes visuais e corpo, sob a temática da construção de um novo paradigma cosmogônico.

Numa sala a luz de velas, com o público sentado e atento, o trio construiu uma atmosfera imersiva a partir da sonoridade de animais não humanos, vento e folhas. Além de toda poesia que trata da união entre mente, corpo, espírito e a forma como tudo isso não está separado, a importância da conexão com o invisível, a riqueza dos riffs da guitarra da Iara e seu canto fluido, os solos de bateria do Curimin e do trombone do Ed.

Desvendando caminhos de conexão com a profundidade do significado de cada ser para construção do sistema ecológico, a artista vem nos afirmar que o sentido está no sentir, que o sentir pode nos auxiliar numa racionalidade mais construtiva que destrutiva como a qual nós estamos condicionados a reproduzir diante da educação cartesiana imposta pela sociedade.

Lançando um olhar sobre a trajetória de Iara, é inerente ao seu fazer artístico o ato de subverter os paradigmas sociais. Desde o que se diz respeito ao que é “ser” mulher dentro de uma sociedade falocêntrica e machista, como bem explorado em seu último álbum “AfrodisíacA”(2020) à integração do ser humano como parte da natureza, a tecnologia do corpo e a sua capacidade transcendente.

Em “Transflorestar – Ato I”, Iara encontra inspiração nos relatos de Davi Kopenawa, em “A Queda do Céu”; nas falas de Ailton Krenak; em composições sobre fragmentos de textos de Eduardo Viveiros de Castro e nos ecos de Makunaimã no “Macunaíma”, de Mário de Andrade. O filme incorpora também a possibilidade de um “(M)otherworld”, legado da filósofa burquinabesa Sobonfu Somé, e a perspectiva decolonial linguística proposta por Lélia Gonzalez em “Améfrica”.

já que o sentir é primeiro
quem presta alguma atenção
à sintaxe das coisas
nunca virá a beijar-te por inteiro

(e.e cumming)

Escrito por

Acredito no poder de transformação social da música e busco conhecê-la desde o seu contexto, nas narrativas periféricas de produção em cultura e na história que não é única. Comunicadora e criativa, garimpo vinil vez em quando.

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